Caderno de Recortes #34 – Nunes, o último zelador da Escócia/E. Hopper

Mais uma semana de atrocidades e show de horrores. O Brasil nos mostra a cada dia que todo tipo de estrutura está sempre a beira do colapso.
Ideias roubadas
Frase de José Henrique Mariante - FSP 29/01/22
Frase de José Henrique Mariante – FSP 29/01/22
Infralegal
A gestão Bolsonaro deixou o termo infralegal em alta. A grosso modo muitas leis aprovadas deixam a cargo do poder Executivo regular diversos pontos e essa regulação pode ser mudada por aquele que está na cadeira de presidente/governador/prefeito de forma relativamente simples por meio de decretos, instruções e outras ferramentas autocráticas.
Além disso, existem outras formas até mais práticas de infralegalismo que é o uso de leis existentes que abordam problemas tangenciais para impedir algo que não está a seu alcance (sendo o Kassab um grande expoente dessa técnica).
Esse não foi o único caso que consolidou a fama de Kassab como “bom zelador” da cidade.
Estadão - 14/11/2007Estadão – 14/11/2007
Agora, o atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, segue firme na mesma escola e exumou uma legislação da época do Jânio Quadros (que, nesses mais de 70 anos, nunca foi usada) para assediar proprietários de prédios na região central da cidade.
FSP 01/02/2022
FSP 01/02/2022
Ou seja, Nunes não consegue higienizar a região por conta própria então lança uma aposta: ou os moradores se viram, pintam e contratam uma segurança privada 24hs para manter a pintura intacta ou ele enche o cofre da prefeitura. Seja qual for a solução, o resultar é mais um o exemplo desses administradores autoritários que na falta de um projeto de governo optam por engrossar a fama de que o Estado parasita o cidadão.
Aliás, quem tem uma criança em casa deve se preocupar muito, pois, enquanto o prefeito está ocupado higienizando os bolsos dos moradores da cidade, não sobrou tempo para questões supérfluas como a educação. Conhecendo o prefeito, ele vai ameaçar prender o pai que não arcar uma escola particular.
FSP 03/02/2022
FSP 03/02/2022
Vida profissional
Tem um filme excelente chamado O Último Rei da Escócia que fala sobre o ditador Idi Amin. Uma cena em particular desse filme me vem a mente com muita frequência, um diálogo entre o Amin e o Garrigan (um personagem criado como protagonista do filme que trabalha como médico e conselheiro involuntário do ditador).É possível ver a cena nesse link, mas o diálogo que eu quero destacar é esse:

Idi Amin Quero que você me diga o que fazer!
Garrigan Você quer que EU diga o que VOCÊ deve fazer?
Amin Sim, você é meu conselheiro. Você é o único que eu posso confiar aqui. Você deveria ter me dito para não expulsar os asiáticos!
Garrigan EU DISSE!
Amin Mas você não me convenceu, Nicholas. Você não me convenceu!

Essa cena é inesquecível. Muita gente já deve ter passado por uma situação semelhante a esse diálogo na sua vida profissional.
Tem um pessoal que diz que toda empresa deveria ter um departamento do “Vai dar merda”, particularmente eu acho que na maioria dos casos sempre teve alguém sem poder de decisão que avisou que algo ia dar errado.
Para pegar um exemplo recente, talvez tenha até existido algum engenheiro que tenha dito que perfurar o chão com uma distância de apenas 3 metros de uma tubulação sucateada como a da Sabesp não seria algo seguro. Se existiu alguém assim, é certo que ele pode até ter avisado, mas, infelizmente, não convenceu.
FSP 01/02/22
FSP 01/02/22
Pintores
Vamos ao que interessa, então? Continuar com Edward Hopper?Tenho recebido algumas mensagens bacanas sobre o Hopper, acho interessante como esse pintor provoca uma série de sensações e memórias nas pessoas. Esse fato em si de gerar uma conexão direta com as emoções de quem olha as imagens é uma evidência da habilidade artística desse pintor.
Sempre gosto de olhar os esboços dos pintores. Dá para entender muito o que é importante para o sujeito. Por exemplo aqui, tem um enfoque imenso na composição, na escolha desse ângulo visual superior meio forçado e no uso da luz não só para criar contraste, mas, também, para dar movimento na imagem.
É interessante que Hopper não fazia apenas a representação de um lugar, ele criava uma cena completa. Um quadro como esse parece que quer contar histórias infinitas. Parece um frame de um filme ou um quadro de uma HQ. Isso é algo que vai além da técnica visual e gera uma conexão com quem observa o quadro.
É dito que Hopper detestava fazer ilustrações. Fazia apenas por necessidade. Dá para ver que ele não se esforçava tanto quanto nos quadros, mas, mesmo sem muita vontade, o trabalho ficava fantástico.
Já devo ter falado isso outras vezes, com certeza vou falar de novo. Adoro quadros com perspectiva atmosférica, esse conceito de criar profundidade reduzindo a intensidade da cor e a definição dos elementos.
Por fim, mais um desses quadros do Hopper que rementem a essa melancolia noturna urbana.
P.S.
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Abraços e até a próxima.
P.S.2
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