Caderno de Recortes # 30 – 2021, o ano da tristeza sem fim/Haddon Sundblom

Essa é a penúltima edição de 2021 dessa newsletter. Meio sem querer ela virou uma retrospectiva curta e melancólica desse ano. Eu sei, parece que aconteceu tanta coisa, mas, quando recortamos aqueles momentos que os analistas disseram “agora tudo vai mudar” e olhamos com algum distanciamento, vemos que o ano foi uma repetição constante de eventos nefastos que rimam entre si.


Ideias roubadas

Frase de Maria Homem – FSP 24/10/21

Pergunta retórica

FSP 26/09/2021

Guardei esse recorte e acho que, mesmo que se o segurasse por mais tempo, a resposta para Aziz seria a mesma, sim, Aras matou a CPI no peito, engavetou com gosto. Aliás, vale lembrar que o mesmo Senado ao qual Aziz pertence reconduziu Aras justamente por conta da capacidade notória dele de blindar o presidente em flagrante desrespeito a função que ocupa.

Não dá para saber quem sente mais prazer com o poder proteger o presidente, se é Aras ou Lira.

Monica Bergamo – FSP 08/12/21

Durante a CPI muitos ficaram animados e figuras como Aziz e Calheiros tiveram um protagonismo inédito. Tentaram prolongar o evento o quanto deu porque, por mais que tenham dito em coletivas que a CPI ia produzir resultados concretos, todos sabiam que os portões do castelo estão fechados por todos os lados.

A CPI e os pedidos de impeachment são um show triste para um país que votou supostamente acreditando que tudo tinha mudado, que a corrupção seria punida e que as massas, os protestos e os movimentos sociais tinham alguma influência no jogo.

Vinícius Torrers Feire – FSP 08/12/21

2021 entrará para a história como o ano da tristeza sem fim. Um número absurdo de mortos, que poderia ser menor se o governo não jogasse contra a vacina e contra a saúde. O retorno da fome em larga escala sem nenhuma política pública sólida para combatê-la. O achatamento do poder econômico conquistado com muito esforço pela chamada “classe C”. Uma preocupação constante se a democracia ainda está na mesa. A falta de mecanismos para conter as “fake news” que, mesmo absurdas, se espalham e são tidas como verdades.

Soma-se a isso um rompimento simbólico da ilusão de que Brasília ouve “as ruas” e da ideia de que “as instituições estão funcionando”. Nada mais funciona, o presidente deixa morrer, anuncia golpe e não enfrenta consequências. O legislativo institucionaliza o jogo de troca de verba por votos e tratora qualquer pauta por mais absurda que seja. O judiciário segue vivendo com fartura e pompa enquanto mesmo quando seus membros em diversos níveis dão demonstrações de que o conceito de justiça foi esquecido há muito.

Ruy Castro FSP – 09/12/21

A herança dessa gestão é estrutural e simbólica. Bolsonaro é a peça central nesse jogo, mas é importante lembrar que tudo que ele conseguiu foi com o incentivo constante da maioria dos deputados e senadores.

Pintores

Chega de tristeza que é Natal (Ho! Ho! Ho!). Então quero falar sobre Haddon Sundblom (EUA 1899/1976), o homem que inseriu no imaginário popular o “Papai Noel da Coca-Cola”. Sundblom é um caso curioso de alguém que tinha uma certa habilidade, mas que faltou algo para ser uma estrela da sua geração (cargo ocupado por Rockwell). É curioso que a Wikiart classifica o Rockwell em um movimento artístico chamado de Regionalismo, enquanto Sunblom recebeu a pecha de kitsch. Foquei nessa edição no tema do Natal, mas, no futuro, pretendo retornar ao trabalho de Sundblom para entendermos melhor o que o faz ser tão menos lembrado do que Rockwell ou Leyendecker.

Aí está o molde mestre dessa figurinha que está por todos os cantos nessa época do ano. É interessante como apesar de estar tudo “correto” na imagem (proporção, sensação de tridimensionalidade dada pelas inúmeras dobras na roupa e pela pose), Sundblom poderia ter usado a luz para destacar o rosto ou para a direcionar a atenção para a garrafa do produto que ele estava anunciando. Como pintura, é um trabalho bonito, mas falta um direcionamento do olhar, principalmente por ser um peça publicitária.

Ok, esse Papai Noel era para ser fofinho mas é um pouco assustador. O rosto dele parece uma máscara de madeira complexa. Ainda assim, é uma pintura interessante, com muito volume e uma luz bacana.

Ok, esse Papai Noel era para ser fofinho mas é um pouco assustador. O rosto dele parece uma máscara de madeira complexa

Eu quis trazer essa pintura primeiro por ser uma opção peculiar para o Natal, segundo porque, de novo, mostra que Sundblom teve uma formação sólida como pintor, mas lhe faltou aquele design intuitivo que muitos artistas tiveram antes do design de fato ser sistematizado.

A pintura em si é ok, um trabalho bem acadêmico que, em termos de anatomia, até lembra o Frazetta. Agora, essa bola vermelha no fundo é algo quase sem sentido gráfico.

Aqui já vemos um trabalho bem melhor de design, o que mostra que Sundblom foi aprendendo muito ao longo da carreira. Vocês podem dizer que é uma pintura brega, mas eu tenho uma queda por esses anúncios antigos.

Ok, essa imagem não tem nada a ver com Natal, mas eu achei necessário colocá-la nessa seleção porque ajudar a redimir um pouco as críticas que eu fiz até aqui. Esse é um trabalho muito interessante visualmente, tem expressividade nas pinceladas, tem charme na escolha concisa das cores com o predomínio do cinza cromático. É uma pintura muito diferente do trabalho padrão desse artista, mas é uma pintura muito bonita. Por mim ele seria lembrado fácil por essa pintura, e não pelos trabalhos natalinos.

P.S. 1

Essa semana morreu José Luiz Benício, um grande pintor e ilustrador que dedicou a vida a ilustração publicitária. Certamente vai ter uma edição dedicada a ele ano que vem.

P.S. 2

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