Carlos Heitor Cony: meu escritor brasileiro preferido

Eu nem era nascido quando, nos anos 60, Cony já era uma estrela consagrada no panteão da literatura e do jornalismo nacional.

Não sei exatamente quando me apaixonei pelo trabalho dele, mas tudo de novo que eu descobria dele me encantava.



Cony, Moacyr Scliar e Verríssimo formam minha trindade de clássicos modernos nacionais.

Tá tem Machado de Assis e toda aquela turma consagrada, mas esses caras ficaram muito manchados pela prática opressiva das escolas de forçar a ler esse ou aquele título para “passar no vestibular”, meu trauma com Graciliano Ramos vem daí.

Cony, Scliar e Verrísimo são aqueles autores brasileiros que eu escolhi para mim. É claro que o Scliar e o Verríssimo, apesar da grande qualidade, são autores mais “fáceis”. Os caras que te pegam pelo humor, pela sagacidade simples.

Cony é o verdadeiro “autorzão” dessa trindade.

Por muitos anos fui assinante da Folha só para ler as crônicas dele. Não perdia uma.

Cony sempre foi um cronista inteligente e extremamente crítico com todos os governos. Era da natureza dele.

Sua crônica mais emblemática, a que mudou toda a vida dele, O Tijolo de Segurança, foi uma das poucas críticas diretas e públicas contra o Golpe Militar na grande mídia logo após o golpe.

E foi uma crítica totalmente acidental, Cony estava internado quando ocorreu o golpe, escreveu a crítica se baseando no óbvio (o golpe só poderia ser algo ruim) e publicou sem saber que toda a mídia tinha recebido bem os Militares, apenas ele que não.

Isso lhe custou a liberdade, a carreira e causou imensos transtornos ele e a sua família.

O interessante da vertente política do Cony é que ele não era um militante. Cony fazia o papel do jornalista, encontrava um problema e criticava.

Tem uma coletânea fantástica de crônicas dele com charges do Angeli (O Presidente que sabia Javanês) sobre os anos FHC que é um bom exemplo disso.

Mas, o grande mérito dele são os romances.

Ele fez um ou outro romance com um viés político (como o brilhante Pilatos, um romance perfeito sobre o homem comum nos anos da ditadura), alguns com o viés religioso, dado sua passagem como seminarista (o grande destaque aí é o Informação ao Crucificado), mas o forte dele era, como ele mesmo classificava com grande precisão, os romances sobre “os dissabores da classe média”.

Pode parecer algo extremamente leviano, mas o Cony criava como ninguém situações familiares peculiares, trabalhava com sentimentos, memórias e emoções com uma precisão quase poética.

Não sei quantas vezes já recomendei para as pessoas um dos meus livros preferidos dele: A Casa do Poeta Trágico. Um livro que resume com elegância tudo que eu mais gostava no autor. Uma situação simples, sem uma grande trama, mas com uma carga emocional intensa descrita em frases precisas. (pra dar uma ideia, o livro se trata de um casal e, entre outras questões, eles têm um cachorro chamado Segredo, para que dessa forma sempre tenha um segredo entre eles)

Não sei nem o que recomendar dele, leia qualquer coisa, leia Antes o Verão, leia Romance sem Palavras, A Tarde da Sua Ausência (outro que tem umas situações memoráveis, aliás) leia tudo que você achar em sebos, tudo que achar em saldões.

Cony é um bom exemplo de uma questão que me preocupa muito em artistas contemporâneos que eu adoro. Ele sempre foi elogiado pela crítica, os 20 e tantos anos que ele ficou sem escrever foram chamados de “anos perdidos da literatura brasileira”. Foi reconhecido pela Academia Brasileira de Letras. Fez parte do conselho editorial da Folha de S. Paulo por décadas.

Mas, ainda assim, não entrou no panteão dos livros “obrigatórios”. Não figura nas aulas de literatura para o vestibular, que parece ser o tabulador da cultura nacional, e corre o risco de ser esquecido, mesmo com uma obra tão vasta.

O Brasil já tem essa dificuldade com a leitura, os Machados da vida sempre serão lembrados, é claro, cristalizaram nos livros pedagógicos. Aqueles que criaram uma revolução (como os Modernistas), também têm seus espaços garantidos. Os escritores contemporâneos sempre terão seu público momentâneo por falar do seu tempo. Mas, corre um risco grande de autores imensos, com obras vastas e de muita qualidade que retrataram com perfeição seu tempo, desapareçam após a morte da sua geração de leitores porque, apesar de excelentes, não foram revolucionários, porque passaram seu tempo analisando e nos ajudando a compreender a história e não sendo parte de fato dela.

Cony morreu, 91 anos, não dá para pedir muito mais que isso. E sua obra fica pelo menos por um tempo. Então, quem nunca ouviu falar nele, siga o meu conselho, leia o que achar dele. Parta de um ponto e prossiga, você vai descobrir uma obra encantadora.

Compre os livros do Cony na Amazon http://amzn.to/2D2F4BH

Compre os livros do Cony na Cultura http://compre.vc/v2/6b465b4a2