As raposas que cuidam do galinheiro

[esse texto tem uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/piWSWEbXKWk]

Acho que é ponto passivo que a situação política do Brasil está completamente insustentável desde que o nosso representante para o mundo, nosso líder máximo se tornou oficialmente um bandido, com direito a gravações que são provas cabais de que, no mínimo, algo muito fora do normal acontece dentro dessa administração. Não que alguém achasse que existiam virgens nos puteiros de Brasília, mas, uma coisa é desconfiar e outra, bem diferente é o mundo inteiro ter acesso a uma prova de que o presidente, no exercício de sua função, traficava junto com um empresário desonesto dinheiro e influência para enriquecimento próprio e obstrução de justiça.

Por mais absurdo e obsceno que seja, isso é notícia velha. A notícia atual, agora que o tabuleiro chacoalhou um tanto mais, é que o procurador-geral da república, Rodrigo Janot tem cinco dias para apresentar uma denúncia oficial contra o presidente pela mais variada e obscena sorte de crimes (veja a notícia no estadão aqui).

O que isso significa?

Significa que o judiciário está pronto para julgar o executivo, MAS, pelo equilíbrio de poder, o legislativo tem que avaliar e votar em maioria de 2/3 (a mesma que extraiu a Dilma por uma tecnicalidade) se o julgamento pode prosseguir ou se temos que engolir um criminoso na presidência que nem mesmo passará pelo processo legal que todos nos seríamos submetidos se cometêssemos o menor dos crimes.

Faz parte, é claro, a lei está aí para garantir que um dos três Poderes que fundamentam nossa democracia não possa obliterar o outro.

Mas, a bola vai na semana que vem para outro Rodrigo, o Maia, deputado pelo DEMO, eleito pelo estado do Rio de Janeiro que surgiu do meio do lodo político após a prisão de Eduardo Cunha, nosso vilão preferido na temporada passada.

Maia tem nas mãos o controle da máquina que pode colocá-lo diretamente na presidência!

Olha que situação, o Maia pode aceitar a denúncia, ajudar a afastar o presidente e assumir interinamente, já que ele é o próximo na escala de sucessão do trem-fantasma que se tornou nossa vida.

Nesse jogo, onde bem mais de 2/3 do congresso está no mesmo patamar de roubos do nosso destemido líder, a maior probabilidade é que tudo que diga a verdade sobre Temer seja rapidamente enterrado nas encruzilhadas legais.

Assim sendo, muito em breve, Temer, denunciado por obstruir a justiça, terá o direito de escolher o substituto do Janot.

Ou seja, logo depois de ser denunciado, a raposa terá direito de escolher qual caçador deverá continuar o trabalho de Janot.

Tá tudo dentro da legalidade, tá tudo certinho, mas tem sentido o bandido escolher o procurador? Se você fosse o Temer, ia escolher um procurador obstinado e apegado com a lei ou alguém da turma do deixa disso?

E, na melhor, da melhor das hipóteses, se tudo fosse muito rápido (o que é praticamente impossível) Rodrigo Maia estaria na frente dessa escolha.

Ou seja, qualquer seja o próximo movimento, quem toma o xeque-mate somos nós, porque no momento que deveria estar óbvio que o Temer tinha que seguir direto para a cela de um presídio, tudo aponta para ele continuar ditando as regras das nossas vidas, roubando e destruindo tudo no caminho.