A boa filha



Entre outras atividades eu eventualmente traduzo alguns livros.

Já traduzi alguns livros bacanas, mas A boa filha é uma joia entre eles.

Antes de mais nada, é bom dizer que eu não ganho comissão pela venda do livro, mas isso não me torna totalmente isento, porque quando você mergulha em um livro por vários meses e lê ele praticamente 3 vezes… é difícil não pegar uma certa afeição.

Eu sempre fui fã dos livros do John Grisham (talvez mais do que ele mereça pois ele continuou entre meu rol de leituras mesmo depois de desandar bem na qualidade que tinha originalmente).

Então, quando li essa a sinopse desse livro da Karin Slaughter já simpatizei com ele por me lembrar da temática do Grisham:

Duas meninas são obrigadas a entrar no bosque. Uma foge para salvar a vida. A outra fica para trás.

Há vinte e oito anos, um crime horrível sacudiu a vida familiar de Charlotte e Samantha Quinn. A sua mãe foi morta. O seu pai, um conhecido advogado de defesa de Pikeville, ficou prostrado de dor.

Transcorridos vinte e oito anos, Charlie tornou-se advogada, seguindo os passos do pai. É a filha ideal. Mas quando a violência volta a aumentar em Pikeville e uma grande tragédia assola a cidade, Charlie vê-se imersa num pesadelo. Não só é a primeira pessoa a chegar à cena do crime, mas também o caso desperta as recordações que tentou manter à margem durante quase três décadas.

Mesmo simpatizando com a temática, eu sempre fico um pouco com pé atrás com esses autores de best-sellers americanos. No geral, acho que eles têm ótimas ideias, mas uma escrita ruim ou cansativa.

Já no primeiro capítulo a Karin se mostrou uma escritora que trabalha em um nível completamente diferente. Ela tem aquela característica que o americano chama de “page turn” (o tipo de livro que agarra o leitor e faz ele querer continuar lendo sem parar), além de ter uma cadência interna dos capítulos com os ganchos que prendem a atenção até a última página.

Mas não é só isso. A prosa dela é excelente, rica visualmente, fluída e, nesse livro em particular, ela pega uma cena extremamente tensa e vai ressignificando o ocorrido em diversas etapas do livro. Você parte de um fato que é contado no começo do livro e, em vários pontos, esse fato é recontado e ganha uma nova camada que são basicamente peças que você nem sabia que estavam faltando mas que mudam todo o sentido.

Fora isso, a construção dos personagens do livro é espetacular. Todos os personagens tem uma profundidade gigante que é muito bem explorada.

Tudo conduz para um texto com uma carga emocional intensa. É uma história cruel em níveis absurdos, que fica cada vez mais cruel com os personagens e parte o coração do leitor em tantos pontos que olha… é difícil não chorar lendo o livro.

Eu não quero falar muito para não estragar as surpresas para ninguém, mas um dos meus personagens preferidos é o Rusty, o advogado de defesa que vive seguindo sua bússola moral e sua crenças inabaláveis. Só lendo mesmo para entender o que eu vou dizer, mas o Rusty é uma espécie do Jó. E todas as questões que envolvem ele o mostram como um personagem de tantas camadas que só é possível compreendê-lo por completo no final do livro.

Cada personagem tem seu nível de sofrimento na história.

Enfim, puta livro bom. É o tipo de livro que realmente merece ser um best-seller.

No Brasil o livro saiu pela TAG, um serviço de assinatura de livros e ele estreou o novo segmento que eles chamam de TAG inéditos.

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