Caderno de Recortes #36 – seu trabalho vale um bolovo? / Ilya Repin

Olá pessoal. Vamos para mais uma semana? Uma das pautas dessa edição foi uma sugestão do roteirista e editor Lielson Zeni. Abraço para ele e para todos vocês que sempre comentam e compartilham as newsletters.
Ideias roubadas
Frase de Flávia Boggio - FSP 17/02/22
Frase de Flávia Boggio – FSP 17/02/22
Quem paga a conta?
Nos últimos anos surgiram cada vez mais formas de “economizar”. É provável que você já tenha comprado algum produto por preço irrisório vindo direto da China, que tenha usado um carro particular de aplicativo para gastar menos do que o táxi, tenha pedido um livro on-line porque era muito mais barato do que na livraria, tenha comprado um almoço sem taxa de entrega e com cupom de desconto em um aplicativo, tenha feito uma compra “coletiva” naqueles sites cupons, tenha encontrado um plano de celular mais barato e que nem tenha mais linha fixa.
Essas e várias outras “economias” parecem fantásticas e são embaladas como parte de ideias “disruptivas” que garantem otimizar o produto/serviço de tal forma que ficaria tão mais barato ao ponto de ser possível bancar um aplicativo intermediário (muitas vezes com taxas abusivas) e ainda oferecer um preço muito vantajoso para o cliente. A contrapartida para quem vende é um suposto aumento de volume e a terceirização (às vezes uma quarteirização) de alguma etapa.
Muitas dessas ideias começam com um conceito fofinho, como um espaço virtual que permite encontrar alguém que vai viajar amanhã para Batatais e que está disposto a dar uma carona para rachar a gasolina.
O problema é que essa poesia da economia compartilhada que fala sobre evitar desperdício e fazer um uso coletivo de recursos tem uma tendência de virar um verniz para esconder uma transformação predatória de uma nova variante do capitalismo selvagem.
Parte disso não é algo novo. A famosa “PJotização” já era comum em muitos ramos, mas o surgimento do Uber como modelo de negócio cristalizou a ilusão de que ninguém precisa mais trabalhar para um patrão, todos podem se libertar da palavra trabalhador e transcender para empreendedor.
Mathias Alencastro FSP 26/12/2021
Mathias Alencastro FSP 26/12/2021
É claro que essa questão é apenas uma das engrenagens que retroalimentam um cenário muito complexo.
A concentração de riqueza e a desigualdade no mundo crescem de forma assustadora. E o empobrecimento acelerado da maioria da população trabalhadora, inclusive uma classe média que, no caso do Brasil, teve uma ascensão razoável entre 2000 e 2015, faz com que as pessoas busquem alternativas para minimizar as despesas e maximizar os lucros. Sim, esse é um pensamento empresarial, mas não podemos esquecer que, agora, todos são empresas de um homem só.
O que mais me preocupa nesse cenário todo é: quem paga a conta?
Se algo tinha um custo, agora com aparição de um intermediário (uber, ifood, etc) recebendo sua parte, o preço não deveria aumentar?
A ideia de que esses aplicativos “azeitaram” tão bem os mecanismos não explica por completo essa alquimia.
Quando olhamos mais de perto essa suposta eficiência vemos que a base da pirâmide está abrindo mão de quase tudo que podia e não podia para fazer a mágica acontecer. Não é só o trabalhador que deixa seus direitos de lado, os microempresários do comércio do bairro apertaram suas margens para acomodar os novos “sócios” e não perder os clientes para a competição predatória.
Mas tudo isso tem um limite. Quanto é possível cortar até que o ecossistema não seja mais sustentável?
O Uber, o grande símbolo dessa nova era, já dá sinais de exaustão. A corda, é claro, não está rompendo do lado do aplicativo, que segue faturando, e sim do trabalhador empreendedor. A falta de direitos na hora que ocorre um acidente, o retorno insuficiente para o tanto de trabalho e todos os demais custos e riscos passaram a pesar e afastar os motoristas dos aplicativos.
Mathias Alencastro FSP 26/12/2021
Mathias Alencastro FSP 26/12/2021
Quanto vale o show?
Algo importante para ter em mente é que a economia é um ambiente em que as ideias, conceitos e problemas têm uma velocidade de contágio avassaladora.
A economia disruptiva gera uma pressão para que, em todos os lados, os preços não subam. Curiosamente há elementos “incontroláveis”, como o valor dos alimentos e das matérias-primas e custos que são domados a força.
Um exemplo claro é o valor do trabalho. A economia sob o descontrole de Paulo Guedes vem esfarelando e todos os produtos básicos de consumo estão em uma alta desenfreada, mas, os salários não “podem” acompanhar. Por algum motivo normalizou-se a ideia de que o único gasto em uma empresa que é inaceitável ter variação são os salários. Por mais que a economia disruptiva exija que a empresa produza mais para “ganhar no volume”, não é possível pagar mais ou ter mais funcionário.
Isso está calcado na ideia de que: sempre terá alguém para fazer o trabalho, não importa o quão pouco se pague.
Acontece que tudo tem limite. Quando uma pessoa se vê em um trabalho que não consegue bancar nem mesmo as necessidades básicas dela, aquilo perde o sentido.(Caso nesse ponto você sinta o desejo de defender a meritocracia e o esforço para o crescimento, pare e pense que ao dizer isso você afirma que pessoas merecem receber salários muito abaixo do razoável para sobrevivência)Se o salário de uma pessoa se consome todo com a alimentação e moradia, e todas as alternativas não são muito melhores, qual o sentido da vida para essa pessoa?
Não é a toa que nos últimos anos observamos o aumento expressivo do número de pessoas que não querem mais tolerar trabalhos precários.
Marcelo Soares - VC S/A -10/02/22
Marcelo Soares – VC S/A -10/02/22
google, pesquisa em 16/02/22
google, pesquisa em 16/02/22
Enquanto isso, do outro lado da cerca
FSP 17/02/2022
FSP 17/02/2022
Quem não herda
É importante notar que apesar dos comerciais, filmes e de toda uma estrutura criada para que as pessoas se sintam fracassadas por não estar no lado rico da sociedade com o aparelho mais caro e a roupa da moda, o sonho da maioria das pessoas é bem mais simples.
Antes de concluir eu quero fazer um parêntesis aqui. Sou contra todas as “porteiras” criadas pela falta do dinheiro. O acesso a uma comida boa, o acesso ao lazer, a materiais artísticos e tudo mais não deveria ser algo só para uma elite. Ao mesmo tempo, nada me incomoda mais do que o desperdício, os chamados “bens posicionais”, aqueles que só servem para a pessoa demonstrar o status dela e o consumismo desenfreado.
Não acho que a longo prazo a solução para economia seja apenas permitir que todos consumam mais. Isso é uma visão simplista que apenas mantém a “roda girando”.
Dito isso, utopias a parte, a regra do jogo atual é o consumo. Ao dizer para uma pessoa que o trabalho dela é essencial, mas que o que ela irá receber não será o suficiente para se sentar a mesa com os outros, é o auge da exclusão. Moradia não deveria ser sonho de ninguém e sim premissa.
Enquanto houver pessoas que são tratadas como meras máquinas de trabalhar, o futuro do sistema é uma espiral de destruição embalada em uma ilusão de uma possibilidade de uma vida melhor que nunca chega.
Pintores
Como os olhos do mundo estão voltados para o conflito entre a Ucrânia e a Rússia, nas próximas semanas trarei os quadros de Ilya Repin (1844/1930). Apesar de ser catalogado muitas vezes como um pintor russo, Repin é ucraniano.
Gosto muito do olhar pesado dessa pessoa que Repin retratou. A expressão e a postura é tão carregada de sentimento e emoção que chega a ser impressionante.
Gosto muito desses quadros do Repin que tem essa característica impressionista. A pinceladas fortes e bem marcadas e os elementos com o mínimo de definição possível para que ainda mantenham seu realismo.
Separei esse quadro pela composição da cena. O fundo formado pelas árvores escuras contrastando com a escada de pedras claras faz com que a mulher retratada pareça que está saindo das sombras.
Esse já é um quadro bem mais clássico, mas a luz dele é muito bonita. A forma como ela recorta a expressão do rosto e se reflete na barba é fantástica.
Repin fez vários retratos de Tolstoy, esse, pra mim, é o mais bonito de todos. Ele descalço nesse ambiente bucólico com esse camisolão branco forma uma imagem incrível.
P.S.
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