Caderno de recortes # 4

Caderno de Recortes do Diletante Profissional
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A semana começou com o sonho de que os jogadores de futebol da Seleção iriam finalmente trazer uma grande alegria para o país. Pareceu por um momento que uma fina flor de consciência brotou naqueles jogadores e eles iriam se negar a jogar um torneio internacional improvisado às pressas em meio a uma pandemia que já levou quase 0,25% de toda a população do Brasil (o número é aproximado, mas incontestável, já que não temos mais censo nem senso para contraprova). Infelizmente, toda esperança foi em vão, os jogadores derrubaram algum dirigente que não agradava e jogarão, morra quem morrer.
Enfim, o importante é que eles fizeram um manifesto, que eu não li, mas parece que teve o mesmo impacto que todas as notas de repúdio e outras palavras ao vento que não servem nem para mover um moinho e produzir algo de útil.
Então, chega disso e vamos para uma edição cheia de boas intenções e nenhuma realização, tal qual uma boa moção de apoio.
Ideias roubadas
Frases de Mario Sergio Conti/FSP 12/06/21
Frases de Mario Sergio Conti/FSP 12/06/21
A exceção e a regra
Uns dias atrás ouvimos falar sobre o Secretário de Cultura Mario Frias que berra com os funcionários e anda armado para reforçar o seu comando. Junto com o problema da Cova América, também brotou a história do tal Caboclo que faz um faroeste com os funcionários da CBF.
Algo que me impressionou nessas duas histórias, é que muito se chocou com esses relatos, mas pouco se falou sobre como esses casos não são exceção, ainda mais no serviço público.Muito além de uma mera falta de reconhecimento profissional, a cultura de chefes abusivos é uma tradição no serviço público. Além de relatos de outras pessoas, só com base na experiência própria posso dizer que o nível de ofensas pelos quais já passei fazem com que chefes que “só” gritam ou que você tem que escolher o dia certo para falar com ele se classifiquem entrem os melhores que já tive.
Eu sei que você vai dizer que é só sair, só denunciar entre outras coisas, contudo essa solução que parece relativamente simples para a iniciativa privada não se aplica de forma tão direta no serviço público. Primeiro, sejamos honestos, em boa parte das carreiras, o serviço público paga mais que a iniciativa privada e oferece uma sorte de benefícios. Não estou nem falando de supersalários, pois isso é reservado a uma crosta especial do funcionalismo, no geral os que gritam e ofendem. Em funções mais de base, como um equivalente a um auxiliar administrativo que ganharia um salário mínimo, pode-se começar a carreira ganhando 3 mil ou um pouco mais. Fora isso, o vínculo entre o funcionário público e o emprego é mais forte. Você presta um concurso, passa por 3 anos de estágio probatório e, muitas vezes, se especializa em uma temática que não tem qualquer aplicação na esfera privada.Mas isso é uma mera questão de fundo, pois o problema em última instância mora na rotatividade das chefias. Em ciclos de 2 a 4 anos, no geral, muita coisa muda no serviço público. Cada gestão é de um jeito e cada chefe, escolhido por motivos diversos pelo gestor da estação tem o seu “jeitinho próprio”. Em comum todos querem resultados, muitas vezes impossíveis, e esperam que os problemas sejam rolados para um momento que não seja mais ele a ter que mandar alguém resolver.Isso gera um cenário perfeito em que o chefe tem uma força externa que o garante e o funcionário tem uma força interna que o faz ficar.
Ou seja a cultura do abuso tem um solo fértil para procriar no serviço público que, como diz um amigo, “é uma máquina de moer autoestima, o sujeito entra cheio de ideias, querendo mudar o mundo e, depois de uma semana, já não faz a barba e vai trabalhar com a camisa do avesso”.Infelizmente esse tipo de ciclo de violência, se tem solução, é algo extremamente complexo; sendo que tudo tende a piorar muito com tal “reforma administrativa” que, como sempre, não mexe no 1% da cúpula, mas fragiliza a grande massa trabalhadora que faz a máquina girar. A estabilidade no serviço público existe porque quem pensou no sistema sabia que, de ciclo em ciclo, o jogo muda, quem está por cima muda, mas a máquina tem que andar independente disso.Vale ressaltar que esse tipo de situação é séria, extensiva e não se restringe as relações trabalhistas “normais”, vide o exemplo a seguir.
Katia Rubio/Folha de S. Paulo 05/06/21
Katia Rubio/Folha de S. Paulo 05/06/21
No geral, a regra do mundo foi bem ilustrada por Ricardo Coimbra
Ideias roubadas
Acho que cabe uma explicação, depois da fala da Capitã Cloroquina sobre um pênis inflável na Fiocruz, que muitos atribuíram ao logo da instituição, surgiu uma foto de uma capanha que aconteceu próximo a Fiocruz que, de fato, tinha um pênis inflável. No mais, a frase é da Vera Iaconelli.
Acho que cabe uma explicação, depois da fala da Capitã Cloroquina sobre um pênis inflável na Fiocruz, que muitos atribuíram ao logo da instituição, surgiu uma foto de uma capanha que aconteceu próximo a Fiocruz que, de fato, tinha um pênis inflável. No mais, a frase é da Vera Iaconelli.
Battlestar Galactica
Talvez você nunca tenha ouvido falar dessa série que é uma releitura de uma série antiga que foi feita com sobras e aparas de Star Wars.A série, um sci-fi espacial de baixo orçamento, é bem legal, eu assisti duas vezes, mesmo não sendo fã do gênero.Mas o que importa para o momento é que na história, os planetas habitados por humanos foram destruídos pelos robôs (Cylons) e só sobreviveram as naves que estavam no espaço, ou seja, muitos militares e um punhado de civis em trânsito de um planeta para o outro.
A partir disso estabelece-se um governo provisório e, em dado momento, a nova presidente pede para o chefe das forças armadas que os soldados dele façam o policiamento das naves e ele responde:“Existe uma razão para separar os militares e a polícia. Um luta contra os inimigos do estado, o outro serve e protege a população. Quando os militares se tornam os dois, os inimigos do estado tendem a se tornar a população.
Seria muito bom que nossos militares pensassem como o comandante Adama. Infelizmente o que temos é outra história.
Jânio de Freitas/Folha de S. Paulo 06/06/21
Jânio de Freitas/Folha de S. Paulo 06/06/21
Hélio chwartsman/Folha de S. Paulo 05/06/21
Hélio chwartsman/Folha de S. Paulo 05/06/21
Junta-se isso com um líder que, nas palavras de Cintra em uma matéria extensa da Piauí sobre Paulo Guedes, não faz o seu papel.
Ana Clara Costa/Pauí
Ana Clara Costa/Pauí
E chegamos nessa distopia maluca em que vivemos. É interessante que na série o que era ficção eram as naves e os robôs, contudo, isso está cada vez mais perto de ser algo bem crível, ao passo que militares humanistas como o Adama parecem algo bem pouco realista.
Pintores
E como no Brasil do pós apocalipse militar só passa cultura de alta patente vou falar de John Singer Sargent.Eu sou devoto de Sargent e já fiz um vídeo sobre ele.
Conheça o pintor John Singer Sargent (1856/1925)
Esse é um vídeo antigo e eu falo principalmente do trabalho dele como retratista em óleo. Então quero dedicar esse momento para tratar das paisagens em aquarela do Sargent que muitas vezes não são tão lembradas. Vale sempre ressaltar que aquarela era considerada uma tinta auxiliar, de estudo, ou seja, comercialmente inferior, então o próprio Sargent nunca se dedicou a vender as aquarelas que fazia.
Sargent produziu mais de 2000 aquarelas e ele trabalhava com uma paleta reduzida em que predominavam Alizarin Carmine, Brown Pink, Burnt Sienna, Cadmium Yellow Pale, Chrome Yellow, Cobalt Blue, Gamboge, Lamp Black, Rose Madder, Ultramarine Blue (na época era lápis-lazúli), Vandyke Brown, Scarlet Vermillion, Deep Vermillion, Viridian e branco opaco.
Uma coisa que chama atenção nessa pintura é a quantidade de texturas que ele representa, tem a água, é claro, que é uma obsessão dos aquarelistas que ele resolve de um jeito muito elegante, com pinceladas grossas e poucas cores; as estátuas e a fonte, bem detalhada, sem pinceladas muito marcadas e as manchas formando planos sólidos e o fundo que é praticamente apenas sugerido com pouquíssima definição. Além disso tem uma característica peculiar do Sargent que é o uso de pigmentos opacos, algo que muita gente considera que não é um trabalho “puro” de aquarela, mas, quando bem usado, como na água que jorra ou no reflexo nos recortes da base da estátua fazem com esses elementos se projetem, aumentando a ilusão de tridimensionalidade. Uma última questão importante de falar é que em vários trechos (principalmente da fonte e das estátuas) você consegue ver a linha do desenho do Sargent. Muita gente se preocupa com fazer as linhas do desenho desaparecerem (algo difícil diante da transparência da aquarela), mas o Sargent nos mostra que isso é algo que não estraga a experiência de quem olha a obra.
Eu acho fantástica essa pintura desse detalhe arquitetônico porque você tem um domínio de cores quentes, inclusive as sombras (apesar de ser possível notar pigmentos frios nelas) tendem para o quente.
Eu separei essa cena da água para mostrar o trabalho de pinceladas bem marcadas do Sargent. Ele mostrava o lado impressionista dele bem mais nas aquarelas do que nas pinturas a óleo.
Eu escolhi essa pintura porque você pode ver como a maior parte da imagem praticamente não tem definição, são manchas que funcionam graficamente para montar o ambiente na sua cabeça, mas o foco da atenção esse miolinho onde está o portão é a única área que tem uma definição maior e essa pequena área é o que faz a pintura como um todo funcionar.
Essa pintura não tem nada de muito especial além do uso do branco opaco no meio da folhagem para criar uma cena, mas trouxe ela porque a temática e o estilo me lembraram muito o Cárcamo. Ele é um professor incrível de aquarela, antes da pandemia os cursos dele eram super disputados, talvez agora que ele esteja dando aula online seja um pouco mais fácil de conseguir uma vaga. Independente disso, eu, que já estudei com ele, garanto que é uma experiência única que vale muito a pena e, se você quer aprender aquarela, é melhor aprender logo com o melhor na área.
P.S. 1
Saiu um livro novo e essencial da Laerte compilando as tiras após uma guinada na carreira da artista. Não vi o livro ainda, mas por tudo que acompanhei das tiras publicadas, tenho certeza que é excelente. Dá para comprar aqui.Laerte também lançou um site em que vende impressões de tirinhas selecionadas. Vale a pena conhecer.
P.S. 2
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