Caderno de Recortes #17 – sem saída/inflação/diletantismo/Monet

Hoje é um dia pouco auspicioso. Exatos 20 anos do ataque às Torres Gêmeas. É um ponto fora da curva na geopolítica atual, mas, ainda assim, se trata de um choque importante para a história.

Não dá para medir o quanto o mundo mudou de lá para cá, não sei se melhor ou pior, muitos falam que a humanidade anda em círculos, meu medo é uma hora olhar para trás e ter certeza que, na verdade, se trata de uma espiral de destruição.


Ideias roubadas

frase de Marcelo Coelho – FSP 07/09/2021

Rei afogado

Conrado Hübner Mendes – FSP 09/09/21

Acho que tudo está tão fora dos eixos que não temos mais o que pensar.

É sabido que o presidente comete crimes ao vivo todos os dias, não são só rachadinhas ou propininhas, não que isso não seja um problema, mas, diante de incitações antidemocráticas, isso é o de menos. A cada dia que passa a Constituição é ignorada e fica menor. E não adianta cometer o crime e depois dizer que foi sem querer que incitou uma multidão a contrariar todas as leis que temos.

Como disse Thomas Hobbes, “sem a espada os acordos são só palavras”. Se ninguém colocar esses crimes para serem julgados, a Constituição não vale. Se a Constituição não vale, nenhuma lei vale. Se nenhuma lei vale, a economia, a sociedade e tudo mais vão para o vinagre.

Na verdade, já foi. O Real é uma das moedas que mais se desvalorizou no mundo.

Se há um fator que o dinheiro não tolera é a insegurança jurídica. No livro House of Outrageous Fortune, há uma entrevista com um biliardário que tem um imóvel vazio no prédio mais caro de Nova York. Segundo ele, os EUA é o único lugar do mundo em que o direito sobre a propriedade é de fato sagrado. Então aquele apartamento está lá porque se em algum momento tudo der muito errado nos negócios e ele precisar de um dinheiro, sabe que tem essa garantia.

Ou seja, a cada dia que o presidente comete um novo crime e não é nem investigado, menos o nosso país vale.

Quando o presidente da câmara diz que sentenças do STF podem ser ignoradas, nosso país vale menos.

(Sim, Lira, que tem reinado no caos passando a boiada, disse com todas as palavras que o presidente estaria certo em ignorar sentenças do STF se as considerasse inconstitucionais. Isso é praticamente um paradoxo, uma vez que o STF tem a última palavra sobre a constitucionalidade, como nos lembra o colunista Hélio Schwartsman.)

FSP 30/08/2021

Até não sobrar nada

Se você tem dúvidas sobre o país valer menos, precisamos, de novo, falar sobre inflação.

Solange Srour – FSP 09/09/2021

Mas se isso não parece imagético o suficiente, temos esta informação triste que a Naomi Mayer nos apresentou:

O preço de tudo subiu tanto que mesmo quem tem um emprego gasta um salário mínimo inteiro para o básico do básico da sobrevivência. Lembrando que sem gás, luz ou teto, essa cesta básica não leva a pessoa muito longe.

A economia já esteve mal, o país já esteve mal, mas o nível que atingimos é abissal.

Ideias roubadas

Diletante

Minha vida é uma luta contra o utilitarismo.

Essa campanha solitária se tornou ainda mais difícil com a ascensão da filosofia: “trabalhe com o que você ama”.

Esse conceito foi ampliado a tal extremo que ninguém pode amar nada que não seja útil. Não é permitido estudar o que não tem valor prático para o seu trabalho. Não é permitido se aprofundar em um tema que não tenha um retorno financeiro possível. Se você faz uma torta de limão boa, deveria vendê-la. Em um extremo, tem quem pregue que não se deve nem ter amigos que não lhe ofereçam um ganho em potencial.

Esse culto bizarro faz com que as pessoas não se permitam aprender pelo simples prazer de aprender. Na escola a pessoa não pode aprender história porque é legal saber o que aconteceu, ou biologia porque os seres vivos são uma fonte infinita de curiosidade. Tudo que você estuda tem que estar voltado para fazer um X no lugar certo de uma prova.

Quando partimos para a questão das artes, como o desenho e a pintura, que é uma área que me interessa, essa lógica impera muito.

Seguindo o que o mundo clama, muitos que procuraram um curso de desenho querem se profissionalizar o mais rápido possível.

Ao meu ver, há um problema sério nisso que é o fato de que nem sempre a vida de ilustrador profissional funciona para todo mundo. Cada um tem um ritmo, um estilo, uma condição e uma necessidade financeira e tudo isso é bem difícil de conciliar. Ao entrar em um curso com esse objetivo, tendo partido do princípio que se trata de uma pessoa que já gostava de arte, há uma chance grande de ela se frustrar e abandonar tudo, até porque a evolução para chegar em uma qualidade “profissional” nem sempre vai ser na velocidade necessária para a sobrevivência financeira.

Mas isso é uma questão do mundo capitalista que nem tem tanto a ver com que o que, para mim, é o cerne da questão.

O que eu defendo é que as pessoas deveriam procurar a arte sem uma preocupação comercial.

Um amigo um dia me falou: por que é aceitável treinar natação sem pensar em ser medalhista olímpico, mas o mesmo não ocorre com a pintura? Por que a pessoa não pode pintar só pelo prazer de pintar, sem intenção comercial?

A resposta é simples, a natação tem uma “utilidade” que é a saúde. Já a pintura, que até pode ser encaixada na casinha da “saúde mental”, mas não é esse o nosso objetivo aqui, parece sem propósito.

Ao querer colocar propósito em tudo, o mundo ficou chato demais.

Agora, se você quiser aprender uma forma diferente de olhar o mundo e desenhar por prazer, convido a conhecer o livro do Kimon Nicolaides, The Natural Way to Draw. Tem essa playlist no meu canal em que, aos poucos, estou colocando todos os exercícios do livro.

Pintores

Seguindo a proposta das duas últimas edições, vou falar ainda sobre algumas pinturas do Monet.

Se você comparar essas casinhas com uma das pinturas da edição passada verá que Monet passava muito tempo na mesma região. Olha como a luz incide e altera as cores das casas. Outro detalhe interessante é o uso da perspectiva, bem marcado nas árvores e no direcionamento das nuvens.

Eu separei essa imagem por causa daquela faixinha estreia de sol na metade superior da pintura. Além de ser algo muito característico do trabalho do Monet (falei disso em uma das primeiras pinturas dele). essa luz tem um charme fantástico que é a forma como ela ilumina o rabo erguido do peru deixando as penas translúcidas.

Essa pintura é bem peculiar dentro do conjunto da obra do Monet. É um retrato da esposa dele em um quimono. Eu quis trazer esse quadro para falar de um elemento que influenciou muito a pintura da época que foi a chegada das influências orientais no meio dos pintores. Na época do Monet, vários produtos vinham da China e do Japão pela rota da seda enrolados em papel com gravuras, e essas ilustrações, que seguiam uma lógica muito diferente da pintura ocidental, influenciaram muito as gerações de pintores desde então.

Essa pintura, além dessa luz espetacular que bate nas colunas e reflete na água, tem uma característica muito interessante que é a coluna de fumaça que sai do trem. Repare como Monet fez algo que se assemelha a um contorno nessa fumaça e como essa nuvem recorta bem o céu feito quase que como uma massa única.

Aqui já chegamos em pinturas que lembram bem mais o que ficou conhecido como Impressionismo. Os elementos são bem mais indefinidos, as pinceladas são muito mais marcadas, mas, mesmo assim, a sensação da luz quente nas árvores da esquerda do quadro e os reflexos nas águas são de uma beleza única.

P.S.

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