Caderno de Recortes #29 – Facistas, ladrões e o Papai Noel

Hoje é dia 4 de dezembro, quantas vezes até agora você já ouviu “nossa o ano voou!”


Ideias roubadas

Frase de Maria Homem – FSP 24/10/21

Fascistas e ladrões

Celso Rocha de Barros – FSP 29/11/21

Sim, finalmente temos um ministro do STF terrivelmente evangélico.

Dos rituais do legislativo, a aprovação de uma indicação para um dos cargos mais estratégicos da estrutura política do país é uma piada.

O presidente indica alguém com “notório saber jurídico” e o Senado faz uma “sabatina” que consiste em um chá da tarde com o futuro juiz da última instância do judiciário.

É uma encenação que vale tudo. Os senadores podem até fazer perguntas “espinhosas” e o sujeito responde como bem entender, pode até mentir e assumir posições que são completamente distintas de toda a vida pública dele. Depois dessa conversa de comadres os legisladores votam de acordo com os conchavos feitos e, como a votação é secreta, não temos como saber quem estava de que lado.

No geral, talvez, isso não seja tão importante, mas, nesse caso específico, a vitória do indicado de Bolsonaro explica muitas situações.

Ao contrário do que se dizia, o Congresso não está “deixando Bolsonaro sangrar” ao não fazer o impeachment diante de tantos crimes. A maioria tanto da Câmara dos Deputados como do Senado decidiu que está empenhada em manter o presidente no poder. Está andando a PEC do calote que permite que Bolsonaro reforce sua popularidade aumentando o valor do antigo Bolsa Família sem ter que diminuir um centavo do dinheiro que flui para o Centrão.

E, agora, André Mendonça recebeu sua toga preta para garantir que os evangélicos e conservadores fiquem do lado do Bolsonaro, algo que pode ser decisivo no ano que vem, pois é justamente nesse naco obscurantista da sociedade que se amarrará as principais fake news e narrativas bizarras.

Nosso hamburguer nunca será vermelho

FSP 21/11/21

Como eu venho dizendo, há algum tempo, não é apenas que as pessoas enlouqueceram, elas destroçaram os significados das palavras e passaram a usá-las como uma ofensa genérica para qualquer situação.

Esse caso exemplar vindo de Bauru, uma cidade de médio porte de São Paulo, é só mais um evento em que pautas progressistas (nesse caso nem é algo tão avançado assim, vamos combinar que cada banheiro tem a sua portinha bem fechada) são coladas na palavra “comunismo” de uma forma tão ridícula que chama-se a lanchonete que é o símbolo máximo do capitalismo de comunista.

O mais interessante é que esse mesmo grupo de conservadores, quando bem interessa, vê em dois países ditos comunistas bom exemplos.

Texto inesquecível de GABRIEL KANNER já em uma edição passada (#24)

Olhando bem para isso vemos que essa galera que gosta de usar “comunista” e “progressista” como xingamento curte mesmo de uma ditatura bem autoritária.

Ilustradores

Nas próximas semanas essa seção vai ser um pouco diferente. Goste ou não, é Natal (sobe a trilha com a Simone cantando).

Então eu vou trazer alguns artistas que construíram no nosso imaginário a figura do Papai Noel.

Existe um pintor que é o criador de fato da versão atual do “bom velhinho”, mas tratarei dele semana que vem.

Essa semana trouxe Thomas Nast, que é tido como o primeiro artista a retratar o protagonista natalino de uma forma mais parecida com que o conhecemos hoje.

Thomas Nast é um alemão que consolidou sua carreira como cartunista e chargista na imprensa dos EUA no século XIX. Além de ser um dos precursores do Papai Noel como conhecemos, ele é considerado como um dos pais da charge editorial moderna.

Olhando o trabalho dele na segunda metade dos anos 1800, nota-se um estilo de hachuras e pontilismo e um uso de elementos gráficos que, de fato, dominou a ilustração comercial por muitas décadas e que tem adeptos e admiradores até hoje.

Mas, como é Natal (Ho Ho Ho), vamos concentrar na parte festiva do trabalho de Nast. As imagens abaixo foram tiradas de um livro maravilhoso de desenhos de natal que está disponível gratuitamente para leitura aqui.

Acho que essa é a ilustração mais “fofinha” do conjunto. Eu adoro como ele construiu essa moldura bem gráfica para a imagem que acabou dando um ar muito simpático para uma figura que, se olharmos com atenção, tem uma carinha bem marota.

Aqui o Bom Velhinho começa a ficar mais bizarro, uma forma que predomina no trabalho de Nast. Note como o desenho é cheio de pequenos detalhes, desde a textura da roupa até a forma como ela se dobra no corpo dele, isso sem falar do fundo absurdamente complexo mas que não é pesado visualmente devido a um controle formidável do contraste.

Eu adorei essa imagem. Além do cenário incrível, o Papai Noel parece um duende macabro fumando um pouco antes de invadir uma casa para fazer uma maldade.

Não sei se era o objetivo do artista, talvez até fosse porque o domínio técnico dele é considerável e, ao que tudo indica, ele era bem ácido, mas essa imagem entra fácil para qualquer galeria de cenas bizarras de natal.

De novo um Papai Noel que parece muito uma criatura mística. Reparem no fundo meio sombrio com aquelas árvores com sorrisos macabros.

Ok, o natal é bem tangencial nessa imagem, mas eu achei esse desenho tão bonito e tão complexo que tive que incluí-lo. Tudo é interessante nele. A postura da mulher que está “flertando” em pleno Natal, o espelho no canto superior que só enriquece a complexidade do cenário, a profundidade da lareira. Enfim, é de uma riqueza gráfica irresistível.

Sim, Papai Noel tá fumando e está com uma espada na cintura para quem reclamar dos presentes. Nada mais apropriado para o Natal desse ano.

P.S.

Obrigado a quem se inscreveu e leu.

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