Caderno de Recortes #47 – Jair Bolsonaro/Paul Dmoch

E aí pessoal? Como estão?
Por enquanto eu sigo ilustrando as nossas newsletters com alguns estudos em aquarela. Essas pinturas tem alguma relação com o tema? Não. No geral são fotos que eu encontrei, gostei por algum motivo (normalmente a luz) e que eu tento fazer um estudo para aprender alguma coisa sobre desenho e pintura.
Espero que não se importem de compartilhar essas imagens aleatórias com vocês.
Ideias roubadas
Vera Iaconelli 02/05/22Vera Iaconelli 02/05/22
Jair Bolsonaro
Falta um pouco menos de 170 dias para o segundo turno da eleição e um pouco mais de 230 dias para a posse de um novo presidente ou a recondução de Jair Bolsonaro.
É pouco tempo, mas é quase insuportável.
Eu confesso que acreditava que Bolsonaro poderia não ser tão ruim assim. Não porque ele teria qualquer qualidade, mas porque as famosas “Instituições” e o corpo técnico fixo do governo bastariam para conter algo muito fora do normal.
A verdade lamentável é que essa ilusão “menos pior” só aconteceria se Bolsonaro tivesse morrido na facada e fosse eleito o corpo empalhado dele.
Bolsonaro por ação, omissão e “aura” nunca sairá do hall de piores presidentes da história do Brasil.
As ações e omissões acho que já estão mais do que documentadas e evidenciadas, mas eu quero me atentar ao clima de destruição psicossocial que se formou.
Na semana passada falei sobre a “Crise de ¼ de vida” e meu querido amigo Ricardo Malta lembrou dessa música dos anos 70.
Talvez seja fácil colher evidências de que essa crise de transição entre a juventude e a vida adulta esteja presente desde muito antes de alguém pensar sobre como seria a geração dos “millenials”, mas no passado recente não era dada a devida atenção para os sofrimentos psicológicos, muitas vezes por ignorância científica mesmo.
Hoje vivemos em uma era muito desperta para esses problemas. Não dá para ser simplista e dizer apenas que somos mais sensíveis, “de pele mais fina”. É mais fácil falar sobre os problemas quando eles tem nomes, é mais fácil identificá-los quando alguém faz uma pesquisa ampla e consegue definir padrões do que seria, por exemplo, um “burnout” e como ele se diferencia de outras situações pontuais ou crônicas.
E é justamente por causa dessa capacidade social de reconhecer o sofrimento psíquico e de descrevê-lo tanto de forma científica quanto poética (em filmes, livros, músicas, HQs, etc) que Jair Bolsonaro se tornou tão mais destrutivo.
Quantos artigos foram escritos nas últimas semanas dizendo que Bolsonaro dará um golpe? Quantos especialistas já detalharam todos os passos, caminhos e repercussões possíveis para esse desdobramento crítico?
O medo do golpe se tornou conversa na fila da padaria em alguns lugares. E essa é só uma das palavras que saíram da caixa, sacudiram a poeira e estão aí tomando sol.
O nazismo e o fascismo, por exemplo, por mais que a indústria cultural tenha se esforçado por caricaturizar essas doutrinas como o auge da vilania, voltamos a usar esses termos no varejo e algumas pessoas começaram a olhar para isso e pensar: “olha, não é uma ideia tão ruim assim”.
O “efeito Bolsonaro” corroeu a oposição ao fazê-la se autoinfantilizar e se autorridicularizar. Não se pronuncia o nome Jair Bolsonaro, como se ele fosse um vilão de Harry Potter. Ele é sempre tratado por apelidos bobos, o que no fim até suaviza a imagem dele e mantém uma ideia de temor diante do nome real dessa família. Passa-se horas falando sobre mamadeira de piroca, vacina com chip e terra plana. Desgasta-se criando memes e frases de efeito “porque é assim que funciona a guerra hoje”.
Em outro front, bem mais importante, as discussões sérias sobre o futuro que queremos como sociedade são deixadas de lado. Se é feito uma crítica ao Lula por não estar abordando essa ou aquela causa, uma horda corre lá para desmerecer quem fez a crítica, valem-se a alegação de que ‘agora não é hora para isso”, “agora é hora de tirar Bolsonaro”.
Na verdade, essa é hora que mais temos que falar de aborto, de inclusão social, da juventude negra, das causas identitárias, de tudo, até porque, se tudo der errado como em alguns prognósticos, talvez tenha sido a última chance de fazer um debate sério e as claras sobre questões que importam tanto quanto todas as outras. E não, a pessoa que está dizendo que o Lula não abarcou essa ou aquela pauta não está “dando munição ao inimigo” porque, sejamos sinceros, no fim do dia, ninguém das pautas identitárias vai deixar de votar no Lula porque o vice não é negro, trans e/ou mulher periférica, assim como não será por essas causas que o pessoal do lavajatismo vai correr de volta para os braços do Bolsonaro.
É preciso retomar o domínio da nossa sanidade e debater sobre tudo com todos. No fim certo tá um pessoal como o Paulo Galo, que tá indo de porta em porta falar sobre a causa dele.
Pode ser que Bolsonaro ganhe a eleição, pode ser que ele ganhe no tapetão, pode acontecer até de alguém matar o Lula daqui até lá. Tudo isso é importante, mas não é mais importante do que fazer todo esforço possível para conter a deterioração do discurso, para conter o derretimento mental da parcela não reacionária da população.
Por fim, é preciso lembrar que Bolsonaro não chegou até lá porque incitava o racismo, a homofobia, a destruição total do estado, e sim porque em um dado momento crítico houve pessoas o suficiente considerando tudo isso muito bom e aceitável e esse grupo se viu bem representado ali. Para esse pessoal, Bolsonaro não veio para liberar tudo isso, ele é uma mera representação de que a maioria do país concordou que o atraso e o retrocesso parecia aceitável. E, pelas pesquisas, uma parcela considerável da população segue pensando dessa forma. É preciso ver além para enxergar o mundo real e é preciso torcer para que Lula e os militantes do progressismo percorram as ruas no varejo para conversar e entender justamente quem não quer votar nele. Quem fica dentro da bolha só fala sozinho e perde a noção do que está rolando no mundo real.
@Arthur.Rambo – Ódio nas redes
Aliás, sobre essa confusão de sentimentos, esse amálgama de ódio e tentativa de ter uma conexão com o mundo, está no cinema @Arthur.Rambo. Um filme curtinho (amo filmes e livros curtinhos) que tem muitas conexões com a nossa realidade atual. Pela sinopse parece um filme sobre a cultura do cancelamento, em partes é, mas ele avança em uma questão um pouco mais profunda sobre como o discurso de ódio reflete diante de cada público.
Um dos lugares que o filme está passando é o Cine Bijou, uma sala pequenina que reabriu entre os teatros da Praça Roosevelt.
Pintores
Essa semana trouxe umas imagens de Paul Dmoch. Ele é um aquarelista polonês que viveu a maior parte da vida na Bélgica. É um pintor contemporâneo, que, infelizmente, já faleceu. Há poucas informações sobre ele pela internet, mas os quadros que ele deixou ainda circulam por aí.
Um dos elementos clássicos da pintura em aquarela é a representação da água e seus reflexos em diversas formas. É uma ilusão delicada que se constrói com o controle da intensidade das cores. O que me chamou a atenção nessa pintura, na verdade foi esse trecho menos luminoso do canto inferior direito feito com pinceladas secas e longas que dão uma sensação de movimento para a luz que se “estica” pela cena.
Uma das obsessões de Dmoch era a arquitetura. Apesar de todo o cuidado com a precisão, note como o meio da imagem tem uma penumbra leve difusa da luz natural se diluindo na escuridão da câmara da igreja.
Outro elemento central na obra de Dmoch é o alto contrate da luz com a escuridão. Repare como tudo é trabalhado na luz com muita delicadeza e detalhe e há um recorte seco por uma área bem escura e pouco definida que está lá para criar essa sensação de luminosidade em toda a pintura. O branco é o branco do papel, mas, mesmo assim, ele parece de fato um mármore superexposto a luz do sol refletindo esse brilho em que observa a pintura.
Outra imagem arquitetônica bacana que é um exemplo perfeito do que se chama de perspectiva atmosférica. Uma ilusão de profundidade criada pela mudança da intensidade das cores e do nível de definição dos detalhes.
É interessante olhar com atenção essas aquarelas que parecem hiperrealistas e notas como tem várias áreas em que há uma das características marcantes da aquarela que são as manchas difusas em que a tinta pode se expandir com uma aleatoriedade controlada.
P.S.
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