14 regras de etiqueta para sua campanha de financiamento coletivo

Eu sou um grande entusiasta dos sites como o Catarse de financiamento coletivo, principalmente para a viabilização de quadrinhos. Não só apoiei e divulguei vários projetos feitos lá como em 2013 fiz um balanço geral para o UHQ sobre o sistema (leia aqui) – aliás, para quadrinhos esse sistema se tornou tão importante que o UHQ criou uma página só para divulgar os projetos (veja aqui)

Então, baseado nessa experiência eu resolvi escrever essas “regras” que são tanto para quem faz a campanha quando para quem apoia. Veja, nenhuma dessas regras vai garantir o sucesso da sua campanha e nenhuma delas são realmente regras, é basicamente uma lista de observações sobre coisas que eu acho deselegantes e que são mal-entendidos frequentes.

Apesar dessas regras serem tiradas da minha experiência com projetos de quadrinhos, a maioria delas vale para qualquer tipo de projeto.

1- Financiamento Coletivo não é pré-venda

A primeira coisa que precisa ficar clara é que o financiamento coletivo não é uma pré-venda. Apesar de parecer uma bobagem, isso tem que estar claro tanto para quem faz a campanha quanto para quem apoia.

Sim, o sistema de recompensas do financiamento coletivo funciona como um tipo de pré-venda se o autor incluir como uma ou mais das recompensas o álbum em si. Mas não é esse o objetivo.

O objetivo do financiamento coletivo é reunir um grupo de pessoas que acredita em uma ideia para torná-la viável. Ou seja, a pessoa adquirir a HQ, o disco, o filme pode ser uma das consequências mais óbvias, mas não é a toa que isso se chama recompensa. O colaborador não comprou o livro e sim apoiou com um valor que o autor considera suficiente para que ele receba, como agradecimento por seu apoio, a HQ/livro/disco.

MAS, uma vez que se oferece recompensas elas fazem parte desse pacto entre o apoiador e o apoiado, portanto só prometa o que pode cumprir.

2- Não cobre por autógrafos

Quando o autor cria a escala de recompensas e, por exemplo, determina que o colaborador receberá o livro por R$ 25,00 e receberá o livro autografado por R$ 30,00, a mensagem implícita é de que você tem que pagar R$ 5,00 pelo autógrafo.

Ninguém cobra por autógrafo em obra. Você vai em um lançamento ou um evento onde o autor está e ele autografa.

No caso do financiamento coletivo, o colaborador é parceiro do autor. Não só não deve ter uma diferenciação de valor de contribuição para o autografado como TODOS os livros devem ser autografados como uma forma agradecimento para colaborador que viabilizou o projeto.

Sim, é um trabalho imenso autografar centenas de livros, mas, sem cada uma das pessoas que receberão as recompensas, seu projeto não existiria.

3- Estabeleça metas realistas

O valor a ser pedido deve ser o mínimo possível considerando todos os gastos envolvidos. Você deve considerar gastos de impressão, compra de recompensas, despesas postais, a taxa do site de financiamento.

Essa é uma etapa que tem que ser feita com extremo cuidado. Você nunca pode pedir menos do que o necessário, pois corre o risco de receber o dinheiro e não conseguir entregar o prometido.

Ao mesmo tempo não adianta pedir mais que o necessário, pois metas mais altas são mais difíceis de bater e existe um fator psicológico do colaborador. Sempre há mais pessoas dispostas a colaborar com projeto viável. Valores totais mais realistas ajudam e, assim que a meta é batida, a tendência é que mais pessoas ajudem.

Dessa forma, o modelo que tem funcionado muito é o que tem uma meta inicial baixa e várias metas estendidas, isso cria um engajamento, incentiva colaboradores à participar de campanhas já viáveis.

4- Estabeleça prazos realistas

Todo projeto tem que ter um cronograma para ser realizado. É claro que o processo artístico não funciona como a construção de um prédio, tem uma longa etapa criativa que é impossível de mensurar, por isso o ideal é que essa parte do processo seja realizada antes de pedir o financiamento.

Saiba quanto tempo demora cada etapa da sua produção, aumente o tempo em 30% para ter uma boa margem de segurança. Lembre-se que no final você terá que embalar e arrastar até o correio centenas de recompensas. Isso toma um tempo considerável que deve ser contabilizado.

Pensar bem um cronograma e ser realista com ele é vital não só para sua relação com seus colaboradores quanto para sua relação com sua própria produção pois não se deve sacrificar a qualidade para diminuir o tempo.

5- Cumpra suas promessas

Parece meio óbvio, mas você deve se comprometer com o seu projeto. Você está engajando centenas de pessoas nele. Centenas de pessoas acreditaram que você estabeleceu um orçamento e prazos realistas. Então você deve cumpri-los.

E isso não é só pensando em você e em um possível novo pedido de financiamento, isso é pensando na comunidade como um todo.

Quando uma pessoa não cumpre o que promete isso reflete mal em todo o sistema. Isso afasta colaboradores de outros projetos. Não há punições para quem atrasa ou mesmo para quem não entrega o que promete, é um sistema completamente baseado em confiança. Quebrar essa confiança prejudica todo o sistema

6- Seja transparente

Você quer que pessoas lhe ofereçam dinheiro, essas pessoas serão seus parceiros nessa jornada.

Ao apresentar seu projeto mostre claramente para onde vai cada real do dinheiro que está sendo pedido. Faça gráficos, explique custos complexos, mostre porque aquele dinheiro é vital. Isso vale também para as metas estendidas e para os prazos.

E veja, ninguém espera que você trabalhe de graça. Parte do dinheiro é para subsidiar o seu trabalho, não há vergonha alguma nisso, mas tudo deve ser claro.

7- Seja honesto

Não cumpriu os prazos? Não deixe o colaborador no ar, explique o que aconteceu da forma mais honesta possível. Não dê desculpas esfarrapadas, jogue na conta da precária condição do artista no Brasil ou qualquer coisa assim. Seja claro: “tive esses problemas que atrasaram o que eu combinei, o novo cronograma é esse, me desculpe”.

8- Não seja chato

A parte mais cansativa da campanha de financiamento coletivo é a divulgação. É necessário divulgar sem parar do começo ao fim, mas tem formas educadas de fazer isso. Faça um release claro e objetivo e mande para todos os sites e blogs relacionados. Basta enviar e pedir educadamente divulgação.

Mantenha a campanha nas redes sociais sempre com materiais novos, mostre mais do processo de produção ou do seu trabalho.

Tudo isso é normal, o que não é normal é insistir diretamente para pessoas colaborarem, reclamar publicamente que ninguém está colaborando ou, pior ainda, dizer que as pessoas gastam com tal coisa mas não investem no seu projeto.

9- Faça parte da comunidade

Quando você cria um projeto no Catarse, por exemplo, ele mostra no seu perfil público quantos projetos você já colaborou.

Não tem nada errado nunca ter colaborado com nada, não é errado, mas é mal visto.

Essa metodologia de financiamento não foi criada para você resolver o seu problema e sim criar uma comunidade sustentável de criadores e apoiadores e os criadores têm que exercer um papel de liderança e mostrar que acreditam no sistema e apoiam outros projetos.

10- Seja claro com o seu projeto

A parte mais importante do projeto é ele em si. Você tem que ser o mais claro possível com o que você pretende fazer. Apresente sinopse, páginas de preview, grave vídeos (se possível ao vivo conversando com internautas) de você trabalhando no projeto.

Não precisa entregar a história, mas tem que deixar bem claro o estilo do seu trabalho.

11- Mostre seu trabalho

Como já repeti várias vezes, o sistema todo é baseado na confiança. O apoiador tem que confiar em você, no seu trabalho.

Hoje não há nada que impeça qualquer artista de se autopublicar gratuitamente na internet e o trabalho artístico é um longo processo de aprendizagem. Então produza algo, mesmo que simples e mostre o que você sabe e gosta de fazer.

O apoiador tem que ter uma amostra representativa o suficiente do seu trabalho prévio para que ele possa decidir se gosta de você e se pode confiar no seu trabalho.

12- O apoiador em primeiro lugar

Se você ofereceu seu livro/cd/filme/etc como recompensa para o colaborador ele deve ser o primeiro a receber esses itens. É muito deselegante colocar a venda o produto antes de já ter preparado e começado a despachar os que cabe as pessoas que tornaram possível aquilo.

Você pode fazer lançamentos diversos e avisar os colaboradores que quiserem retirar pessoalmente. Antes do lançamento é interessante mandar um e-mail informando e perguntando quem prefere retirar pessoalmente e já separar tudo isso.

Novamente, é importante ser transparente e comunicar tudo para o apoiador.

13- Editoras/Gravadoras devem manter a prioridade do apoiador

Muitos artistas lançam seus projeto como independente e no meio do caminho, com o dinheiro garantido, encontram uma empresa disposta a fazer a parte técnica/comercial do lançamento do livro/cd.

Nesses casos cabe ao artista negociar corretamente tudo com a empresa para que o projeto continue da forma como ele prometeu (ou melhor) e que o apoiador se mantenha como prioridade.

É muito fácil essas coisas saírem do controle do artista se ele cair na mão de um empresário com quem ele não tem um contato tão direto ou que não lhe dá margem de negociação. E a empresa, apesar de se aproveitar do dinheiro arrecadado, muitas vezes pode priorizar colocar o material a venda, distribuir para imprensa e tudo mais antes do apoiador sequer ter visto a cara do que ele ajudou a criar.

E não adianta depois culpar a empresa, pois o pacto de confiança foi estabelecido entre o apoiador e o artista. A transparência aí também ajuda. Não tem nada de errado em querer que a sua HQ passe por um processo editorial profissional – muito pelo contrário, isso tem tudo para melhorar o material – mas explique para o apoiador sua intenção. Diga que tem tal empresa que quer embarcar o projeto, mas a condição dela é que você repasse um valor X do financiamento.

14- Dê os devidos créditos

Muitas vezes um projeto tem um idealizador que subcontratará outras pessoas para fazer etapas variadas. Por mais que essas pessoas sejam profissionais que serão remunerados de acordo com o combinado entre o idealizador e eles, eles fazem parte desse projeto artístico e devem ser creditados.

Não é porque uma pessoa é “dona” do produto final e que os direitos financeiros dos outros se limitam a um pagamento fixo que a importância deles é menor.

Roteiristas que não creditam desenhistas, músicos que não creditam outros membros da banda, diretores de teatro que não creditam os atores e outros envolvidos e outros infinitos exemplos criam uma antipatia que só tende a prejudicar o projeto.

Deixe claro que o projeto é seu e que você está contratando um terceiro, mas dê o crédito para esse seus companheiros pois, por mais que ele não seja seu “sócio” nessa empreitada, ele é um artista como você.

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PS.: Óbvio, ninguém tem que seguir nada disso que eu disse e pode achar tudo isso uma bobagem. Gostaria de reforçar que nada disso se refere a um projeto em específico, todas essas atitudes que eu considero deselegantes estão aí porque eu vi vários artistas fazendo isso e vi vários amigos apontando isso como algo que não é bem visto.