Caderno de Recortes #35 – debates/veneno/Edward Hopper

Olá, como vocês estão? Espero que bem. Essa semana eu acho que escrevi um pouco mais do recortes, então, desde já, agradeço a paciência e agradeço a quem sempre divulga e compartilha as newsletters.
Ideias roubadas
Frase de Maria Homem - FSP 30/01/2022
Frase de Maria Homem – FSP 30/01/2022
Retórica do vale-tudo
Naqueles filmes e séries sobre adolescentes nos EUA aprendemos que os “clubes de debates” eram frequentados por alunos nerds e sem carisma.
Debates no geral são chatos. Ainda mais o debate sério entre pessoas que entendem do tema que estão falando. É possível aprender muito por meio do debate e algumas ciências só se desenvolvem usando essa ferramenta para testar e consolidar ideias (aliás, a prova final da formação de monge budista tibetano é a participação em debate para provar seu conhecimento, até mesmo o Dalai Lama passou por esse processo). Mas, ainda assim, os debates são chatos.
No Brasil a prática do debate não era algo tão amplo. Mesmo no Direito, a maior parte dos processos se desdobram no papel e a chamada “sustentação oral”, mais semelhante aos julgamentos dos EUA, é reservada para casos muito específicos de Direito Penal e cortes superiores.
Devido a isso, a grosso modo, quando o brasileiro pensava em debate lhe vinha a mente os encontros tediosos daquela dezena de candidatos pitorescos a cargos no Poder Executivo.
Nos últimos anos isso tem mudado e o enfrentamento de ideias em podcast, youtube e até nas mídias tradicionais se tornou um novo tipo de entretenimento. O problema é que o entretenimento tem que pagar penitência no altar na audiência e isso faz que com as figuras mais exacerbadas, com os argumentos mais bizarros sejam mais atrativas do que uma conversa entre seres humanos esclarecidos que têm uma abordagem diferente de temas que ambos dominam.
Eu sei que a essa altura você está enjoado de ouvir falar sobre o tal podcast Flow, mas vamos lá. Eu não ouvia esse podcast, mas de tanto ouvir falar nesse tal Flow acabei vendo um ou outro daqueles “cortes” (trechos curtos com chamadas provocativas). A internet tem disso, muita coisa a gente não precisa procurar, se alguém que você segue vai no podcast e um trecho que essa pessoa falou “viraliza”, isso chega até você.
Por essas coincidências do algoritmo, todas as vezes que eu vi algum trecho desse programa o tal “Monark” estava usando uma lógica tosca para defender a liberdade de expressão.
Como eu disse, o entretenimento tem que sempre escalonar para trazer mais público. Então ele já defendeu que a opinião dele vale mais do que os fatos, já defendeu a liberdade de não gostar de uma raça específica e, como isso estava agradando e trazendo mais público, no melhor estilo “o show tem que continuar”, o camarada foi e defendeu o direito de ser Nazista.
É interessante, ainda que triste, que temos essa linha de defesa. Aparentemente o cara pode ser um imbecil, pode ser racista, pode ser o que for que ele continua com muito patrocínio e muita audiência. Agora, sacou a palavra Nazista, a casa caiu.
Sim, é um fato que temos imbecis no Brasil que são nazistas. Nunca conheci um, mas imagino que se trate de pessoas tão obtusas que não tem a capacidade cognitiva mínima de entender que, pelo simples fato de não serem da “raça pura ariana”, seriam tratados como escória pelos nazistas de verdade.
Mesmo que esses nazistas tupiniquins sejam imbecis, eles têm que ser combatidos. Mas, se antes disso já tivéssemos filtrado os racistas, homofóbicos e demais aberrações, um cara como esse nunca teria tido o destaque o suficiente para merecer todo esse debate.
Um cálice de veneno
Essa semana passou na Câmara dos Deputados o PL do veneno que arromba as poucas travas de segurança do uso de agrotóxico.
O agrotóxico em si nem sempre é um problema e a aprovação de novos agrotóxicos até pode trazer modernização ao introduzir venenos menos prejudiciais. E, infelizmente, temos que admitir que, por mais que o ideal seja uma produção orgânica e sustentável, ainda não é possível abolir os agrotóxicos por completo, pois há uma demanda imensa por alimentos e produtos agrícolas.
Assim, é justamente para proteger o consumidor final tanto de doenças quanto da escassez que a aprovação dos venenos precisa passar de mecanismos robustos com com autonomia plena.
Uma política agrária decente ao invés de investir em a afrouxar as salvaguardas deveria fortalecer órgãos que visam modernizar de fato da agricultura, como a Embrapa e as universidades que têm uma tradição imensa em pesquisa e, agronomia.
Mas quem tem pressa para aprovar venenos que nenhum outro país do mundo usa não está pensando em melhorar nada. Esses barões do agronegócio trataram a tramitação expressa dessa lei como um investimento para lucrar mais a curto prazo, mate quem matar.
Ao conseguir uma maioria folgada, praticamente uma votação de PEC (301 a favor e só 150 contra) o agronegócio mostra que tem mais gente no seu bolso do que uma mera “bancada do boi”. Pior, mostra que tem mais gente disposta a vender a saúde do povo do que podemos imaginar. Gente que está pouco se lixando para a opinião pública e que se sente seguro o suficiente para, até mesmo em um ano eleitoral, votar publicamente para que os brasileiros recebam mais oportunidades de morrer de câncer.
Ou seja, o que está em questão aqui é, de novo, a qualidade do Legislativo brasileiro. Em uma gestão em que o Poder Executivo é nulo (para não dizer outra coisa) a Câmara e o Senado tomaram de assalto o protagonismo e estão pilotando o país.
O resultado disso é uma gestão que acha que cobrar IR de milionários é uma má ideia, mas socar veneno na comida é uma ótima pedida.
Talvez eu tenha escolhido mal as palavras vamos tentar de novo:
O resultado disso é uma gestão que não tem qualquer ideologia e avança com prazer na direção de quem faz o lobby (compra de votos?).
Temos que parar de achar que a política e a ideologia (seja ela tosca ou não) é o problema. O problema é o vácuo de políticas públicas sempre pronto para ser preenchido por dinheiro.
Benito Salomão - FSP 11/02/22
Benito Salomão – FSP 11/02/22
Pintores
Última semana de Hopper, prometo.
Eu achei essa imagem muito curiosa. Dá para lê-la de duas formas: duas mulheres estavam tomando banho no rio quando o trem passou OU um trem passando e duas mulheres nuas no canto só porque é legal desenhar trens e mulheres. Além disso, acho incrível a energia dinâmica do trem em movimento, dá para sentir o peso dele se inclinando.
Outro esboço interessante para observar a escolha do sentido das hachuras.
Seja um cenário urbano, seja esse subúrbio de alta classe, Hopper fazia uns recortes lindos da arquitetura local. Tudo no trabalho dele é muito preciso, mas a composição (a escolha do enquadramento das imagens) é algo matador.
Por fim uma aquarela. Já falei disso em edições passadas, é interessante como ele trabalha as aquarelas de uma forma mais opaca e também como tinha esse cuidado de oscilar entre áreas de detalhes muito precisos e áreas meio “rabiscadas”, como aquela sombra projetada pela árvore na casa.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
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