3% está mais para Black Mirror do que para Jogos Vorazes

A Netflix disponibilizou sua primeira produção nacional, a série de ficção científica 3%.

A série foi criada lá em 2011, seu piloto foi filmado e disponibilizado no youtube (assista aqui), na época, os quatro idealizadores planejavam conseguir que algum canal bancasse a produção da série inteira, demorou, mas 3% criou seu próprio mérito e agora está com a primeira temporada completa no ar e já podemos dizer que é mais uma grande produção da Netflix.

A série mostra um mundo distópico dividido entre o lado de cá (uma terra pobre, devastada, sem recursos, onde todos passam diversas dificuldade) e o lado de lá (um lugar chamado Maralto, criado pelo “casal fundador”, onde todos os recursos e tecnologias estão disponíveis).

Todos os anos as pessoas do lado de cá ao fazerem 20 anos têm o direito de fazer “o processo”, uma prova que pode ser feita uma única vez na vida e que garante a apenas 3% dos participantes o direito de de ter sua vida transformada e chegar no outro lado.

Sim, é inevitável traçar um paralelo com Jogos Vorazes; a questão do mundo dividido entre pobreza e fartura, uma prova com uma chance única de ascensão social, um grupo de resistência contra o sistema; é inevitável mas é simplista.

Sem revelar spoilers vou desmontar essas semelhanças:

— a relação entre os dois lados não só é diferente como em 3%, pelo menos ao meu ver, tem uma justificativa de cisão e separação bem mais peculiar do que a mera relação de exploração financeira de Jogos Vorazes. Eu diria que a divisão de Jogos Vorazes, uma casta de ricos sustentada pela produção de uma casta eternamente pobre controlada pelo medo é algo bem mais comum tanto na ficção quando na realidade.

— em relação a prova pelo que os candidatos passam, Jogos Vorazes se assemelha com gladiadores no Coliseu Romano, eles não apenas lutam pelo prêmio e pela sobrevivência, mas para o entretenimento da casta rica, já em 3% o processo faz uma referência quase que direta ao vestibular, jovens, em uma momento de transição na vida com uma chance única de se aplicarem e obterem um passaporte para uma vida melhor. 3% não faz o processo pelo espetáculo, mas para selecionar quem é merecedor do Maralto.

— ainda sobre as provas, Jogos Vorazes é um espetáculo de ação com provas físicas de sobrevivência, enquanto 3% é mais protocolar, com provas de maquiavelismo social e uma análise mais mental do que física.

No resultado final, talvez 3% frustre algumas pessoas de início por esperarem desse tipo de história mais ação, mais espetáculo. É preciso ter em mente que se situar em um ambiente típico de ficção científica não impõe que a série seja de ação, no caso de 3%, como bem definiu o diretor César Charlone em uma entrevista, temos um “drama de pessoas” e é isso que eles entregam muito bem.

Eu diria mais, a série é sim do começo ao fim um drama de grandes personagens e é ao mesmo tempo uma demonstração de sociologia aplicada que reflete muito da sociedade brasileira e desse momento de suposta iluminação intelectual em que vivemos.

Antes de encerrar a parte sem spoilers gostaria de registrar um elogio para o ator João Miguel que interpreta Ezequiel, o diretor do processo. Eu normalmente acho os atores brasileiros meio duros quando fazem séries, parece faltar velocidade, dinamismo, sempre me parece que os diálogos e as atuações são pouco naturais, acho que isso se aplica sim a 3% e que ainda falta um pouco para o Brasil se encontrar na atuação para essa estrutura de conteúdo, mas João Miguel é uma exceção no conjunto, dá para dizer que todos estavam interpretando  de forma competente seus personagens, enquanto ele parecia de fato viver aquilo.

Mas, no geral, em termos de produção, é certo dizer que o Brasil não está devendo em nada para as produções da Netflix e, ao mesmo tempo que é um produto com qualidade (inclusive em termos de universalidade de roteiro) o suficiente para ser assistido pelo mundo todo tem aquela “cara brasileira” na sua estrutura. Uns podem dizer que dá uma cara de independente, mas, por outro lado, pode-se dizer que é uma escolha consciente por um roteiro com um escopo crítico e reflexivo e não escapista, que, pensando nesse espírito, se assemelha mais a Black Mirror do que a Jogos Vorazes.

Após as fotos quero fazer mais alguns comentários que se relacionam mais com o episódio final, então recomendo ler após ter fechado a série.

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Atenção, a partir daqui, SPOILERS

Uma das coisas que mais me impressionaram e que meio que mudou minha visão de 3% é a lógica do Maralto que nenhum dos moradores do “lado de cá”sabia: a última etapa para entrar no Maralto, a purificação, é uma vacina que esteriliza a pessoa, ou seja, o lado “pobre” funciona como um gerador de pessoas para o “lado rico” onde ninguém tem filho.

São tantas as implicações desse conceito que dá para ficar horas viajando.

Uma das coisas é que esse é o 104º Processo, ou seja, praticamente todos que estão lá não são da geração fundadora e sim oriundos diretos da seleção criteriosa dos 3%, assim, teoricamente, não há favoritismos por hereditariedade. Teoricamente, o Maralto seria um meritocracia plena (se é que isso existe).

O fato das pessoas não terem filhos é um dos elementos que permite a utopia do Maralto onde não há dinheiro, todos os recursos de lá estão disponíveis para todos que lá habitam pela duração de sua vida, ou seja não existe sentido em tentar acumular “posses” pois nada é transmissível para os herdeiros. Quebrando a lógica que a impera na sociedade de “deixar algo para o filho” você passaria a focar em apenas viver uma vida plena e teria em mente que tudo que construiu ficaria para pessoas que fizeram por merecer.

Não há informações sobre a origem do Maralto, é possível apenas especular, talvez tenha acontecido algum evento traumático que levou a sociedade a se rachar, um grupo selecionado pelo tal casal fundador pegou todos os recurso possíveis e levaram para essa ilha idílica acessível somente para quem se esforçasse o suficiente para ter o próprio mérito.

Outra questão interessante é o fato das pessoas do lado pobre não saberem dessa lógica de não ter filhos, pelo contrário, quando são eliminados em alguma etapa do processo lhes é dito que ter filhos é uma forma de superar o trauma do processo. Ou seja, se você não é merecedor do Maralto deve seguir como um procriador.

Dá pra ir longe nessa piração, quem quiser manda aí nos comentários.


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