Caderno de Recortes do Diletante Profissional – Edição Nº11

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Olá pessoal, espero que esteja tudo bem com todos.Eu confesso que tentei ver a live do presidente sobre a fraude nas eleições, mas não deu para aguentar muito tempo, de novo ele só faz cortina de fumaça. Mas uma questão que me vem a mente é: por que a proposta é de um sistema complexo e caro que mistura eletrônico + impresso? Não seria mais simples e barato voltar para a cédula de papel? Talvez, mas se fosse só voto de papel, contou acabou, já dois sistemas, quando um não bater com o outro e, dada a proporção do país, nunca irá bater por causa dos erros humanos na contagem, podemos anular a eleição indefinidamente.Enfim, vamos a edição da semana.
Ideias roubadas
Frase de Thiago Amparo
Frase de Thiago Amparo
Parados no tempo
Por bem ou por mal, a principal notícia da semana passada foi a tentativa de incendiar o Borba Gato, uma estátua de São Paulo que homenageia um bandeirante.
Os bandeirantes foram, por muito tempo, o símbolo da persistência e, porque não, do empreendedorismo paulista. Desbravadores que civilizaram o interior do país.Talvez a palavra correta seja exploradores que, enriqueceram as custas da vida de índios e negros.
O Eduardo Bueno, que se especializou em contar a história do Brasil que fica a margem dos livros didáticos, defende que foi queimada a estátua errada, que Borba Gato é de outro momento da história.
Ele se junta ao coro de várias pessoas que defendem que as estátuas de figuras polêmicas sejam mantidas, mesmo que em um tipo de museu da ignorância humana.
Não discordo dessa linha de pensamento. Sou contra a destruição dos bens públicos, por mais que tenham seus problemas históricos e acho que, ao impor a força a destruição de uma estátua, o grupo que realiza esse ato está praticando uma atitude autoritária, muitas vezes irreversível e distante de qualquer espectro democrático civilizado.DITO isso, é preciso olhar o caso por outro ângulo.
A outra grande notícia da semana é que o PP, também conhecido como partido do Paulo Maluf, que se popularizou por ser aliado de todos os governos desde a ditadura até as gestões PTistas e que se orgulhava do bordão “rouba mas faz”, tomou de assalto todas as rédeas do país.
O presidente da Câmara dos deputados, Arthur Lira, do PP, já tinha o comando do legislativo e da coleira no pescoço de Bolsonaro. Agora, Ciro Nogueira assume a Casa Civil, o que quer dizer que, na prática, dita o ritmo de tudo que passa pelo Executivo. O Judiciário, por sua natureza, fica na sua até ser consultado e tem se mostrado bem pacífico diante de todas as ofensas que recebe.Assim, o PP é quem governa o Brasil. Um dos partidos que mais representa o “centrão”, que é o miolo fisiológico de tudo que não presta no legislativo, partidos cuja a única ideologia é o enriquecimento e a perpetuação no poder.
E como chegamos aqui? Foi por que elegemos Bolsonaro?Na verdade não. Bolsonaro é um boneco de posto sem conteúdo que está lá para nos lembrar que o conservadorismo é muito forte no país.
Chegamos aqui porque, enquanto brigamos sobre quem vai ser o presidente, partidos como o PP seguiram se elegendo e se mantiveram com o domínio prático do país.Um domínio que só cresceu porque o presidente é fraco e incompetente.
Mas um domínio que é tão forte que já deixou claro que “a voz das ruas” não tem valor algum.
O que eu quero dizer com tudo isso, é que ficou claro que esse foco que damos no presidente, não garante o país, porque o “centrão”, quando quer, derruba presidente por tecnicalidade ou mantém presidente com ficha criminal e sem apoio popular.
O segredo está em tirar espaço do “centrão” esse grupo que se elege nas franjas da nossa democracia viciada e, para isso, não dá para acreditar que o mero fato de expor os nomes deles, expor os crimes deles, é o suficiente para tirar esse pessoal do páreo. A campanha no legislativo não tem como ser “contra”, porque os alvos são muitos e muito capilarizados, a campanha tem que ser a favor de alguém novo, com ideias novas e, para isso, precisamos criar novas lideranças, de todos os tipos e vindas de todos os lugares.
O desdobramento do caso do Borba Gato foi a prisão do Paulo Lima, o mesmo “Galo” que lidera o grupo “entregadores antifacistas” contra as condições precárias de trabalho dos apps.
O “Galo” pode ou não se candidatar na próxima eleição, mas ele já se consolida como uma liderança, alguém que pode movimentar um segmento da sociedade e ajudar, segurando o fio do tecido democrático que está na mão dele, a mudar um pouco a situação.
Como eu disse, não sou a favor de queimar as estátuas, mas, talvez, neste momento, seja exatamente isso que o país precisa para se reencontrar.
Discalculia
A estatística é uma forma excelente de sintetizar, analisar e comparar elementos diferentes do mundo. O problema é que as pessoas têm cada vez mais dificuldade para compreender textos e concatenações de ideias, imagine uma série de números jogados de forma a servir a interesses bem diferentes da proposta inicial do estatístico que os calculou.
Existe a máxima de que “os números torturados falam o que o torturador quiser”.
Essa semana o presidente deu um exemplo desses:
Muita gente criticou essa conta dizendo que -4+5 deveria ser 1 e não 9 e essa é parte que mais me preocupa nessa história.Primeiro, caso estivéssemos falando de números absolutos, a conta de Bolsonaro está mais correta do que a de quem o atacou.
Isso é o que se chama de módulo, representa-se assim |-4|+|5|=9.
Agora, o que tanto o presidente quanto muitos críticos se esqueceram, talvez de forma intencional, pois a verdade não cabe em um meme contundente, é que estamos falando de porcentagem.
Para simplificar, digamos que em 2019 o Brasil terminou o ano com um PIB de $100. Ao fim de 2020, como o PIB caiu 4% naquele ano, o valor terminou em $96.
Se em 2021 o PIB crescerá 5% quer dizer que ele crescerá 5% a partir do patamar em que estava em 2020, ou seja, os nossos hipotéticos $96.$96×5%=$4,8 assim o PIB ao final de 2021 seria $100,8.
Dessa forma, caso eu quisesse fazer a conta que o presidente sugeriu em que compara o início de 2020 (nossos $100), com o final de 2021 (os $100,8) vemos que, no período, o país teria crescido 0,8%.
É claro que daí teríamos que descontar a inflação estratosférica acumulada além de outros fatores que são bem mais importantes do que o PIB em si. Um país que vive em uma escalada de desigualdade social, não pode se gabar de nenhum outro indicador.
Mas, voltando as estatísticas. A Folha publicou essa informação:
30/07/2021 30/07/2021
Em um primeiro olhar, esses dados parecem incompatíveis, pois, colocados na frase dessa maneira dá a entender que o Datafolha perguntou: na sua casa você cozinha ou pede comida?
É preciso fazer uma conta (87%+52%=139%), mesmo que simples, para entender que o jornalista juntou duas pesquisas não relacionadas e as apresentou como uma estatística só.
Ao ler o texto vemos que se trata de duas análises diferentes, se a pessoa não cozinhava passou a cozinhar em casa e se a pessoa não pedia e passou a pedir comida, sendo que uma atividade não exclui a outra pois não está se falando de uma única fonte de alimentação.
Outra questão que a manchete obscurece é o recorte das pessoas escolhidas para a entrevista. Em um país que a pobreza só aumenta, em que milhares de pessoas vivem em situação de rua, em que a doação de ossos dos açougues é disputada em filas quilométricas, é pouco razoável sugerir que mais da metade da população está usando o delivery de comida como principal fonte de alimentação.
Enfim, estatísticas são essenciais para compreender o mundo, mas só quando tratamos os números com a honestidade que merecem.
Pintores
Outro dia eu fiz uma live no meu canal do youtube, tenho feito algumas eventuais, não aviso ninguém antes porque são meio que uns testes. Mas apareceu algumas pessoas e a gente foi conversando. Perguntei para uns dos presentes alguma referência de pintor que ele gostava e a resposta foi Steve Huston.Não conhecia o trabalho desse artista, é um pintor contemporâneo, dos EUA, que tem um enfoque em pintura figurativa e na figura humana.Eu gostei bastante do trabalho desse artista, então separei algumas imagens para comentar com vocês.
Um das temáticas desse artista é o boxe, mma e outras lutas. Ele tem um interesse em particular pela musculatura das figuras, os corpos em posições de torção e a forma como isso afeta as estruturas deles.É interessante como quase toda a figura está na sombra e ele escolheu um trecho do tórax do lutador para focar a luz e, por consequência a atenção de quem olha o quadro.Isso faz com que o olhar vá direto para esse ponto e, depois, seja conduzido para cima, se prendendo na chave de braço, quase dá para sentir nos nossos próprios músculos a tensão do movimento.
Outra temática desse artista são homens trabalhando (não que os boxeadores lutando também não sejam, em última instância, homens trabalhando).Eu gostei muito das texturas que ele constrói, a pintura tem um pé no impressionismo, com pinceladas bem marcadas, mas os contornos são muito bem definidos pelo contraste das texturas. A parede parece uma parede pintada e os corpos, apesar de serem também algo pintados em uma superfície, parecem estar em outro plano visual com outra textura.
Um elemento que eu gostei muito no trabalho dele são essas pinceladas grossas, com a tinta muito densa. Com isso ele dá muito movimento para a imagem e ajuda a construir o volume da pintura por meio do contrate entre os níveis diferentes de definição das pinceladas.
Essa pintura é interessante porque ela tem um visual quase monocromático. É muito peculiar como o boxe tem uma característica de nobreza e decadência que esse pintor retrata bem. O ambiente sombrio, o cenário escuro e meio sinistro, parece quase um porão, mesmo assim os lutadores estão se esforçando nessa dança violenta.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.Agradeço imensamente quem quiser compartilhar esse email ou divulgar nas redes sociais.
Os links para me encontrar e ler as edições anteriores do caderno de recortes estão aqui https://linktr.ee/diletante No linktr.ee você encontra, também, meu link para amazon, se puder clicar nele antes de fazer suas compras, já me ajuda muito.
Abraços.