Caderno de recortes # 3

Caderno de Recortes do Diletante Profissional
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Quanta notícia cabe em uma semana? Parece que aconteceu de tudo no Brasil na semana que passou. Parece que tudo está a beira da explosão, tudo está no limite e, sempre, cada notícia é a gota d´água. O problema é que nada muda e já vem a próxima história. Parece que o Brasil vai sediar a Copa América, mas, talvez, o próprio Brasil nem jogue. Entre o momento em que eu disparo essa newsletter e ela chega até você tudo mudou ou nada mudou. No Brasil aperfeiçoamos a técnica de tirar a toalha da mesa com a louça em cima. Quebra-se algumas peças, mas tudo que sobra parece ficar no mesmo lugar.
Narrativas
Talvez tudo tenha começado a dar errado quando roubamos do mundo da ficção o termo “narrativa”. Deve ter sido algum publicitário, sempre são eles, que tentou reinterpretar a realidade com as técnicas usadas para criar ficções. Com isso deixamos de saber o que é fato, o que é interpretação.Por exemplo, se eu disser que o presidente do Brasil pegou um avião e uma comitiva e foi inaugurar uma ponte mambembe de madeira, pode ser que muita gente não acredite. Agora se eu disser que o Lula, dias depois, destruiu a ponte do Bolsonaro, a situação parece mais real. Para garantir, tenho uma foto realíssima do evento para mostrar.
Lula destroi ponte nova de Bolsonaro
Lula destrói ponte nova de Bolsonaro
Se tem foto, é verdade. Se saiu no jornal é verdade. Ou não? No sábado passado (29 de maio). O povo foi as ruas contra o presidente, no dia seguinte os dois principais jornais de São Paulo, tiveram as capas abaixo.
Capas dos dois princiais jornais no domingo 30/05 após protestos contra Bolsonaro tomarem o país
Capas dos dois principais jornais no domingo 30/05 após protestos contra Bolsonaro tomarem o país
Fica a pergunta, será que os editores do Estadão pensaram que podiam criar uma narrativa em que nada aconteceu? Será que essa matéria com esse casal e seus dois filhos nesse cenário bucólico era a notícia mais importante do Brasil naquele dia?Aparentemente não, porque Claude Lévi-Strauss documentou o evento nessa foto icônica.
Levi-Strauss acompanhou a manifestação e o Estadão não
Levi-Strauss acompanhou a manifestação e o Estadão não
Mas a ciência se constrói sobre paradigmas, verdades que os colegas de uma área convencionam como certas seguem se apoiando nelas, então você e eu vamos considerar que a manifestação ocorreu e que foi significativa, ainda mais se você considerar fatores diversos como estes:
Mariliz Pereira Jorge, coluna FSP 30/05/21
Mariliz Pereira Jorge, coluna FSP 30/05/21
Dito isso, na prática, o que mudou? Estamos diante de um presidente que fez de tudo para prejudicar a saúde da população. Apostou todas as fichas em cavalos selvagens que nem estavam na competição. Qualquer pessoa que não está em negação da realidade sabe que, por exemplo, que incentivar a usar a máscara, caso um dia se prove que não salva da COVID, pelo menos reduz as gripes e ajuda a tranquilizar as pessoas. Sabe que ter vacinas, mesmo na hipótese de existir um remédio, é o mais importante, afinal, “prevenir é melhor do que remediar” e, de novo, tranquiliza a população em um momento em que a crise é sanitária, econômica e mental.Contudo…
Luis Francisco Carvalho Filho, coluna da FSP 29/05/21
Luis Francisco Carvalho Filho, coluna da FSP 29/05/21
Enquanto isso, o centrão, que comanda de fato o país, segue feliz, de bolso cheio e…
Bruno Boghossian, coluna da FSP 30/05/21
Bruno Boghossian, coluna da FSP 30/05/21
Já a oposição, por mais que coloque alguma pressão na rua, vive dividida, parte dela acha que o atual presidente vai seguir afundando como uma rocha e será fácil de bater. Mas…
Vinícius Torres Freire, coluna da FSP 30/05/2021
Vinícius Torres Freire, coluna da FSP 30/05/2021
E temos que lembrar que vivemos sob o domínio das narrativas. A economia teve uma suposta despiora, mas isso porque nesse momento em que os preços dos alimentos disparam mundo, com o nosso real desvalorizado, viramos um grande sacolão em queima de estoque para o mercado internacional. Isso cria gráficos lindos, mas, no mundo real, as indústrias se vão, as dívidas se acumulam e os preços disparam enquanto o povo fica cada vez mais pobre.A grande questão é como essa história vai ser contada e no que as pessoas vão acreditar. Por incrível que pareça, tem muita gente que se mostra disposta a acreditar nesse mítico PIB enquanto a geladeira está vazia e desligada (porque a luz foi cortada por falta de pagamento ou devido a crise hídrica que se avizinha).É triste, mas parece que tem que ser muito didático ou tudo é ressignificado, por isso, encerro com um exemplo para quando algum terraplanista da história vier falar sobre 1964.
Leandro Muniz, coluna da FSP 30/05/21
Leandro Muniz, coluna da FSP 30/05/21
Ideias roubadas
Morreu com 62 anos a chef Mari Hirata. Além de confeiteira da família imperial japonesa, ela era uma professora reverenciada aqui, onde nasceu, na Europa, onde estudou, e no Japão, onde passou boa parte da vida adulta.Muito antes dessa moda dos padeiros de quarentena, eu fazia pães em casa de fermentação natural. Aprendi com os textos do Américo (autor do livro Pão Nosso) que me foram indicados pelo amigo e colega de Universo HQ, Eduardo Nasi (que envia uma newsletter sobre filmes, para quem se interessar).Os pães que eu fazia eram bons, mas tinham problemas. Em 2018 fiz uma aula com a Mari Hirata em uma das visitas dela ao Brasil. Aprendi muito, tirei dúvidas que há muitos anos me perturbavam e, a partir dali, fazer pão se tornou muito mais fácil e o resultado passou a ser muito melhor.Dela conservo ainda o levain, que ela sugeriu misturar com o que eu já tinha, (inclusive ele fica até hoje no mesmo pote que ela deu) e uma receita de pão com grãos fermentados que, pra mim, é o melhor pão que existe, tanto que eu faço toda semana para o café da manhã.Aqui vai a receita dela. Você pode substituir o fermento natural por uma mistura de 170g de farinha com 130g de água e meia colher de fermento seco e deixar essa mistura crescer antes de fazer a massa, ou pode fazer o seu. Para um tutorial completo de fermento ou para converter os fermentos eu sugiro o site Amo Pão Caseiro, um dos mais detalhados que eu já vi e fonte de várias receitas que eu uso.
Pão de Fermento Natural da Mari Hirata

Ingredientes
700g de farinha de trigo de boa qualidade
300g de grãos fermentados (1 dia antes misture 150g grãos diversos [linhaça, quinoa, chia, aveia etc] com 150 ml de água e uma colher do fermento natural, misture bem. Você pode fazer mais e guardar por até um mês na geladeira, eu uso esses grãos no pão de queijo também, ficam ótimos)
300g de fermento natural
500 ml de água filtrada ou mineral
15g de sal

Preparo
Em uma tigela grande misture a farinha, os grãos, o fermento e água, não coloque o sal nesse momento. Misture tudo usando uma colher. A consistência é mais para pegajosa do que seca. Não precisa sovar.
Cubra a tigela com um pano úmido e deixe descansar por 15 minutos. Esse descanso é necessário para que a massa absorva o máximo de água e se torne elástica.
Após 15 minutos acrescente o sal e sove a massa para misturar o sal. A massa ficará elástica e lisa. Cubra a tigela com um filme plástico. Se estiver calor, a massa deverá dobrar de volume em 6 horas, no frio levará entre 8 a 10 horas (você pode deixar na geladeira de um dia para o outro)
Retire o gás da massa sem sovar, sobre uma bancada enfarinhada a formate em uma bola
Forre o fundo de uma panela de ferro com papel antiaderente e acomode a massa ali dentro (pode ser em uma assadeira)
Com a panela tampada, deixar crescer por 1 ou 2 horas, até que dobre de tamanho.
Com uma tesoura ou uma faca afiada faça cortes na superfície da massa Asse em forno pré-aquecido a 230ºC por 30 minutos.
Retire a tampa e asse por mais 30 minutos, até dourar bem.
Se o dorso do pão soar oco, o pão estará pronto.
Coloque-o em cima de uma grelha e deixe esfriar por pelo menos uma hora.
O pão continua a cozinhar por dentro. Esse pão continua gostoso por uma semana se bem embalado.
Torre ligeiramente antes de servir.
Pintores
Essa semana eu postei um vídeo sobre o Zorn, um pintor que eu adoro. Abaixo eu separei algumas obras “menos famosas” do Zorn para fazer alguns comentários que não entraram no vídeo.
Conheça o pintor Anders Zorn
Eu acho o trabalho de hachuras do Zorn impressionante, tudo está no seu devido lugar. O contraste é perfeito, note como os elementos praticamente não têm contornos, ele resolve o desenho já com um pensamento de pintura. Fora que a composição como um todo tem um movimento e praticamente conta uma história.
Esse é um exemplo de como os elementos podem ter níveis de definição diferentes de acordo com a importância e como, em um mesmo quadro, você tem técnicas tão diversas que parecem de escolas diferentes. Olhe as pedras ao fundo como são resolvidas como massas simples e sem detalhes. Reparem como a água é representada com um brilho e vida muito próximos de uma aquarela. E, por fim, o elemento central, é um nu clássico de pintores a óleo da época, mas em uma pose muito interessante.
Os autorretratos do Zorn são demais. Outro tema bacana dele são as esculturas que ele fazia e usava como referência.
Esse quadro é fantástico por muitos motivos. Primeiro tem a temática, que é o registro de um dia após uma feira na cidade do Zorn com essa mulher olhando o cara, talvez o marido, caído de bêbado. E, segundo, a composição, tem essa diagonal que divide o quadro, tem essa área gigante de grama que forma um respiro e esse arbusto em primeiro plano que dá um ar de “câmera indiscreta”.
Esse é um dos trabalhos iniciais do Zorn, uma aquarela, por aí a gente nota o quanto ele dominava o conceito de pintura transparente que é o elemento central da aquarela.
“… Nunca perdi muito tempo pensando na arte dos outros. Senti que, se quisesse me tornar algo, precisava ir atrás da natureza com todo meu interesse e energia, buscar o que eu amava nela e desejar roubar seu segredo e sua beleza. Eu tinha o direito de me tornar tão grande quanto qualquer outra pessoa, e naquele ramo da arte que tanto comandava, a aquarela, me considerava já a frente de todos os antecessores e contemporâneos … ”Anders Zorn
P.S.
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