A Propriedade


 

Vou abrir esse texto com uma confissão que pode parecer um tanto horrível: torço o nariz para todas as histórias sobre o sofrimento dos judeus durante o regime de Hitler na Segunda Guerra.

Veja, nada contra os judeus, nem a favor do nazismo e de toda barbárie, é simplesmente uma questão de exaustão. Já li tantas histórias que rodam em torno dessa temática e todas são tão bonitas e tristes e tocantes que meio que esgotou para mim. Acho que o ápice dessas histórias é o belíssimo livro (infelizmente esgotado) Tudo se Ilumina do Jonathan Safran Foer que me faz chorar só de lembrar da narrativa.

Então quando A Propriedade começou a pipocar nas listas das melhores HQs de 2015 (veja outros títulos de destaque aqui) eu meio que deixei de lado por conta da temática estar nessa linha.

A sinopse é a seguinte: Depois da morte do filho, Regina Segal leva a neta, Mica, a Varsóvia para recuperar uma propriedade da família, perdida durante a Segunda Guerra Mundial. À medida que elas vão conhecendo a moderna Varsóvia, Regina é obrigada a enfrentar as difíceis memórias de seu passado e Mica começa a se perguntar se as razões da viagem não seriam diferentes do que a avó a levara a crer.

Mas, quando as recomendações vão se avolumando, nos sentimos obrigados a entender o que as pessoas tanto viram e em poucas páginas já fica claro que essa é uma HQ maior.

A autora, Rutu Mondan, desenha sua histórias seguindo a popular escola europeia da “linha clara” (estilo de traço consagrado por Hergé em Tintim), mas ela trabalhou esse álbum usando um recurso muito interessante e pouco acessível para a maioria dos desenhistas devido ao alto custo, ela escolheu atores para interpretar os personagens da história e os fotografou encenando a trama, depois viajou para Varsóvia para fotografar os cenários e usou todo esse material de referência para produzir sua história (no final do álbum consta o crédito dos atores para quem tiver curiosidade).

É curioso que muitas pessoas que veem esse tipo de traço extremamente simplificado da linha clara não imagina o quanto de estrutura e conhecimento ele demanda. Parece algo simples de fazer, mas a simplicidade é traiçoeira. Ter poucas linhas para resumir o seu desenho exige precisão para criar expressividade e criar um material de referência rico como atores reais posicionados e dirigidos pela própria artista é uma ferramenta poderosa que resulta nessa arte estupenda vista em A Propriedade.

A história, apesar da temática exaurida, é inegavelmente boa, principalmente pela sinceridade da narrativa baseada na família de Rutu Mondan.

Enfim, não é a toa que tanta gente recomendou A Propriedade e eu reforço esse coro, é uma HQ sincera, com uma arte expressiva que definitivamente vale a leitura.

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propriedade Rutu-Motan


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