Caderno de Recortes # 27- Quebra tudo Moisés/Zhang Daqian/BolsoLeite/Van Gogh

Sabe aquelas semanas que você se sente igual Moisés quando desce da montanha querendo quebrar o bezerro de ouro?


Ideias roubadas

Êxodos

Acho que já foi dito quase tudo sobre a aberração que é a cópia tosca em fibra de vidro do touro símbolo de Wall Street.



Sérgio Rodrigues – FSP 18/11/21

A crise é estética e ética, eu sei, você sabe. A réplica foi feita com um material precário, uma cor brega e uma posição sem a potência dinâmica do original. Ela foi instalada em um momento de crise social profunda em que o mundo do “mercado” se descolou do mundo do supermercado.

Mas eu sou complacente. Digamos que o Brasil estivesse com a economia em alta, a fome erradicada e a pobreza controlada. E aceitemos que há aqueles que podem achar esse troço bonito, talvez os mesmos que queriam uma tatuagem do Borga Gato.

Mesmo com essas concessões, o touro é, antes de mais nada, uma peça publicitária. A prefeitura e a B3 permitiu que o empresário Pablo Spyer cravasse no meio da rua, sem pagar aluguel e embalando com ares de ponto turístico a marca que ele tomou para si quando virou influencer de especulação financeira.

No fundo, o que mais me incomoda é uma série de pessoas comprarem a ideia de que isso é uma espécie de ponto turístico e incentivar que alguém vá até lá fazer uma foto com a aberração.

É preciso ficar claro que não, aquilo não é um “presente” para a cidade. O touro de ouro de tolo é uma campanha publicitária torpe, patrocinada por uma ser humano da pior espécie que não tem qualquer empatia social.

Sou contra a violência, mas está demorando para esse boi virar churrasco.

Cópia bem feita

Esses dias Elio Gaspari, um colunista que eu respeito muito e que é leitura obrigatória para mim, soltou uma informação aleatória sobre um pintor chinês.

Elio Gaspari – FSP 09/11/2021

Fiquei curioso e fui pesquisar sobre esse pintor e a única referência que encontrei sobre ele ser um falsário foi justamente em um artigo antigo do próprio Elio Gaspari.

Elio Gaspari FSP 20/07/2011

Nesse texto mais antigo, Gaspari se remete a uma publicação em um periódico gringo em que as cópias feitas por Zhang Daqian eram uma nota de rodapé.

Não gostaria de dizer que Gaspari está propagando fake news, mas é preciso destacar, ele que tirou de contexto de forma gratuita a biografia de um pintor relevante.

Não podemos confundir história da arte com história da arte ocidental. E não podemos tentar entender pintores do oriente com a nossa visão estreita do ocidente.

Para esclarecer o assunto, consultei um especialista na obra de Zhang Daqian. Guilherme Gorgulho, que tem artigos publicados sobre o pintor, me explicou:

a questão das cópias de obras na China é completamente diferente do Ocidente, e isso sempre deve ser levado em conta. Zhang Daqian era adepto, como a imensa maioria dos artistas chineses, da cópia como forma de aprendizado, mas chegou a se beneficiar dessa sua incrível habilidade para enganar supostos especialistas. Isso era mais um jogo do que uma atividade escusa (…). O que não se pode fazer é reduzir um artista a um estereótipo de “falsário” sem uma contextualização.

Como disse, sou fã de Elio Gaspari, mas a forma como ele salpicou uma visão limitada sobre o artista para criar uma metáfora totalmente desnecessária para o texto é um desserviço.

Em todos os textos que encontrei, em português e em inglês, Daqian é tratado como o grande mestre da pintura chinesa, o “Picasso chinês” segundo alguns.

Essa parte da produção dele composta por cópias de grandes mestres que inicialmente foram vendidas como réplicas e, depois, chegaram a circular ao ponto de alguém repassar as peças como originais, tamanha era a qualidade que iludia até curadores de museus, é algo tratado como uma anedota dentro da biografia do artista. Daqian, foi reconhecido em vida pelo seu trabalho original, por seu domínio da técnica e não como um falsário profissional.

Vale dizer que o próprio texto em que Gaspari se baseou em 2011 (disponível aqui) mostra a complexidade do mercado chinês de réplicas de artes. É claro que um pintor chinês que resolveu criar um jardim dos sonhos em Mogi das Cruzes é algo peculiar para nós, ainda assim, publicar essa informação avulsa em um texto que tem a credibilidade de um jornal cria uma redução duradoura do artista a um adjetivo que não lhe define.

Gorgulho me fez a gentileza de recomendar alguns textos sobre Daqian e, em breve, pretendo trazer a obra dele em destaque na newsletter.

Muito barulho por nada

A mídia tem feito uma cobertura desproporcional para um evento que tem tudo para não significar absolutamente nada para o Brasil.

Em todos os cenários atuais o PSDB se reduziu a um partido de segunda linha que não é nem cotado para chegar a um segundo turno presidencial.

O partido começou a se desmontar a partir da eleição do Dória para prefeitura de São Paulo. Naquele momento, algumas lideranças municipais saíram do partido por discordar do rumo que a legenda seguia. E estavam certos. Em 2018, Dória e outros candidatos aos governos estaduais se alinharam a Bolsonaro (Dória de forma descarada) e traíram Geraldo Alckmin que recebeu uma votação patética nas urnas.

Agora os jornais falam todos os dias sobre as prévias do PSDB e a disputa entre Eduardo Leite e João Dória para representar os tucanos na próxima eleição.

Mesmo que o partido não seja lembrado por ninguém em nenhuma pesquisa, a disputa está tão acirrada que algo pavoroso acabou escapando.

Eduardo Leite em entrevista para FSP de17/11/21

Vamos ao jogo dos erros: Leite ligou para Dória (o maior egocêntrico do país) para pedir que deixasse os idosos morrerem de Covid mais um pouco para que o Bolsonaro saísse em um foto mais bonita.

Deixando de lado as tendências genocidas de Eduardo Leite (que evidenciam de que lado ele está), quanta inocência esse sujeito teve ao achar que Dória ia abrir mão da maior jogada de marketing da vida dele e que não ia gravar essa conversa para uma eventualidade qualquer?

O PSDB é um partido grande, tem capilaridade e tem uma importância histórica inegável, contudo, a leva atual de líderes que conta com Eduardo Leite, Dória e Aécio Neves, mostra que não basta ter história, tem que ter princípios sólidos e pessoas que os respeitem. Entre esses três, o difícil é escolher o pior.

Pintores

Chega, vamos falar de algo melhor, por favor.

Seguimos, então, como nas edições anteriores, com algumas obras do Van Gogh.

Esse não é um quadro particularmente interessante, mas eu trouxe porque é um estudo de torso e, em uma das cartas ao irmão (Theo), Van Gogh reclama do quanto ele não gostava de estudar as poses clássicas. É interessante que mesmo com uma temática que era um sofrimento para ele, Vincent era capaz de imprimir um pouco do seu estilo e deixar essas hachuras coloridas darem vida ao objeto sem graça.

Se alguém me perguntasse de quem é esse quadro, nunca pensaria em Van Gogh. Mesmo assim é um quadro clássico muito bonito. O pássaro que serviu de modelo provavelmente estava empalhado, mas ele parece tão vivo que chega a surpreender. É um estudo muito clássico, mas, ainda assim, não é uma obra de um aluno qualquer.

Eu adoro esboços, eles revelam muito sobre como o artista pensa. Não é só uma questão de estrutura e forma; o movimento da figura representada é o que mais se impõe. Quando falamos em movimento a tendência é pensar em algo animado, contudo, qualquer objeto parado tem um movimento nas linhas que dão forma a ele e os traços de Van Gogh acompanhando a forma deixam isso muito evidente (eu falo bastante sobre esse tema na playlist sobre o Kimon Nicolaides no youtube)

É interessante como essa geração do Van Gogh recebeu influências da arte oriental. É uma lógica totalmente diferente que nunca chegou a ganhar algum protagonismo no ocidente, mas, de qualquer forma, enriqueceu a obra de vários artistas.

Por fim, um retrato bem clássico mas com esse estilo evidente das hachuras coloridas e do desenho peculiar do Van Gogh.

P.S.

Obrigado a quem se inscreveu e leu.

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