Bakuman

Bakuman é um mangá  muito elogiado de Tsugumi Ohba (roteiro) e Takeshi Obata (arte) – os mesmos autores de Death Note.

Eu relutei um pouco para ler Bakuman, sou resistente a essas histórias sobre quadrinista, ou romances sobre escritores, ou filmes sobre diretores, todos parecem ter muito a mesma toada da vida dura para ter sucesso.

Pra ser sincero, Bakuman no fundo tem essa coisa do sofrimento para realizar seus sonhos, contudo, aqui a técnica narrativa, todos os elementos típicos de mangás funcionam tão bem e impulsionam tanto a história que ela fica quase irresistível.

A primeira coisa que tem que ser dito sobre Bakuman é que os autores estão muito, mas muito melhores do que em Death Note. O desenho – que já era bom – está superior e o texto está com um ritmo perfeito, com uma história muito ágil, muito funcional e que te faz se empolgar com algo que deveria ser extremamente chato – dois adolescentes trancados em um estúdio criando um mangá.

Fora isso, Bakuman tem uma sacada que o torna obrigatório para todos que gostam de mangá: ele mostra como funciona a redação da Shonen Jump – uma das revistas mais populares do Japão.

Nessa série descobrimos coisas curiosas sobre esse mundo. Por exemplo eu nunca tinha parado para pensar porque os personagens de mangás são tão estilizado e os cenários tão realistas e complexos. Lendo Bakuman entendi que os autores produzem 19 a 26 páginas por semana e, para dar conta dessa quantidade absurda, o autor desenha apenas os personagens e marca os cenários que são efetivamente desenhados por um grupo de assistentes que usam vários livros de referências para copiar prédios, ruas, áreas internas, etc.

Ou seja, cada autor é um “estúdio” de produção e chega a ser normal no começo da carreira os mangakas terem algum prejuízo com a produção até conseguir um sucesso que dê certa estabilidade com republicações e um sonhado anime.

Depois da parte mais “didática” – como se produz um mangá, como é decidido se ele vira série, se continua sendo publicado ou não, o papel do editor, etc, Ohba parte para um curioso lado metalinguístico. Entre os personagens coadjuvantes estão um grupo de mangakas iniciantes e cada um deles está trabalhando em um estilo diferente. Então quando ele está falando de uma mangá de comédia romântica, a vida dos personagens vira uma comédia romântica, quando ele fala de inserir humor nos mangas ele coloca uma piada na história e por aí vai.

Outro lance da questão da metalinguagem também é que a busca dos garotos pelo mangá perfeito que seja sucesso de público, as experiências deles na HQ que eles estão construindo são aplicadas e testadas diretamente no leitor de Bakuman, então, mesmo sem ler as histórias que eles criam, você enquanto leitor tem a sensação que os garotos mangakas querem passar.

Vou te garantir de olhos fechados que esse não é o melhor mangá que existe, mas é um dos mangas que eu mais gostei de ler até hoje (nem sempre qualidade técnica, roteiro com estofo e clamor da crítica garantem que você vai se divertir lendo algo só porque ele é “excelente”).

Bakuman tira leite de pedra com essa história de dois garotos, trancados em um estúdio 18 horas por dia, sete dias por semana, fazendo mangás.
Falando assim é muito difícil de convencer então você vai ter que aceitar minha palavra de que isso aí, exatamente isso, sem nada a mais, virou uma história extremamente emocionante e cheia de ação, tensão, ganchos que te prendem a cada final de capítulo.
Tenho duas memórias muito fortes sobre Bakuman, uma é uma cena em que um dos garotos se reúne com o pessoal da classe dele e todos pensam que ele vive uma vida de luxos que se espera que os “artistas” tenham e todos se chocam quando descobrem o quanto ele trabalha para conseguir fazer uma HQ.
Outra é uma cena da primeira edição que eu gosto de citar sempre para lembrar que é necessário sim fazer concessões culturais caso se queira se divertir com um mangá. Você tem que entender que é uma cultura diferente, com uma lógica diferente e muitas coisas que sob a nossa óptica são machistas, pra eles é normal. Então você precisa relaxar, não ver a HQ como um panfleto político-social (não é intensão dos autores, eles só querem fazer algo que moleques japoneses gostem e se relacionem), pois se não fizer isso você vai desistir logo na primeira história e deixar de ler uma grande HQ.
A cena que eu me refiro é uma conversa entre o pai e a mãe de um dos garotos mangakas. A mãe tinha certeza que o pai não aprovaria a decisão do filho de ser desenhista mas o pai aprova e lança a seguinte frase: “Os homens tem sonhos que as mulheres não compreendem.”
Então é isso, não dá pra ler sem fazer concessões, não dá pra querer olhar o romantismo dos personagens da história sob a nossa óptica ocidental, mas também não pode ser isso que vai te impedir de ler uma boa história.

 

 


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