Angeli – 33 anos



Tem aquelas notícias que a gente sabe que leremos um dia, mas esperamos nunca ler.

Pra mim, assim como para várias outras pessoas, Angeli é um cara que sempre esteve lá. Todos os dias na Folha de S. Paulo uma certeza era encontrar uma tira e/ou uma charge do Angeli.

Já assinei a Folha por um bom tempo por causa dessa sessão de tiras fantástica encabeçada pelo Angeli, seguida por Laerte, Glauco, Gonzales e os demais.

Angeli é um batalhador, começou trabalhando ainda moleque como office boy e se encontrou no desenho, uma autodidata empenhado, dedicado, com um traço único, expressivo e de uma qualidade em termos de cor, estrutura e acabamento que surpreendia qualquer um.

Angeli sempre se referiu a si próprio como um operário, sentava na prancheta e trabalhava por horas para produzir aquela única tira do dia – parece uma produção pequena, mas vai tentar fazer o trabalho dele, tente produzir por 33 anos um material inédito, sintético, que está limitado por um espaço de impressão pequeno. Produzir mais de 9 mil tiras não é para qualquer um.

Eu sei que sempre se atribuiu à Laerte o título de melhor desenhista dos Los Três Amigos e tem lá seu sentido uma vez que ela é mais versátil que Angeli e Glauco. Mas, para mim, Angeli sempre teve algo mais. Mesmo ocupando um espaço pequeno, ele nunca abriu mão de trabalhar de forma complexa. Mesmo tendo aquele desenho de personagens com estruturas sintéticas de linhas e curvas ágeis, ele sempre batalhou nos detalhes, nos cenários, nas texturas.

Nem estou aqui entrando no mérito da crítica. Muito além dos personagens de humor, muito além da Rê Bordosa e seus companheiros, Angeli era um chargista que ganhou praticamente todos os Troféus HQMix não por uma consideração dos amigos e sim porque ele sempre se manteve um degrau acima de todo mundo nessa área.

Lembro até hoje da coletânea excelente O Presidente que sabia Javanês que reunia as crônica de Carlos Heitor Cony (um dos meus escritores ídolos) com as charges de Angeli sobre os anos FHC. Aquele livro, para mim, era ápice do que eu gostava na época.

O que nos leva para outra característica relevante do artista, a sua aptidão para caricaturizar com maestria todos os personagens da vida política dentro do seu traço único.

Angeli é um exemplo para todos, um exemplo de que não se deve buscar o simples, que não se deve buscar o fácil e, em sua saída, mostrou novamente isso. Um dos motivos da aposentadoria do artista é que quando se sentava à mesa para trabalhar não vinha nada, as histórias se repetiam e os personagens não significavam nada.

Ele poderia, por pura inércia, seguir publicando uma tira “vazia” só para preencher automaticamente um espaço com fórmulas pré-moldadas em 33 anos de carreira, mas optou pela saída digna, optou por parar com a tira.

Quando pensamos sobre um monstro como Angeli esquecemos o quanto ele é humano, o quanto é falível. Ele sempre abusou das drogas e do cigarro e isso cobrou seu preço. Não só o corpo não aguenta como a mente falha, segundo Angeli ele está com depressão e esse é outro motivo dessa parada.

O lado bom de tudo isso é que, com todo o material que ele produziu, sempre terão coisas para serem reeditadas, para serem redescobertas e, vale ressaltar, que Angeli – já famoso por matar sua principal personagem – “apenas” matou sua tira. Segundo a Folha o artista continua a trabalhar nas charges das quartas e sextas e na seção Quadrão revezando com outros artistas na segunda da ilustrada.

Angeli deu um tempo, deixou de ser aquela constante que sempre esteve lá, mas, felizmente, continua batalhando com seu traço simples e complexo que serviu e servirá de base e inspiração para várias gerações.

Abaixo a última tira do Angeli e algumas tiras e charges para ilustrar o trabalho dele.

Você pode comprar os livros do Angeli na Amazon, na Cultura, na Travessa e Saraiva.

 

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