13 Reasons Why

[Esse texto se conecta com esta crônica  e possui uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/SATpeC9X5r0]

Comecei a ver 13 Reasons com certa relutância, o tema parecia pesado, tinha muita gente dizendo que não queria ver, especialistas dizendo que não deveria existir a série daquela forma… enfim, opiniões voando por todos os lados.

Mas peguei o primeiro episódio naquela vibe: “se não for legal, paro”.

De cara a estrutura narrativa da série me pegou.

Pra quem não sabe o que eu estou falando, a série adapta o livro Os 13 Porquês onde Clay (interpretado por Dylan Minnette), um adolescente meio tímido, recebe uma caixa com sete K7s com treze gravações feitas por uma garota da escola, Hannah (Katherine Langford), que há pouco tempo havia cometido suicídio. Em cada lado das fitas, Hannah falava sobre como uma das pessoas do seu círculo de “amigos” se tornou uma das razões porque ela se matou. Essas pessoas recebiam a caixa com treze fitas e deveriam ouvir todas e passar para a próxima pessoa na lista de porquês. Para garantir que as fitas seguissem o seu rumo, havia uma cópia delas com Tony (Christian Navarro), que era a trava de segurança para caso alguém tentasse parar a circulação das fitas.

Assim, a série possui 13 episódios, narrados por Hannah, mas focados em Clay, que vai ouvindo as fitas e montando com o espectador esse quebra-cabeças de porque ela se matou.

Vi várias pessoas reclamando do ritmo da série ser lento. Pro meu gosto o ritmo foi bom, inclusive a forma que como a série foi estruturada, tanto que vi um episódio e fui em dois ou três dias até o final.

Óbvio que é uma coisa irritante o fato do Clay não pegar e ouvir todas as fitas de uma vez, mas, se você considerar que ele é uma pessoa fragilizada com todos os eventos e que tinha uma certa convicção que nunca tinha feito nada contra a Hannah, é compreensível que ele tivesse medo de chegar na fita dele que, teoricamente, iria jogar na cara dele que ele não era tão bonzinho quanto achava.

Fora que, se ele ouve tudo, a estrutura da história se quebra, então, temos que fazer concessões, não é?

Da mesma forma que é preciso fazer uma concessão para o Tony, que é único personagem extremamente caricato da série. Ele tem o estilo retrô, ouve k7s, é mecânico e tem a habilidade de estar em todos os lugares que a história precisa. Ele não é um personagem, é uma ferramenta narrativa tão clara que parece que fizeram questão de colocá-lo tão diferente de todos os outros personagens.

Mas enfim, concessões feitas, eu gostei de muitas coisas na série, a principal delas é o quanto os personagens parecem reais. Ao contrário da maioria dos filmes e séries que envolvem colegial, onde todos os personagens são esteriótipos caricatos que não se conectam fora da sua tribo, em 13 Reasons, os personagens parecem “normais”, todos conversam com todos, não parecem estar em outro mundo só porque são esportistas ou nerds.

Nada é exagerado, mesmo o bullying é uma coisa tratada de forma sutil, porque a maioria dos personagens parece ser, na maior parte do tempo, pessoas “legais” uns com os outros.

Aí começa um dos pontos, a série não é tanto sobre bullying na escola como dá impressão de ser. Ao contrário de narrativas que surgiram na epóca de Columbine, como Bang Bang você morreu, a questão em 13 Reasons é mais a não atenção ao outro do que a agressão no geral.

Contudo, o é preciso lembrar que o bullying é algo que não se tipifica, ele é definido única e exclusivamente por quem está sofrendo ou seja, coisas que não parecem bullying para 99% das pessoas, são bullying para quem se doeu a respeito daquilo, então, uma palavra que não ofende você pode ofender o outro e isso é tão sutil que se torna indefinível.

Por esse ângulo, a série trata sim de bullying, porque muitas das razões pelas quais Hannah se mata são aparentemente “bobas”, mas, quem deve definir se isso é ou não uma agressão, é ela, a pessoa que sofre, assim, tudo aquilo deixa de ser bobo e se torna uma violência. Aí, novamente volta a questão da não atenção ao outro.

Mais que o bullying a série trata por vários ângulos a violência contra a mulher adolescente, vou retornar isso depois das fotos da série porque vou dar um spoiler ali para explicar uma coisa conceitual que eu não gostei em termos de narrativa.

Acho que a série abre infinitas discussões, o papel da escola, as ideias “geniais” de muitos educadores como aqueles abomináveis “sacos de elogios” que se tornam uma das razões. Ou mesmo a omissão ou não da equipe da escola e as medidas ridículas que eles tomam como os cartazes para isso ou para aquilo.

É muito difícil assistir a série e não refletir em nada. Apesar de funcionar como entretenimento, por ter uma qualidade e um ritmo instigante e por ter toda essa construção delicada de personagens, a série é um ponto de partida.

Além da produção cuidadosa, as atuações são bem impressionantes, principalmente da Katherine Langford, uma atriz australiana com um sotaque forte quando não está atuando, mas que, apesar de ser praticamente o primeiro trabalho dela, ela neutraliza totalmente o sotaque e carrega a série nas costas com uma qualidade impressionante na expressividade.

Sobre a cena do suicídio em si, tem muitas questões sobre ela ser necessária ou não. Eu considero importante estar lá, porque não adianta ser direto com tudo e passar um pano nesse momento. E, se você não quer ver a cena, basta pular, foi o que eu fiz, por exemplo.

Enfim, eu acho que a série vale a pena, tem uma proposta e uma execução boa e levanta muito a questão sobre o quanto não damos atenção ao outro, ao sofrimento dele e como nos fechamos e perdemos os milhares de sinais sutis de que algo pior está por vir. Além de nos colocar no lugar dos personagens em volta da Hannah para nos questionarmos como agiríamos nessa ou naquela situação.

Depois das fotos quero comentar uma coisa que eu gostei e uma que eu não gostei, mas que envolvem spoilers.

13A Reasons


Spoilers

Uma coisa que estava me agradando muito na série era como a Hannah não tinha um “grande motivo” para se matar. Pra mim o ideal era que fosse uma soma de pequenas coisas acontecendo em volta dela que a levassem para isso. Quando chega no episódio 12 e ela é estuprada, isso se perde completamente. Ali, toda a sutileza da série acaba e no fim você acaba pensando: ela se matou por causa do estupro. Porque essa é uma razão muito séria, muito tensa e para mim, matou a delicadeza da narrativa da série.

O que salva é o personagem do Alex, que tem uma dupla função. Tem vários sinais ao longo da série que ele pode se matar, mas, quem assiste, assim como os amigos, não percebe os sinais até ser muito tarde e, se você avaliar bem, ele não tem um “motivão” para se matar, mas, para uma pessoa fragilizada, cada lasca, cada trinca na mente é muito séria.