Caderno de Recortes #45 – supermercados/Antoon van Dyck

E aí pessoal, como estamos? Semana passada resolvi não mandar nenhuma edição. O acúmulo de feriados afasta os leitores (aliás, se você perdeu alguma edição da newsletter pode ler e compartilhar aqui ) e confesso que quis esperar uns dias para ver os desdobramentos do indulto que o presidente concedeu para o deputado condenado.
É triste ver que o único resultado de mais esse ato de estrangulamento das “instituições” gerou dúzias de artigos, mas não provocou nenhuma reação real dos supostos mecanismos que sustentam o nosso delírio coletivo de democracia. O deputado segue aí, como exemplo de que o crime compensa se você for amigo das pessoas certas (não só do presidente, mas também da Câmara que o recebeu com braços e cargos abertos).Sim, Silveirinha é um inútil, um ser que não seria nem uma nota de rodapé na história, mas, agora, serve como um exemplo para todos: qualquer crime em defesa do presidente atual será perdoado.
O caminho daqui para frente é sombrio, mas, ironicamente, está cada vez mais claro.
Ideias roubadas
Silvio Almeida - FSP 29/04/22
Silvio Almeida – FSP 29/04/22
A conta não fecha
FSP 29/05/22FSP 29/05/22
FSP 18/05/22FSP 18/05/22
Infelizmente não trago novidades, só uma matemática sinistra que tem um resultado bem direto.
FSP 17.abr.2022
FSP 17.abr.2022
Enquanto isso, nas prateleiras
É interessante que a solução apresentada para problemas complexos como a fome nunca é o aumento da renda ou uma rede produtiva mais justa e humana.
Se os grandes mercados estão perdendo dinheiro porque o consumidor não tem mais condições de fazer compras básicas e os estoques estão vencendo, única solução que surge na sala de gestão de crise é: liberem a venda de alimentos vencidos, assim podemos faturar com quem está no desespero.
FSP 28.abr.2022FSP 28.abr.2022
Agora eu gostaria de chamar a atenção para a crueldade explícita nessa fala de Marcio Milan (vice-presidente da Apas) na mesma matéria.
FSP 28.abr.2022
FSP 28.abr.2022
Vamos esclarecer o que temos aí. Pela lei federal 9.249/95, as empresas que executarem doações a entidades que atendam critérios determinados podem abater o valor dessa doação do Imposto de Renda até um limite de 2%.Assim, o que alguns dos grandes mercados fazem é projetar o valor de IRPJ que pagariam, definir o 2%, separar esse valor em mercadorias com defeito e/ou “vencidinhos” e “”“doar”“”“.
O termo doar aí está com seu significado esticado ao máximo porque cada item é faturado pelo valor original, é emitido uma nota e o valor dessa nota retorna para os cofres da empresa no momento em que ela não tem que pagar aquele valor (cabe uma explicação aqui que essa artimanha só se aplica a empresas grandes o suficiente para se enquadrarem no regime do IR, não o mercadinho do bairro que paga seu imposto pelo SIMPLES). Além disso, a depender de cada estado, há diversos outros benefícios fiscais.
Até aí é o jogo, certo?
Mas voltemos para a frase do nosso amigo Marcio agora escrevendo o que ele quis dizer de fato nessa simulação de citação mais realista:

Se o governo aumentasse para 5% a dedução, pegaríamos mais mercadorias que ninguém quer/pode comprar e venderíamos para o governo pelo preço de tabela. Assim, recebemos todo esse dinheiro ao pagar menos imposto e podemos tirar uma foto do dono do supermercado entregando um caminhão de produtos que seriam inúteis para o mercado.

É uma situação de “ganha/ganha” para a empresa. O mercado recebe o dinheiro pela mercadoria que seria perdida e tem uma publicidade gratuita.
O que esse queridão não fala é que mesmo sem a dedução eles poderia doar o quanto quisessem, só que nesse caso seria doação de verdade, né, Marcio? Aí sem chance.
Nosso amigo Marcio
Um parênteses aqui. Fui ver quem é Marcio Milan e me deparei com essa informação no Linkedin
Ou seja: entusiasta de mercados que não gastem dinheiro com trabalhadores.
E, por fim, em um ato falho, em vez de dizer que combate trabalho análogo a escravidão, Marcio só combate o trabalho mesmo.Parabéns Marcio.
Oxê
Antes de encerrar. Ainda no tema mercados, o site joio e o trigo fez uma matéria sobre a expansão do OXXO com uma reflexão muito interessante de como a oferta excessiva de alimentos ultraprocessados influencia o consumo de uma região.
Pintores
Seguimos então com Antoon van Dyck
Esse é um daqueles quadros que ajudam a entender porque batizaram esse marrom que predomina no cenário da pintura de Van Dyck Brown.
Eu gosto bastante desse retrato. Tem a questão do efeito metálico na armadura que chama muito a atenção, mas tem também esse olhar intenso e a mão exposta sem luva apoiada em um varão que não tem contexto algum a não ser servir de apoio para o modelo posar para o pintor.
É muito legal que estudos e esboços como esses tenham sobrevivido, dá para ter uma noção de como o artista pensava o desenho dele.
Esse é um quadro muito curioso para a época porque tem um lado conceitual de retratar a mesma pessoa em três posições com três figurinos. Tem uma cara de um exercício de pintura que foi levado bem até o final.
P.S.
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