Alias, Bendis e a origem de Jessica Jones

 

Quando anunciaram a série da Jessica Jones (leia minha resenha aqui) eu fiquei bem animado porque de fato é uma personagem interessante. Uma detetive, meio perdedora, ex-super-heroína, com alguns superpoderes, mas nada extraordinário dentro de um universo cheio de heróis.

Ao mesmo tempo tem aquela preocupação sobre a história da HQ e como isso caberia na série.

Eu lembrava da HQ, mas não tão vividamente (li lá no começo dos anos 2000), resolvi reler a série toda (são só 28 edições, teve uma continuação chamada The Pulse, mas o principal está em Alias).

A primeira questão que surge é que Alias só faz sentido em um universo onde super-heróis são um fato (sorte da Netflix que o universo cinematográfico da Marvel não só existe como pode ser usado como referência), porque se você pensasse a personagem em um mundo de pessoas normais ela se destacaria demais para ser tão discreta. Fora que tem vários outros pontos da trama da HQ que seriam complexos demais para a TV. Mas confesso que não tinha lembrança do quando a HQ estava intrinsecamente ligada ao universo Marvel naquele momento.

Alias foi escrita por Brian Michael Bendis, o grande astro da Marvel na época, por consequência, o autor das grandes sagas que marcaram o período.

Ele começou o trabalho dele com personagens “menores” como o Demolidor e depois lançou a proposta de Alias que, segundo se especula, deveria ser protagonizada por Jessica Drew, a Mulher-Aranha (que inclusive aparece na HQ e depois ganha muito destaque nos demais títulos de Bendis). Como a Marvel teoricamente não permitiu o uso da heroína, Bendis criou Jessica Jones inseriu retroativamente na cronologia Marvel, a ligando, inclusive ao Peter Parker, apresentando-a como colega dele no colégio.

Alias é uma HQ bem peculiar no sentido editorial. Primeiro porque ela deu início ao selo Max que rompia com as regras do Comic Code, trazendo palavrões, sexo e uma violência mais realista e menos cartunesca. Mas é interessante notar que, apesar desse carimbo de “material adulto”, não tinha nada ali que exigisse muita maturidade para compreender, muito pelo contrário, não era um material para adultos era um material para fanboys.

A história está extremamente ligada aos personagens obscuros da Marvel que seriam retomados por Bendis em outros títulos e ganhariam imenso destaque nos anos que se seguiram. Scott Lang, Rick Jones, Carol Danvers, Luke Cage, Jessica Drew, Mattie Franklin (Mulher-Aranha 3) e o próprio Homem-Púrpura eram cultuado por fanboys como o próprio Bendis, mas não tinham grande destaque no momento [uma curiosidade, o Nuke, personagem mega obscuro, não está na HQ, mas representa bem na série esse espírito de “um brinde ao fanboy“].

Note os casos em que Jessica trabalha na HQ: uma mulher que tem um caso com o Capitão América, uma mutante que foge do racismo da sua cidade, o suposto desaparecimento do Rick Jones, a terceira Mulher-Aranha sendo usada para extraírem uma droga dos seus poderes, Jessica trabalhando para o Murdock no momento que a identidade dele é revelada e a própria origem da Jessica, ligada aos Vingadores.

Mais do que isso, quase tudo que estava por vir é lançado na série. O problema da droga que torna indivíduos poderosos é trabalhado em Demolidor, é citada a futura Invasão Secreta e tem algumas dicas da possível Guerra Civil.

Uma coisa muito interessante sobre a HQ e a série é que, apesar de ser em Alias que se cria a personalidade perversa e cruel do Homem-Púrpura (até em então um vilão de segunda categoria), a HQ em si aborda ele em apenas um arco e não o usa como um vilão tão complexo e e cheio de tramas quanto a série da Netflix. O arco dele existe mais para justificar o comportamento de Jessica do que para ser uma grande linha de ação e suspense. Nesse ponto, a série superou bem a HQ.

No geral, se me perguntasse hoje se eu recomendo Alias, diria que não, principalmente se for para ler só ela sem ter todo o contexto da época. Caso você queira voltar 15 anos no tempo e mergulhar na fase Bendis da Marvel, ok, Alias é um dos grandes títulos a se ler, caso contrário, fica meio perdido.

Sobre o Bendis em si, eu gostei tanto do trabalho dele na época que quase dá dó reler, porque hoje ele passa longe das coisas que eu gosto. Ele tem muita inovação narrativa, tem muita inovação estética, mas o trabalho dele é tão verborrágico que não me desce mais.

Se você quiser saber tudo sobre Alias eu recomendo um ebook escrito pelo Thales do MdM que saiu recentemente pela Balão e pode ser comprado aqui por R$1,90.

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