$aving Banksy

[Tem uma versão em vídeo desse texto e na imagem do vídeo eu faço uma demonstração em giz da lógica do uso do stêncil, assista aqui https://youtu.be/7C86FXKrgck (o correto da técnica é com spray, isso é só para dar uma ideia)]

Chegou na Netflix o documentário $aving Banksy sobre um senhor em São Francisco (Califórnia/EUA) que se dedicou a retirar um graffitte do Banksy de uma parede com a intenção de preservá-lo e doá-lo para um museu para acesso permanente do público.

A partir disso o documentário entrevista vários artistas e especialistas sobre o trabalho do Bansky e sobre o papel do graffite na história da arte.

O cerne do trabalho do Banksy são stencils (técnica onde você tem um gabarito vazado na área onde passará a tinta) feitos com muita rapidez, sempre com uma mensagem ou crítica política/social implícita nos desenhos e nas poucas frases.

Parte da fama desse artista de rua se deu pelo mistério em torno da sua identidade. Alguns jornais já apontaram para uma pessoa que supostamente seria o artista, mas nada foi oficializado. O mais curioso sobre a identidade do artista é a importância que as pessoas deram para o mistério, como se amanhã fosse revelado que Fuluno é Bansky e as pessoas soubessem quem é esse fulano. O mistério sobre quem é Bansky tem tudo para ser totalmente anticlimático.

O que importa mesmo é que o artista criou uma linguagem visual icônica nas últimas décadas que faz parte da ascensão do Graffitte como uma forma de expressão maior. Por muitos ele é tido como o Andy Warhol dessa geração.

Mas a questão que fica sobre esse trabalho vigoroso (que é a questão central do documentário) é: deve-se conservar essa arte?

Tradicionalmente nas artes plásticas, muito do que é produzido de significativo passa a compor a história da arte e é preservado para as gerações futuras em museus e coleções privadas.

E como fica a arte de rua? Algo pintado em um muro, muitas vezes sem permissão? Se isso é uma peça tão relevante da história da arte, como preservá-la para as gerações futuras? Como exibir um animal selvagem que só faz sentido ao ar livre dentro de um museu?

É curiosa e válida essa nossa obsessão por ter para toda eternidade uma coisa, mas, talvez, a arte de rua devesse ser pensada como o teatro e as artes performáticas, elas existem naquele momento para aquele grupo de pessoas, só. Não há registro permanente, não há projeção holográfica das peças originais de Shakespeare.

As peças do Banksy, em específico, seguiram por um caminho curioso retratado nesse documentário. Ele se tornou algo tão famoso e fabuloso que as pessoas começaram a recortar pedaços de muros de concreto pintados por ele e comercializar essas peças por pequenas fortunas sem a permissão ou participação do artista.

O documentário é bem interessante, vale muito a pena ver as diversas opiniões sobre o graffite, como ele é tratado pela lei, pelos museus e pelos negociantes de arte.

Aliás, a título de curiosidade, a lei que que era vigente em São Francisco no período que Bansky esteve por lá era das mais agressivas possível.

Se sua casa fosse graffitada, você não tinha opção, a prefeitura notificava o dono do imóvel e em 30 dias ele teria que apagar a arte ou seria multado.

Agora pensemos essa lei de outra forma: a lei entende que o graffitte é crime e o município que é responsável pela segurança pública falhou em proteger o seu patrimônio desse crime, o que ele faz com a vítima, que é o dono do imóvel? Multa ele!

Ou seja, leis bizarras e pouco lógicas estão presentes no mundo todo, não só aqui.