Como Temer e os outros políticos roubam 24 anos da vida das pessoas

Na cidade de São Paulo, uma distância de 19 quilômetros separa os moradores que vivem mais daqueles que morrem mais cedo. Quem mora no Jardim Paulista, área nobre da zona sul, vive em média 24 anos a mais que um residente do Jardim Ângela, bairro periférico do extremo da mesma zona sul. Nos Jardins, um paulistano morre, em média, aos 79,4 anos. Já quem mora no Jardim Ângela vive até os 55,7.

A disparidade foi revelada no Mapa da Desigualdade de 2017, estudo da Rede Nossa São Paulo apresentado nesta terça-feira, 24. O levantamento mostra diferenças de acordo com cada distrito da capital entre 38 indicadores.

O “desigualtômetro” tem dados atualizados até 2016 [ou seja, a situação 2017 pode ser até pior]. As taxas foram calculadas a partir de informações econômicas e sociais fornecidas pela Prefeitura e demais órgãos oficiais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A partir delas, a entidade listou os melhores e piores distritos da cidade sob o ponto de vista de saúde, educação, cultura, mobilidade, segurança e habitação.

Juliana Diógenes e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

Essa matéria bem interessante foi explorada e expandida por vários meios de comunicação mas acho que cabe umas análises e extrapolações.

Dizer que um morador do Jardim Ângela, em média, não chega aos 56 anos, não quer dizer que não tenha idosos no bairro, nem que essa é um tipo de idade em que as pessoas começam a cair duras no chão.

O que essa estatística diz é que nas áreas periféricas se tem um número grande de pessoas que morrem muito, mas muito cedo. Chegar aos 50 anos em um bairro desses é um desafio tão grande quanto melhorar de emprego e ter a possibilidade morar em outro bairro.

Quem mora em um bairro afastado como esse, no geral, está lá porque não tem o dinheiro necessário para “morar melhor”. E, pelo mesmo motivo, precisa usar a rede pública de saúde, precisa usar as escolas públicas e todo assistencialismo necessário.

Mas, a saúde é precária, a edução é precária, a segurança é precária e as oportunidades que o mundo lhes oferece são mais precárias ainda.

Assim, nessas regiões você tem uma grande incidência de pessoas morrendo muito cedo, desde a primeira infância, aliás, com uma taxa alta de mortalidade infantil, que ocorre, basicamente, pelo combo saúde precária + alimentação precária.

As crianças que sobrevivem depois têm que passar pela máquina da violência e têm uma grande chance de serem mortos por criminosos ou virarem criminosos e serem mortos pela polícia ou morrer em uma prisão.

Em um bairro nobre, você não só tem uma criminalidade bem mais baixa quanto você têm um número irrisório de pessoas que se encaminham para os crimes violentos, porque as famílias dessas pessoas têm dinheiro o suficiente para isso não se tornar em nenhuma hipótese uma necessidade.

É claro que são nesses bairros que muitas vezes surgem os maiores criminosos do Brasil. Aqueles que nunca pegaram uma arma e nunca estiveram em uma linha de tiro, mas que são justamente os responsáveis por todas aquelas pessoas que morrem tão cedo.

Quando Temer (ou qualquer outro antes e depois dele) liderando sua quadrilha roubam horrores e entopem apartamentos com dinheiro vivo, eles matam diretamente centenas, para não dizer milhares de pessoas.

O dinheiro roubado é exatamente aquele que equiparia melhor os hospitais e salvaria as crianças e impediria que as pessoas morressem de doenças que já deveriam há muito teren sido erradicadas. É exatamente aquele que ofereceria uma escola melhor, uma segurança melhor, uma oportunidade melhor para que a pessoa não tivesse que estar envolvida de alguma forma com o crime, seja o praticando ou como vítima.

Cada real que pessoas como Temer desperdiçam em luxos oficiais ou que roubam mesmo, na cara dura, com as duas mãos é uma pessoa que morre.

Quando eu vi o tal bunker do Geddel uma das coisas que eu pensei era que o Conselho de Medicina deveria fazer um cálculo de quantas vidas seriam salvas com aquele dinheiro e condenar o Geddel e toda a turma não por corrupção, mas por homicídio doloso de todas essas pessoas que não foram salvas, porque, quando eles roubam, eles sabem que estão encurtando a vida de milhares de pessoas.

No fim, como disse Gabriel o Pensador em que Matei o Presidente 2, que ele resgatou em homenagem ao Temer, se todos os corruptos morrerem de repente o Brasil teria dinheiro para resolver muita coisa e essa estatística mudaria totalmente.

Não só a pessoa da periferia viveria mais, a pessoa do bairro rico também viveria mais e é isso que, muitas vezes, o rico não vê.

O problema do Brasil, o tal custo Brasil, não são os impostos, são o fato desse dinheiro não seguir o caminho certo e acabar no bolso de corruptos que, no fim das contas, estão causando a maior chacina da história.

Dai você fala: ah, mas se é difícil viver lá, a pessoa se esforça e trabalha e passa a merecer viver em um lugar melhor.

E entramos com outra questão que é a quase impossibilidade de crescer a partir de um bairro desses.

Óbvio, sempre tem aquele cara muito focado que faz um esforço sobre-humano e que merece ser aplaudido e merece ter suas conquistas, mas, mesmo ele, passou por dificuldades que são totalmente desnecessárias.

Em uma cidade como São Paulo, o preço do ônibus é $3,80. Se você mora em um bairro afastado e pega uma combinação ônibus e metrô paga $6,80. Ou seja, para sair de casa e voltar no fim do dia essa pessoa gasta $13,60, assim, se trabalhar de segunda a sábado ele gasta incríveis $ 353,60 ou seja mais de um terço de um salário mínimo. Se ele mora em uma das cidades adjacentes da Grande São Paulo e usa os ônibus intermunicipais esse valor chega facilmente à $500.

Assim, um empregador tem duas opções: ou opta por não contratar esse funcionário para não ter que bancar um vale-transporte tão alto ou opta por pagar menos, porque ele também tem um limite de quanto pode gastar para sobreviver.

Assim, morar longe e pagar um transporte caro limita totalmente as opções da pessoa. Isso porque estamos falando só na questão do trabalho. Se formos pensar pelo lado do lazer e da cultura a situação fica pior. Qual a possibilidade de uma pessoa que ganha pouco sair em uma folga se, só de por o pé para fora de casa sozinho, ele já gasta $13,60 no transporte? Mesmo um show “gratuito” bancado pelo governo direta ou indiretamente, já tem um preço inicial de $13,60 para essa pessoa.

Esse é um dinheiro que a pessoa certamente não tem e, além de ser excluída de melhores opções de emprego, de viver sob o risco de cortar a mão e morrer jovem porque não tem um atendimento hospitalar mínimo, ela é embrutecida, podada de qualquer opção de diversão.

Ou seja, de um lado temos pessoas como o Temer e todos os presidentes que vieram antes dele que roubam os anos de vida da população. De outro temos pessoas como Dória e todos os prefeitos que vieram antes dele que garantiram que o transporte na cidade seja precário e caríssimo e que nunca se esforçaram que essas áreas da cidade se desenvolvessem, que tivessem emprego e infraestrutura para que a circulação na cidade fosse mais orgânica e não isolada como ilhas de empregos, ilhas de moradia, ilhas de pobreza, ilhas de riqueza, todas cercadas por um mar turbulento.