Cadafalso e o que eu penso sobre o Proac + Sorteio

A Mino lançou recentemente essa HQ do Alcimar Frazão (que tem a participação de alguns outros quadrinhistas no roteiro, como Loureço Mutarelli) que foi financiada pelo PROAC.



Frazão é um quadrinhista já bem rodado, que surgiu no começo dos anos 2000 em um fanzine excelente chamado O Contínuo.

Em Cadafalso ele reúne uma série de contos curtos que giram em torno da temática da vida limítrofe e da morte.

Como em toda coletânea tem algumas histórias que se destacam um pouco mais, uma delas é justamente uma história muda (sem texto) escrita pelo Mutarelli que mostra um pintor renascentista que redefine o sentido do modelo vivo.

Outro destaque é o exato oposto, uma história verborrágica do Magno Costa que se passa na guerra civil espanhola e tem vários níveis de reflexão ali.

Tirando essas duas, são histórias mais de impacto do que profundidade, algo normal em histórias tão curtas.

Agora, é inevitável falar sobre o quanto a arte do Alcimar Frazão chama atenção. Ele trabalha em um estilo de alto contraste, carregado no preto por todo o lado e sem grandes nuances de tom. É um estilo de desenho que de certa forma se perdeu na esteira dos quadrinhos comerciais.

Talvez possa de dizer que ficou datado, que ficou muito associado aos mestres dos quadrinhos de Terror do passado, como Bernie Wrightson.

Alcimar não fez o salto comercial na arte dele para aproximá-la, por exemplo, do estilo do Mike Mignola, que pode-se dizer que seria a versão atual desse estilo carregado no preto.

E veja, isso não é uma crítica, é mais interessante um artista que se mantém em um estilo próprio (principalmente quando o estilo casa com as histórias que a pessoa quer contar), mesmo que não seja tão forte comercialmente, do que um que se torna um mero pastiche do que a moda pede.

Aproveitando essa linha de raciocínio, queria falar algumas coisas que eu penso sobre o Proac.

O Proac é um programa do governo do estado de São Paulo que distribui uma verba para projetos selecionados, no ano passado o valor pago para cada projeto de quadrinhos foi de $40 mil.

Esse valor é um grande incetivo que tem fomentado o quadrinho nacional e, junto com o catarse, virou uma das principais fontes de financiamento dos autores.

No caso do Proac, por se tratar de um dinheiro público eu acho que dinheiro deveria ir justamente para projetos que não são sustentáveis comercialmente. (Cabe uma aparte aqui, que dado ao tamanho do mercado brasileiro, mesmo o quadrinhista nacional mais popular tem dificuldade para receber o quanto merece pelo que publica, mas estou pensando aqui mais na questão da existência ou não da obra que em um caso seria publicada mesmo sem o dinheiro público e, em outro, não).

Não penso que ganhar um dinheiro seja uma questão exclusivamente de mérito, mas que, por se tratar de dinheiro público, ele deveria ser aplicado em prol da diversidade, deveria garantir a produção do que não se sustenta não pela falta de qualidade, mas pela falta de uma apelo mais comercial do trabalho ou do autor.

Nesse ponto, eu acho que dinheiro cabe bem para a um livro como Cadafalso, que é um material ótimo, mas que não tem um apelo comercial tão grande. Vai vender entre o público que conhece o artista, talvez um ou outro que veja uma resenha como essa, mas dificilmente vai ser um título que renderia para esse autor um valor que viabilizaria a publicação sem esse edital.

Agora, a outra ponta dessa questão é que esse tipo de material financiado pelo Proac deveria também ser mais acessível.

Vejamos o exemplo de Cadafalso, que tem exatamente o mesmo preço do título gringo que foi lançado pela mesma editora, no mesmo mesmo, Ragemoor, ambos por R$ 59,90.

O título gringo não recebeu nenhum apoio do governo para a sua publicação, então a escolha da editora é puramente comercial, partindo do princípio que o título é sustentável financeiramente. Ou seja, ele vai gerar um “lucro” (vamos deixar isso entre aspas porque a gente sabe que no Brasil a maioria das editoras de quadrinhos gera um dinheiro que as mantém rodando e não um lucro em si).

Ou seja, em teoria, Cadafalso não precisaria gerar esse lucro, porque ele já começa com 40 mil em caixa. Portanto ele deveria ser mais barato, não só por uma questão matemática, mas, porque, se o governo financiou o título com dinheiro do povo e, se ele fez esse título existir, o povo que bancou o título com impostos deveria ter um acesso maior à esse material.

Eu sei que $60 não é um preço exorbitante, que o atravessador (a livraria) fica com mais da metade desse valor, mas, ainda assim, a realidade do Brasil é meio complexa, e $ 60 é um valor acessível apenas para uma camada muito estreita da sociedade que fica cada vez mais estreita.

Tudo bem, uma parte da tiragem vai para o governo e chega em bibliotecas e escolas e tudo mais. Mas, e veja bem, isso é só uma opinião minha, o dinheiro público deveria seguir um caminho de duas vias: de um lado ele financia o que precisa ser financiado e, de outro, o que o governo financiou deveria ser acessível para a população, principalmente para aqueles para quem a cultura normalmente não é acessível.

 

Enfim, para não dizer que nada nessa questão além de opinar, vou sortear o exemplar que a Mino me mandou.

Para ganhar é fácil, basta estar inscrito no meu canal no youtube e deixar um comentário no vídeo sobre a HQ dizendo quer participar do sorteio.

Vou fazer o sorteio dia 23/04 a noite ao vivo no meu instagram.

Caso não queria esperar, compre o livro aqui https://amzn.to/2GXMdbM