Caderno de Recortes #38 – cultura para todos/Batman/Ilya Repin

Lembra quando o presidente do Brasil sequestrou um cachorro e isso parecia um dos ponto baixos do governo? Hoje, em contraste, esse talvez tenha sido um dos melhores momentos dos últimos 4 anos.
Ideias roubadas
Frase de Celso Rocha de Barros - FSP 30/01/2022
Frase de Celso Rocha de Barros – FSP 30/01/2022
Cultura para quem pode
FSP 23/02/2022
FSP 23/02/2022
Achei bem curiosa essa argumentação do deputado, porque é um exemplo de como alguém pode apresentar algo tosco (a elitização da cultura) com uma embalagem bonita.
Tem dois problemas críticos nessa situação. A ideia implícita de que profissões “intelectuais” têm mais necessidade de cultura e a criação de um incentivo financeiro justamente para quem não precisa. Tudo bem, como eu venho dizendo, há um empobrecimento geral em todas as áreas da cadeia produtiva, contudo, se você vai escolher uma fatia da população para conceder um benefício financeiro, é pouco provável que o primeiro grupo que venha a sua mente sejam pessoas com curso superior em uma categoria com essa média salarial:
3MIND Jurídico  24 de setembro de 2021
3MIND Jurídico 24 de setembro de 2021
Faltou ao nobre deputado uma visão menos sectária e mais humanista de que o acesso a cultura é importante e traz inúmeros reflexos positivos para todas as pessoas e que quem mais precisa desses benefícios são justamente aqueles que não podem pagar. Sem dúvida, uma entrada gratuita subsidiada pelo Estado para quem necessita de benefícios sociais para sobreviver seria muito mais útil para a sociedade como um todo do que um desconto para que o jurista possa investir menos na sua melhoria pessoal/profissional.
The Bátima
Assisti ao novo filme do Batman e acho que vale um comentário breve, não se preocupe, não vou revelar nada sobre a trama, principalmente porque esse é um filme calcado na história e na resolução de mistérios.
Algo que chama muito a atenção no filme é como ele é bonito visualmente. A direção de fotografia do filme é fantástica. Tudo no filme é pensado mais em termos gráficos do que funcionais. A gola da capa do Batman, o estilo do carro, o figurino dos personagens… Além de, é claro, Gotham City, uma das cidades imaginárias mais reinventadas da ficção. É impressionante como esse cenário comporta uma visão pessoal de cada desenhista de quadrinhos ou diretor de série/cinema/animação que cria uma ambientação que é diferente, mas que ainda é reconhecível como essa metrópole sombria icônica que ninguém nunca viu de fato.
Sim, como sempre, tenta-se dar um ar realista ao filme, até porque, em tese, como o Batman não tem superpoderes, é um herói que só deveria se engajar em ações que uma pessoa normal fosse capaz. Nesse sentido, tirando o famigerado Batman com Adam West, esse é um dos filmes mais “pé no chão”. As lutas não parecem coreografadas, há pouca ação acrobática e o mínimo necessário de cenas grandiosas de ação.
No geral a história parece muito com tramas noir como os clássicos de Raymond Chandler em que detetives particulares se enrolam em um caso e decidem que são melhores do que a polícia para resolvê-los. O conjunto é tão realista que não seria preciso de grandes adaptações no texto para trocar Bruce Wayne por Philip Marlowe.
Além do visual, algo que chama muito a atenção é o som imersivo do filme, que, aliás, é um dos bons motivos para ver Batman no cinema. Mesmo um equipamento de som de uma sala de cinema mediana (assisti no Cine Marabá, um dos últimos cinemas de rua de São Paulo) é capaz de envolver o espectador nas cenas de uma forma poderosa.
Dito isso, vejo dois problemas significativos no filme. O primeiro é que todas as atuações são péssimas. A impressão que dá é que o diretor focou tanto no visual que deixou o filme seguir com performances em que ninguém se esforçava. E, talvez, Matt Reeves, que dirigiu e escreveu, seja alguém que não liga para atuações, tanto que o filme praticamente não tem cenas teatrais que exigiriam atores um pouco mais dedicados.
O segundo problema do filme é essa praga de que todos os filmes de heróis precisam durar 3 horas. Não é que o filme tenha cenas totalmente desnecessárias ou que seja chato, mas, também, ele não tem essa construção de profundidade abissal que demandaria tanto tempo.
Pintores
Sinceramente, quando planejei fazer quatro edições sobre o pintor ucraniano Ilya Repin, acreditava que a guerra iria acabar bem antes e que, talvez, houvesse alguma resolução menos dramática do que estamos acompanhando. Mas seguimos vendo as pinturas para esquecer as cenas dos noticiários.
Acho muito poderosa essas escolhas das poses feitas pelo Repin, note como ele cria algumas diagonais visuais no retrato evitando que a imagem fique dura e tediosa.
Esse é um retrato bem mais tradicional, ainda assim, captura uma expressão tão intensa no olhar que o deixa muito interessante.
Esse está entre os meus quadros preferidos do Repin. A pose inclinada que joga os ombros para trás da cabeça, o olhar inquisidor e ao mesmo tempo gracioso e as pinceladas largas e sem muita definição criam um conjunto sensacional.
Sempre acho interessante essas pinturas meio sombrias, quase monocromáticas, é um retrato, mas o retratado não é relevante na cena e sim a sensação que o quadro passa.
Por fim, uma paisagem. Não era o forte do Repin, mas faz parte do repertório de todo pintor clássico.
P.S.
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