A Tarefa

Me deram esse livrinho fantástico do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt chamado A Tarefa.

De cara já tem um diferencial de linguagem bem interessante, cada capítulo do livro é escrito em uma única extensa frase, tanto que o título completo do livro é:

A TAREFA

ou

Da Observação

do observador

dos observadores

Novela em vinte e quatro frases

Ou seja são 100 páginas que contêm esses vinte e quatro capítulos escritos de forma frenética, cada um em uma única frase. Exige um pouco de atenção – talvez menos que um Saramago – mas o resultado é muito interessante.

A história se aproxima de um romance policial, a jornalista suíça F. é contratada para descobrir a causa do assassinato da esposa de um importante psiquiatra que havia fugido de casa e fora descoberta morta em um país no norte da África. Nessa busca envolta em um mistério rocambolesco F. se colocará no meio de um conflito político internacional repleto de personagens bizarros.

O livro é de 1986, mas é absurdamente atual. Um dos meus capítulos preferidos é a análise do caso por um professor de lógica, eu extraí dali essas três passagens:

“para alguém que odeia em segredo e de repente descobre que a pessoa odiada o sabe, não há outra saída senão a fuga”

“pois, não sendo mais objeto da observação, ele se sentiria indigno de atenção, portanto desprezado, portanto insignificante portando desprovido de sentido, e mergulharia, imaginava, em desesperançada depressão”

os seres humanos sofriam por não ser alvo de observação, na ausência da qual sentiam-se igualmente desprovidos de sentido, razão porque observavam, fotografavam e filmavam uns aos outros, por medo da ausência de sentido de suas existências em face de um universo que se dispersava em todas as direções, com seus bilhões de vias lácteas como a nossa, povoadas por zilhões de planetas portadores de vida como o nosso mas irremediavelmente isolados por gigantescas distâncias, um universo incessantemente sacudido por sóis a explodir e, depois, decair, ninguém mais havendo nele que pudesse observar e, assim, emprestar sentido ao ser humano senão ele próprio; afinal, diante de tão monstruoso cosmo, não era mais possível conceber um Deus pessoal, um Deus regente do mundo e pai, observando cada um , contando-lhe os fios de cabelo, Deus estava morto porque se tornara inconcebível, axioma da fé sem nenhuma raiz na razão, apenas um Deus impessoal” 

Particularmente o trecho que eu grifei imagino que faz até mais sentido hoje do que quando foi escrito. Essa questão do ser humano só se validar pela relação com ou outro, que se exacerbou no mundo pós redes sociais é algo cada vez mais debatido, vide, por exemplo, a série Black Mirror.

Fora isso, há uma questão que surge no decorrer do livro sobre um país não citado nominalmente da África que vive em uma eterna guerra civil mantida por um esquema de corrupção que serve como campo de testes para a indústria armamentista, que não só mantém os guerrilheiros abastecidos de novas armas experimentais como banca os jornalistas que reportam a guerra como uma propaganda para o mundo do que a de novo em tecnologia militar.

É um livro curto e excelente que vale a pena conhecer tanto pela história bem arquitetada quanto pela curiosidade com o trabalho de linguagem.

Ele foi lançado em 1992 pela Cia. das Letras e até hoje não teve reedição, mas é razoavelmente fácil e barato de achar em sebos.

aterefa