Como ler super-heróis

[Esse texto tem uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/ipDGRehnKI0 ]

Esses dias o Omelete publicou uma matéria gigantesca explicando, da forma mais sucinta possível, tudo que você precisaria saber para entender porque agora, na cronologia oficial da Marvel, o Capitão América sempre foi um agente infiltrado da Hidra (organização fictícia ligada ao nazismo liderada pelo maior rival do herói, o Caveira Vermelha).

Desde que eu comecei a ler matérias sobre quadrinhos, muito se fala sobre a cronologia, algo que é tão precioso para os fãs ao mesmo tempo que é algo que vem matando aos poucos os quadrinhos de super-heróis americanos. Ela fecha o gênero em si mesmo, os fãs envelhecem, morrem e novos leitores não encontram uma abertura para se iniciar.

Muitas tentativas foram sendo feitas ao longo do tempo, como reformulações de personagens ou reinícios de histórias. Algumas delas foram feitas com explicações esdrúxulas, outras  foram boas histórias, mas o fato que é ler uma HQ foi se tornando uma coisa cada vez mais complexa.

Não que é falte informação. Antigamente se você não entendia o que aconteceu com um personagem a única saída era mandar uma carta para editora e torcer para o editor responder sua dúvida na seção de cartas. Hoje a internet facilita tudo, vide essa matéria do Omelete. Se eu quisesse ler a história nova do Capitão, bastaria ler essa matéria do Omelete que estaria pronto.

Mas quando você lê o texto, percebe que o problema é muito mais complexo do que apenas uma cronologia longa. Existe ali uma complexidade editorial desanimadora.

A base para essa nova história do Capitão, que até pode ser muito legal, não estou entrando nesse mérito, vem de uma dezena de títulos diferentes. Você teria que ter lido uma quantidade considerável de revistas que não foram publicadas no espaço de 10 anos, mas, sim no espaço de 1 ou 2 anos no máximo, para entender a história.

Ou seja, não basta mais tirar seu PhD em cronologia, mês a mês, fragmentos de histórias foram espalhados pela centena de revistas que a Marvel despeja nas lojas. Isso força os roteiristas a enfiar nas suas histórias, além da história da revista em si, ligações com a megassaga do momento e força o leitor a ler tudo para entender a megassaga.

Isso já acontecia de tempos em tempos, mas ficou tão frequente e tão complexo, que os super-heróis se tornaram um trem irrefreável em altíssima velocidade e, se você sair dele, nunca mais conseguirá voltar.

Eu sei disso por experiência própria.

Eu sempre adorei super-heróis e sempre quis voltar a ler.

Mas eu queria minhas histórias divertidas, despretensiosas, acima de tudo, eu queria poder pegar um arco do Demolidor ou do Homem-Aranha e ler e entender. Ele até poderia criar em mim o interesse para ler o anterior e de preferência deveria criar em mim o desejo de ler o próximo, mas é isso, uma relação relativamente contida.

Como eu vou ler uma coisa cuja a mera explicação para entendê-la se desdobra em duas duas de revistas, cada uma com seu arco que tem passado e futuro também complexos?

Sabe, não é uma questão de: ah, vão fazer o Capitão da Hidra e depois vão desfazer, que lixo.

Pode sair uma história boa disso, pode sair uma história ótima, mas é algo tão restrito dentro de um contexto tão complexo que não vale a pena.

Justamente em um momento que os heróis estão tão em alta, em que todo filme é um grande sucesso, em que o cinema empolga todo mundo. Justamente nesse momento que deveria ser o auge da era dos quadrinhos, eles se distanciaram tanto do grande público, se distanciaram tanto da realidade e da diversão para as massas, que a conversão de público é nula e o pouco público que se arrisca a buscar uma revista não entende nada do que está acontecendo ali, não entende quem é aquele personagem tão diferente do que ela viu no filme e se desinteressa completamente.

Ah, mas eu queria histórias inteligentes, adultas, complexas que honrem meu fanatismo e que só sejam compreendidas por um seleto grupo de intelectuais que leram tudo.

Tá, mas você tem lembrar que os quadrinhos são um meio de entretenimento em massa e essa é uma característica importante que tem se perdido.

É possível ter histórias mais complexas e mais inteligentes? Sim, o Allan Moore e o Gaiman provaram isso diversas vezes no passado. O Bendis trabalhou de uma forma excelente com um pedaço compacto da Marvel por muito tempo. O Geoff Johns fazia histórias lindas na SJA que, inclusive, honravam a cronologia.

Mas a questão é que a Marvel e a DC têm que perceber que elas devem conquistar o leitor e não prendê-lo. O leitor deve ter a oportunidade de gostar daquele personagem, daquele desenhista e, por vontade própria ler outras coisas. O encontro de super-heróis tem que voltar a ser um grande evento e não uma trivialidade que amarra o leitor.

As séries e os filmes olharam para os quadrinhos e cresceram, agora está na hora dos quadrinhos olharem para as séries e filmes e voltarem a ser acessíveis.

É isso, ou se tornar um conjunto de bizarrices que ninguém mais nem se importará em entender.