Caderno de Recortes #20 – CPI sem fim/modelo vivo/Toulouse-Lautrec

Mais uma semana difícil. Paulo Guedes diz que a economia está voando, Bolsonaro diz que tudo pode piorar, as pessoas estão lutando pelas sobras de ossos dos açougues… Mesmo com a aparente melhora no cenário do desemprego, tudo indica que os salários pagos seguem sofríveis e o aumento de tudo pressiona a renda do trabalhador. Faz sentido trabalhar para receber um salário mínimo quando esse valor não paga nem a alimentação modesta de uma família?


Ideias roubadas

Frase de Conrado Hübner Mendes

História sem fim

Celso Rocha de Barros -FSP 27/09/21

A CPI da Covid foi a série de maior audiência da TV dos últimos tempos e, justamente por isso, seus protagonistas não querem encerrá-la. Quem era Omar Aziz no cenário nacional até outro dia? Renan Calheiros não tinha entrado para o dicionário como sinônimo de corrupto, pior da política?

Depois de saborear uma popularidade positiva nunca antes vista, eles não querem parar, porque parar significa sair dos holofotes e encarar a realidade de que as instituições que, segundo alguns, estão funcionando (a favor de quem?) irão engavetar com força o relatório. Talvez um ou outro bode expiatório seja sacrificado, mas, dado o cenário em que todos estão fechados no caixão com o Bolsonaro, será difícil atender os anseios do público e, como de costume nas séries, o final deve decepcionar.

Mônica Bergamo FSP

E, nesse anseio de se manter em alta, a CPI deu palco para duas criaturas (o véio da Havan e Oscar Fakhoury) que puderam testar sua retórica para tentar pular para o outro lado do balcão no próximo ano. Aliás, é preciso estudar esse empresariado brasileiro que diz ter enriquecido apesar do Estado mas que, na primeira oportunidade, quer um carguinho público.

Outro bueiro sem fim que a CPI abriu, com promessa de CPIs locais derivadas para criar novos protagonistas para a próxima eleição (o estado e o município de SP já garantiram suas edições), foi o caso da Prevent Sênior. Não sei como esse caso vai acabar, mas sempre imagino o pior dos cenários. A empresa entra em falência, os 500 mil clientes ficam sem plano de saúde, um ou outro peixe pequeno leva a culpa, mas os donos mesmo da porra toda recolhem as fichas para voltar daqui a um tempo com outro CNPJ.

Ideias roubadas

Modelo vivo

Agora que muita gente está vacinada e que o Dória já obriga os funcionários dele a se aglomerarem em um evento para 4 mil pessoas com direito a representante do governo sem máscara…

FSP – 01/10/21

… acho que dá para voltar para as sessões de modelo vivo (até porque, no lugar que eu vou, a maior parte do público já tomou a terceira dose da vacina).

Modelo vivo é algo bem interessante. Sempre que alguém quer representar o aprendizado de arte, recorre a imagem da uma sala com vários alunos em volta de um modelo nu.

De fato essa é uma das formas mais tradicionais de estudar desenho. O Kimon Nicolaides (do livro The Natural Way to Draw que eu estou postando os exercício nessa playlist) tinha um curso de desenho que era 100% baseado em modelos vivos.

Entretanto, no Brasil as sessões de modelo vivo são bem escassas, mesmo em São Paulo poucos lugares oferecem essa atividade tão importante para o desenvolvimento da compreensão do desenho do corpo humano.

É interessante que nos últimos anos tenho visto surgir algumas pessoas focadas na formação do modelo vivo como forma de expressão de arte do corpo. Isso é bem importante porque a capacidade do modelo de se expressar pela pose é algo que muda todo o cenário para o observador que vai desenhá-lo.

Pode parecer que para ser modelo basta a pessoa ter uma desinibição e uma boa flexibilidade, mas, na verdade, a diferença entre o modelo que é ator, que tem um nível maior de expressividade é brutal.

A forma é um elemento do desenho, mas o que está por dentro é o que move o maquinário.

Durante a pandemia tentei uma sessão de modelo vivo online, para ser justo, muito antes da pandemia já tinha feito algumas em um canal gringo do youtube. Infelizmente, ao meu ver, essa é uma atividade que não funciona a distância.

Assim como o teatro, o direcionamento visual da câmera, a planificação da tela e a frieza da interface matam a graça.


Natureza morta

FSP 29/09/21

Infelizmente seguimos nessa situação em que espécies e biomas desaparecem. Ao que tudo indica, isso só acaba quando o ser humano for extinto (não se preocupe, seguimos fazendo avanços nessa área).

Em tempo, o Cárcamo (já falei dele nessa edição) tem um livro fantástico que chama justamente Modelo Vivo, natureza morta, recomendo a todos.

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Pintores

Eu gostei da série que montei para vocês do Monet então vou repetir a dose com o Henri de Toulouse-Lautrec.

Eu adoro o Lautrec, para mim ele está entre os fundadores do design e é uma das grande inspirações do uso do modelo vivo de uma forma mais moderna, mais voltado à expressividade do que apenas à forma.

Como tem muito assunto para falar, as próximas semanas serão dedicadas a ele.

Vou apresentar os quadros em ordem cronológica e se você quiser saber um pouco mais sobre a vida e contexto geral do artista tem esse vídeo no meu canal (é meio antigo, mas ainda está valendo).

Esse é um quadro bem inicial, eu quis trazer porque mostra uma formação acadêmica mais formal ao mesmo tempo que, se você olhar bem no fundo, dá para ver um princípio de umas hachuras que o artista viria a fazer muito depois.

Outra pintura inicial bem simples, mas a estilização do quadro me encanta muito. É um autorretrato em uma pose bem peculiar e o rosto é praticamente uma caricatura na sombra. Dá para ver muito do desenho do Lautrec despontando ali.

Eu gosto desse tipo de pintura que parece um estudo blocado de luz. Não tem quase definição, mas os recortes principais que a luz faz para gerar a tridimensionalidade estão ali. Fora que as pinceladas são bem marcadas e bem expressivas.

Esse retrato é lindo em muitos aspectos. O desenho do rosto bem geométrico, bem simplificado, mas, ainda assim, se mantem no campo realista. Apesar de o rosto estar praticamente todo na sombra, ele tem cores quentes, o que dá uma vida interessante para a pintura. Por fim, esse fundo indefinido mas com uma sensação de movimento é um recorte muito interessante para a figura como um todo.

Essa imagem eu separei pela composição irresistível. Apesar da pose fugir de um retrato tradicional (não mostra o rosto e oculta o olhar que, normalmente, é um ponto de atração), o recorte feito por essa janela iluminada com um amarelo quente é muito poderoso, ainda mais envolvido nessa moldura de cores terrosas avermelhadas. Por algum motivo essa pintura me remeteu a um quadrinhista chamado Alex Maleev, na fase em que ele fazia as HQs do Demolidor.

P.S.

Obrigado a quem se inscreveu e leu.

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Abraços e até a próxima.