Caderno de Recortes #32 – paliativos/salários/Edward Hopper

Então é isso, voltamos.2022… 200 anos da independência, 100 anos da Semana de Arte Moderna. Apesar de todas as perspectivas temerárias, espero que se acontecer algo relevante esse ano a ponto de merecer uma comemoração de centenário em 2122 seja algo positivo, porque os últimos anos têm sido uma ladeira abaixo sem fim.
Eu queria começar o ano otimista, cheio de energia, mas depois de ler vários artigos falando que “faltam poucos meses para a eleição” (poucos = 10 = 83,33% do ano) já fica a certeza que esse ano não terá nem um momento de respiro.
O importante é que vamos juntos até o final.
Ideias roubadas
Frase de Sérgio Rodrigues - FSP 19/01/22
Frase de Sérgio Rodrigues – FSP 19/01/22
Parados no tempo
Bruno Boghossian - FSP - 25/12/21
Bruno Boghossian – FSP – 25/12/21
A CPI da covid foi enterrada, como esperado, e o “caso Prevent Sênior”, que brotou quando alguém destampou um bueiro errado, segue para o mesmo rumo.
Infelizmente, quando as pessoas se veem nessa situação de impunidade e injustiça perene, os sentimentos delas se confundem e passam a atacar qualquer um, mesmo quem não tem a ver com o assunto.
FSP -26/12/21
FSP -26/12/21
Enquanto isso, o diretor executivo da Prevent comemora publicamente:
O elefante na sala nesse caso é o fato de que as pessoas querem que continue existindo um plano de saúde com o preço da Prevent, acessível para uma classe média que está envelhecendo, sem aceitar a realidade financeira de que para algo assim parar de pé, muita coisa errada tem que rolar. Como eu disse em uma edição anterior, não há gestão eficiente o bastante que justifique a sustentabilidade financeira da Prevent.
Aliás, nessa edição anterior eu comparei os dados da Prevent com os da Amil, meses depois a Amil pagou 3 bilhões de reais para um fundo de investimento assumir a carteira de clientes individuais. Ou seja, esse tipo de operação é tão complexa que uma empresa multinacional preferiu pagar uma fortuna para sair do ramo. O que acontece com os clientes da Amil? Oficialmente nada muda, mas na prática esse fundo de investimento fará o possível para incentivar que todos abandonem o plano. Advinha quem estará de braços abertos para recebê-los com o lema “óbito também é alta”?
Vladimir Safatle - FSP - 26/12/21
Vladimir Safatle – FSP – 26/12/21
Discalculia
De fato deve ser difícil empreender no Brasil. Difícil em um nível que a pessoa embrutece e passa a ver quem trabalha para ela como uma despesa que deve ser sempre controlada.
Bel Coelho na FSP - 11/01/21
Bel Coelho na FSP – 11/01/21
Essa fala é da chef Bel Coelho que tem um restaurante/café dentro de uma livraria no centro de São Paulo. Aparentemente ela se surpreendeu com o fato óbvio de que antes de aceitar o emprego as pessoas pensam: “qual é o mínimo que eu posso receber para garantir um pouco de dignidade?”
Casca de banana
Quando o presidente anunciou que ia dar reajuste só para os policiais federais, muita gente pensou que ele atravessou a para para escorregar em uma casca de banana.
Era esperado o descontentamento de todas as outras categorias do governo que tiveram seus salários reduzidos pela inflação.
Mas e se os desdobramentos disso forem algo calculado?
Painel - FSP 20/01/22
Painel – FSP 20/01/22
A Polícia Federal é uma categoria relativamente pequena quando comparada com o efetivo policial dos Estados. Ao garantir um salário melhor para os policiais “dele”, Bolsonaro aumenta o descontentamento dos policiais estaduais para com os governadores e cria mais instabilidade para um golpe que muita gente acredita que ele está preparando.Não coloco muita fé nessas teorias, mas, movimentos como esse com certeza não parecem um erro estratégico.
Pintores
Esses dias a ilustradora Samanta Flôor citou na newsletter dela o pintor americano Edward Hopper. Curiosamente tinha visto algo sobre ele a pouco tempo e achei que era um sinal para começar o ano falando dos trabalhos desse artista.Eu não tenho dúvida de que você já viu ao menos uma pintura de Hopper. Aquele com a cena noturna com uma lanchonete em uma esquina de Nova York habitada por clientes solitários.Então nas próximas semanas vou trazer algumas pinturas menos óbvias dele, para conhecermos um Hopper que vai além de um retratista da melancolia urbana.Aliás, para quem se interessar, a Taschen tem um livro bacana sobre o Hopper.
Eu me apaixonei por esse esboço. Primeiro que tem essa cara de esboço meio feito as pressas, meio inacabado, mas, ao mesmo tempo, é tão funcional graficamente que parece pronto. Fora isso, o desenho tem uma estilização fantástica e, por fim, o sujeito parece até ser a inspiração para a máscara do V de Vingança.
Confesso que eu não conhecia o trabalho de aquarela do Hopper. Achei muito impressionante a forma como ele trabalha que tem uma opacidade considerável nas manchas. É interessante que na aquarela o Hopper mantém um controle e uma definição considerável, no mesmo nível que no trabalho a óleo dele.
Eu gosto muito dos recortes visuais que o Hopper faz. Ele foi influenciado pelo cinema da época, mas, com certeza, ele foi uma grande influência para os ilustradores que vieram depois dele. Nos quadrinhos por exemplo, esse tipo de cenário é quase obrigatório em uma HQ do Homem-Aranha ou do Demolidor.
Nem vou entrar no mérito da qualidade técnica da pintura aqui. Olha essa cena que fantástica. O palhaço depressivo na mesa, o sujeito de bigode da mesa do lado encarando ele. Fora as lanternas japonesas que aumentam a peculiaridade do ambiente. De todas as pinturas do Hopper, essa virou a minha favorita.
Algo que eu acho fantástico é quando os pintores são capazes de imprimir uma sensação de movimento na cena. As árvores ao fundo inclinadas com o vento constroem essa força visual. Não sei vocês, mas quando eu olho para a senhora sentada na mesa, tenho a impressão que ela está fazendo algum esforço para resistir ao vento que bate nela.
P.S.
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