Caderno de recortes #5

Caderno de Recortes do Diletante Profissional
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QUINHENTOS MIL MORTOS
Ideias roubadas
Frase de Vera Iaconelli
Frase de Vera Iaconelli
Por que não me ufano
Algo que me chama atenção ao ler um jornal é o conjunto de visões distintas. A mesma Folha de S. Paulo que foi celebrada por não ignorar as manifestações de maio contra o presidente é capaz de abrir um editorial assim:
Editorial da Folha de S. Paulo (12/06/21)
Editorial da Folha de S. Paulo (12/06/21)
Tem várias questões que precisam ser levadas em conta. A “primeira onda” da pandemia, em 2020, matou oficialmente 194.949 pessoas. Quando você ler esse texto, provavelmente já teremos passado dos 500 mil. Ou seja, mais de 300 mil pessoas nesses poucos meses de “segunda onda”. De fato, o impacto econômico foi, em termos, menor. Mesmo com uma média diária de mortes que insiste em rondar 2 mil mortos, cada vez mais pessoas não conseguem mais ficar em casa. As reservas acabaram, financeiras e psicológicas.
Gonzalo Vecina Neto - FSP 14/06/21
Gonzalo Vecina Neto – FSP 14/06/21
Além disso, as pessoas importantes para o mercado fazem questão de calcificar uma imagem de que tudo está bem, que a vida segue normalmente.
Roberto Justus para o Painel S/A da FSP criticando os patrociandores que abriram mão da Cova América
Roberto Justus para o Painel S/A da FSP criticando os patrociandores que abriram mão da Cova América
Vivemos em uma realidade rachada muito insana, porque, apesar da vida real, da pobreza real e das mortes muito reais, tem aqueles que querem dizer que tudo está melhorando, que tudo deve seguir, até porque, quem escreve editorial de jornal e lidera grupos de mídia tende a falar com pessoas para quem o aumento do PIB é tudo que importa.
Felizmente o jornal é um espaço plural e, mesmo que algumas alas dele puxe o discurso para um lado, outras nos trazem para o chão.
Vinicius T. Freire, FSP (13/06/21)
Vinicius T. Freire, FSP (13/06/21)
Silvio Almeida/coluna para Folha de S. Paulo 11/06/21
Silvio Almeida/coluna para Folha de S. Paulo 11/06/21
Ideias roubadas
Frase de Rogério Cezar Cerrqueira Leite
Frase de Rogério Cezar Cerrqueira Leite
Plural
E mesmo com essas contradições, eu sigo lendo quem eu discordo, porque sempre sou a favor do contraditório. Gosto de ouvir quem pensa diferente, entender quem pensa diferente, até mesmo correr o risco de, às vezes, concordar com quem pensa diferente, porque nem tudo tem que ser um kit completo.
E algo que me intriga é essa onda conservadora. Só para ficar na tríplice coroa do conservadorismo, por que um jovem seria contra aborto, liberação de drogas e questões de gênero?
Coluna do Hermano Viana na Folha citando MD Magno 13/06/21
Coluna do Hermano Viana na Folha citando MD Magno 13/06/21
É claro que na vida tudo é regido pelo mercado. Se tem esses interessados em correr para trás a todo custo, tem aqueles dispostos a falar o que essas pessoas querem ouvir, não importa se seja real ou não. Um exemplo foi esse levantamento d´O Globo sobre o valor que alguns canais do youtube rentabilizaram com vídeos que tratavam de mentiras tão flagrantes que a própria plataforma derrubou o material depois de algum tempo.
Note que os valores se tratam apenas dos vídeos derrubados, ou seja, esses canais têm uma audiência e um faturamento considerável propagando, em boa parte do tempo, um discurso de ódio e de racha social.
Natália Portinari/ O Globo 11/06/21
Natália Portinari/ O Globo 11/06/21
Não só isso, apresentadores como o tal Sikêra Jr., sempre associado à polêmicas escabrosas, recebeu oficialmente R$120 mil de cachê por ações publicitárias para o governo.
Ou seja, se a pessoa escolhe esse lado conservador/reacionário, vai encontrar muita gente pronta a ecoar as ideias que ela quer ouvir. O que permite que esse grupo se feche em uma bolha.Agora, mesmo com toda essa questão eu ainda considero que não há como avançar se todo mundo seguir na linha da cisão, cada um trancado no seu mundo tratando o outro como um ser alheio em outro plano. Se você se tranca no seu aquário e decide que aquelas pessoas que foram para um caminho ideológico que você não concorda não podem ser ouvidas como um todo, perde-se mais do que apenas soldados em lados diferentes de uma guerra, perde-se amigos, parentes e, acima de tudo, empobrecemos em ideias. Por que o contraditório não serve apenas para afiar os dentes das suas réplicas. Ele serve para repensarmos nossos próprios conceitos e melhorar, principalmente em questões que são tão alheias a nós que não conseguimos tem compreender.
Guilherme Boulos - FSP 19/04/21
Guilherme Boulos – FSP 19/04/21
Antônio Prata - 13/06/21
Antônio Prata – 13/06/21
Pintores
Esses dias saiu um trailer da nova versão de He-Man que a Netflix lançará em julho.
Uma dos elementos que eu gostei muito no trailer foi a opção por um visual “antiquado”. Hoje em dia as animações tendem ou para um visual bem moderninho estilizado ou um falso retrô, um visual feito para parecer antigo mas com uma dinâmica muito moderna. He-Man pegou um estilo que meio que se perdeu no tempo, focado em um desenho que valoriza a estrutura meio acadêmica de anatomia com uma estilização típica de super-heróis.
Por isso eu lembrei do Frank Frazetta e achei que seria legal falar um pouco dele.
Já tem um vídeo sobre ele no canal que você pode ver aqui
mas eu separei algumas artes bacanas para comentar.
Quando a gente pensa em Frank Frazetta é esse tipo de imagem que vem a mente, uma temática que mistura bárbaros, espaço e mulheres em uma pintura a óleo marcada por tons terrosos.Mas tem mais elementos constantes no trabalho dele que já dá para ver nessa imagem mesmo. Primeiro o enfoque em um desenho que se sustenta por causa de uma anatomia bem detalhada exposta em pose dinâmicas. Aliás, dinâmica é uma palavra chave, porque, se você observa a capa do bárbaro, quase consegue vê-la se movendo.
Uma questão técnica relevante no trabalho do Frazetta é como ele resolve boa parte da pintura de forma muito gestual, com a tinta marcada pela transparência das manchas e escolhe com muita precisão as áreas que quer dar um enfoque as recortando com a luz opaca. Note como o canto inferior direito forma praticamente um triângulo de sombra e pouca definição.
A temática das mulheres nuas são uma presença constante na obra desse artista. É interessante notar como ele é capaz de contorcer os corpos e movimentar os cabelos para criar cenas que não são interessantes por um mero erotismo, mas por uma tridimensionalidade da forma e uma acomodação realista da musculatura.
Essa é outra pintura em que o fundo é quase todo resolvido em manchas bem impressionistas e o trabalho mais detalhado fica apenas na figura que tem que se destacar. É interessante como a pose desse cavalo é dinâmica e distorcida pela perspectiva.
Eu separei essa pintura porque você pode traçar um corte bem nítido acima (com cores mais intensas) e abaixo do degrau (em que os personagens são trabalhados na sombra, com detalhamento de alguns poucas figuras mas deixando sugestionado que há uma infinidade de guerreiros avançando).
Essa última imagem eu separei por trazer a água e um tubarão que são elementos que aparecem poucos nas artes mais famosas do Frazetta. É interessante notar como é possível notar a versatilidade da tinta óleo. O fundo da pintura parece muito com uma aquarela, para fazer isso o artista trabalha com a a tinta bem diluída em solvente obtendo uma característica de transparência e até algumas fusões de manchas, esse mesmo efeito pode ser visto no dorso do tubarão. Ao mesmo tempo que, quando ele constrói a luz na barriga do tubarão, usa a tinta mais densa e deixa marcas quase como se arranhasse a superfície com o pincel.
P.S. 1
A Balão editorial lançou dois livros infantis. Quem apoio no Catarse está recebendo os seus exemplares, mas, quem não apoiou, pode comprar aqui:
Masha e o Urso
Eu posso!
P.S. 2
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