Como é falar o que se pensa em tempos de violência

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Faz um tempo que eu venho pensando umas coisas sobre a vulnerabilidade de quem expõe suas ideias nesse tempo em que até uso de remédio é polarizado com uma paixão nunca vista. Eu elaborei melhor essas ideias nesse vídeo/áudio. então, se quiser pular direto para ele, ok. Se preferir só ler, eu deixei os principais pontos aqui

Hoje a folha divulgou 4 charges suas foram acionadas na justiça por uma associação de policiais.

Os chargistas acionados foram o @LaerteCoutinho1 @joaomontanaro @Benett_ @MORtoonOficial. As charges foram sobre a brutalidade policial em Paraisópolis e a matéria é essa aqui https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/06/por-charges-criticas-entidade-de-pms-interpela-a-folha-e-quatro-cartunistas.shtml

Os 4 chargistas trabalham para um grande jornal, isso lhes dá projeção e uma proteção jurídica, um advogado, que custa bem caro, pode rebater a ação e finalizar o caso na justiça. Mas acaba aí?

Amanhã se um desses quatro forem parados na rua por um policial qual a proteção que eles tem.

Ok a polícia é uma organização acima de qualquer suspeita, mas essa turma de extrema direita que sempre é alvo das charges deles, que volta e meia ameaçam e atacam pessoas por muito menos do que uma charge em um jornal de alta circulação?

Mas, ainda assim, eles tem uma rede de proteção, tem um advogado, tem um jornal que causaria um alvoroço para proteger um dos seus. Agora, o que acontece quando você não é chargista de uma grande mídia?

Aquele artista que publica o material dele nas redes sociais, muitas vezes sem retorno financeiro direto e consegue alguma projeção? Ele tem caixa para ter um advogado protegendo ele? Ele teria uma notícia de primeira página de jornal se fosse agredido na rua? Ameaçado?

Mas charges são coisas inocentes, as pessoas deixam passar, está na categoria da arte, algo tão desprezado nesse país. Então e se essa pessoa é um daqueles que passamos a chamar influenciadores?

Por mais que a vida dos influenciadores pareça sempre magnífica no instagram, por mais que pareça que eles estão vivendo o sonho recebendo para não fazer nada. A realidade não é bem assim. A maioria deles, principalmente os que não tem tino comercial aguçado, não enriquece, no máximo vive uma vida de classe média sustentada por um ativo que pode evaporar a qualquer minuto. A imagem deles.

Essa pessoa não tem uma grana para ter um motorista, um segurança ou um bom advogado de prontidão 24hs. Quando o esquema delas é falar de esportes tudo bem, pelo menos por enquanto. Mas e quando essa pessoa fala da batata mais quente do momento? De política?

A pessoa hoje fala mal do presidente com toda sua fúria, consegue um milhão de likes, mas no dia seguinte tem que ir na padaria, tem que passar em uma viela escura para comprar um sabão em pó. Essa pessoa é conhecida o suficiente para ser um alvo, mas não rentável o suficiente para se blindar.

Eu não tenho respostas, sei que a gente deve falar o que pensa, sei que a gente deve combater o que entende que é errado. Que a gente tem nossas paixões e que tem um prazer e fazer ressoar suas ideias para os outros.

Mas vale a pena? Vale a pena se expor? Correr o risco? Algumas pessoas dizem que é uma obrigação. Se você tem uma agremiação de pessoas que lhe ouve, tem que lutar por isso ou por aquilo. Mas essa pessoa não vai socorrer você quando alguém parar você na rua com sua arma legalizada para dizer para você parar de falar o que ele considera uma merda.

Recentemente teve o lance de um youtuber, um dos primeiros youtubers, aliás, que recebeu uma denúncia de um crime gravíssimo. Não vou entrar no mérito se é verdade ou não, nem o que ele merece ou não por isso. Minha questão é: o cara se tornou um alvo, vivia das suas opiniões e isso o deixa com os flancos abertos.

Não importa se o que foi dito é verdade ou não. As opiniões dele atraíram essa situação e a falta de rede proteção, algo semelhante a que um jogador de futebol tem, que o blinda totalmente do mundo, o deixou na mão.

Como ele segue a vida agora? Sendo ou não verdade, os moradores do prédio do cara podem estar pedindo medidas do síndico. Pessoas na rua podem agir em nome da justiça.

Você vai dizer: ah, mas ele cometeu um crime. Talvez, se for o caso, com qualquer outra pessoa, a denúncia teria sido feita em uma delegação e questão se resolveria na justiça. No caso dele, sendo ou não possível processá-lo, acabou. E ninguém está lá para protegê-lo.

O mundo está cada vez mais perigoso. Temos que ser corajosos, mas também temos que viver. O ideal é que a tal pluralidade de opiniões fosse real. Que a gente pudesse ser livre para falar e que, talvez, aqueles que gostam e falam e escrevem bem, pudessem o fazer sem medo.

Mas em um mundo em que qualquer escorregão, qualquer pequena contradição pode acabar com sua reputação virtual e, quanto maior você for, maior será a perseguição que você vai sofrer, maior será a queda. Será que vale se posicionar?

Infelizmente temos que começar a dar um passo atrás e passar a lutar por coisas mais básicas. Para o entendimento de que a divergência é saudável, que qualquer extremo é um problema, que a violência a exposição pública nunca é o caminho.

A ampliação dos canais, a facilitação para qualquer um poder falar e ser ouvido é uma das maravilhas desse tempo e, ao mesmo tempo, o purismo que se exige de nós, que somos tão contraditórios e a violência sempre aplaudida ao atacar o outro deixa quem se expõe em uma corda bamba sem rede de proteção.