Como viver de ensinar os outros a viver de…

Acho que não tem nada mais tentador do que seguir os ensinamentos de um guru que parece ter todas as respostas para sua vida.

A gente fala tanto em liberdade, mas, no fundo, quer que alguém diga: vai por esse caminho que é seguro; faz isso que vai dar certo.

A gente não quer viver a incerteza.

A gente quer dar tudo de si, mas quer saber que no final do arco-íris tem um pote de ouro.

E quando surge um guru com uma fala macia e metáforas que sintetizam a vida como: “andar é uma sucessão de quedas interrompidas”

O que a gente mais quer é que esse guru passe uma receita para que tudo fique bem. Para que a gente ande sempre interrompendo as quedas.

Eles sempre são sedutores, envolventes, cheios de ideias destiladas para tocar você nos botões certos.

Eles sempre existiram, estavam por aí guiando vidas em palestras caras, em cursos de motivação corporativa, em novas filosofias de vida, dentro de religiões e por aí vai.

E se tem uma coisa que internet serviu foi para multiplicar esses gurus.

Com a internet, eles não precisam mais ser abrangentes, não precisam ter um discurso que salva a vida de qualquer um (apesar de que todos os discursos desse tipo são tão genéricos que servem para qualquer coisa).

Agora você pode ser um guru de um nicho.

Você pode ensinar como viver de blog, como viver de arte, como viver handspinner, como viver de youtube e, o tipo mais popular e predominante, como ser empreendedor.

Sempre que eu vejo essas pessoas a primeira coisa que eu tento entender é: essa pessoa realmente vive disso que ela quer convencer que você pode viver?

Eu sei que não é necessário, que têm professores perfeitos que nunca foram capazes de atuar de verdade na área que ensinam, mas que possuem um conhecimento profundo. Mas se esses professores querem ensinar uma técnica específica que dominam porque se dedicaram a estudá-la tudo bem. Se esse professor deixa claro sua ignorância em relação ao mercado e seu domínio naquele ponto específico, tudo bem.

Agora, a pessoa que vive de passar a receita para você viver daquilo que ela não vive, é no mínimo estranho, não?

Pensemos no caso da arte, por exemplo.

Eu sou um diletante no desenho e na pintura. Eu gosto muito de pintar mas não tenho pretensões de viver disso, nenhuma mesmo. Quero ficar bom para um crescimento pessoal.

Mas eu acho curioso quando alguém se apresenta como “coaching” (o bom e velho guru com uma roupagem mais modernet) que vai ensinar outrem a viver de arte. Daí você tenta achar o trabalho artístico dessa pessoa e ele é inexistente.

A pessoa diz ter uma receita perfeita para que você viva de arte. Diz que ama a arte. MAS ELA NÃO VIVE DE ARTE!

Ou melhor, vive da arte de enganar outras pessoas.

O mesmo vale para o empreendedor que não conseguiu sobreviver empreendendo na área que conhecia e decidiu que um bom caminho era pegar tudo que aprendeu e, em vez de ganhar muito dinheiro como empreendedor com sua receita de sucesso, vai ensinar outras pessoas a ganhar o dinheiro que ele não foi capaz.

Não que eu ache que dinheiro é a melhor coisa da vida, mas não tem como não falar disso, porque é a métrica desses gurus.

Se você filtrar todos os ensinamentos de todos os tipos de guru de qualquer área vai ver que tirando todas as palavras bonitas, tirando todas as metáforas, parábolas, hipérboles, floreios e elipses, no fundo sobra o mesmo conjuntinho de regras:

estabeleça metas (curtas e longas)

seja organizado

tenha uma rotina

trabalhe e estude até desmaiar

E algumas variações disso que se transformam em uma infinidade de regras.

Eu sou a pessoa que mais defende que a gente tem que aprender com um professor, mas eu me refiro a um ofício. Você tem que aprender a arte que você quer aprender com um professor daquela arte. Eu gosto das pessoas que têm de fato vocação para ensinar e que mesmo estando bem no seu trabalho reserve um tempo para ensinar porque querem e não porque precisam para sobreviver.

Agora, se você tem uma dificuldade para se organizar ou para viver consigo mesmo e entra em pânico diante das perspectivas de futuro, você provavelmente não precisa de um guru que te reforce algum auto-engano, você talvez precise de um terapeuta, um profissional da saúde qualificado de fato para investigar se você tem algum problema e ajudar você a organizar sua vida como um todo.

Aliás esse é um outro ponto que me incomoda com esses gurus. Como uma pessoa que já passou por muita terapia, sempre defendo o trabalho dos terapeutas de verdade e percebo que muitas vezes esse caminho do “coaching” é muito próximo de um trabalho terapêutico sendo feito por um profissional não qualificado para isso.

Chega a ser perigoso um advogado ou engenheiro que pega uma pessoa fragilizada e tenta pilotar a vida dela.

Esses gurus não só não estão preparados para lidar de verdade com pessoas fragilizadas, eles estão focados em orientar essa fragilidade em uma única direção que pode ser muito destrutiva para algumas pessoas.

Você pode dizer: mas essas regras valem para tudo, se organizar, ter objetivos sempre é um caminho válido e que palavras de incentivo sempre são boas.

Sim, essas regras práticas, trabalhar muito e estudar muito sempre são o caminho para tudo, MAS, a mensagem sedutora de que se você fizer isso vai dar certo, é muito perigosa.

Um guru pode de fato ajudar uma pessoa que já está no caminho certo, que já está propensa a fazer isso ou aquilo e o guru só dá um empurrão e essa pessoa vira um “case” de sucesso.

Mas, ele pode conduzir a pessoa para um caminho muito sombrio. A ideia de que basta trabalhar que você vai conseguir os seus objetivos é muito sedutora, mas nem sempre é o que acontece, porque o mundo não é lógico. Daí você trabalhou pra caralho, tem um trabalho tecnicamente perfeito que você alcançou depois de muito esforço e, ainda assim, você não consegue viver como aquele cara disse que você conseguiria.

E você olha para as redes sociais e vê pessoas “piores” que você na sua área postando que estão tendo sucesso (algo que pode tanto ser verdade como pode não ser).

Isso cria frustração e uma série de sentimentos destrutivos porque você nunca percebeu que aquele cara que você pagou uma grana para ele cagar uma série de regras, na verdade, não vive do que você está tentando viver, vive de cagar regra.

Não quero dizer que todo guru é enganador, em todas as áreas tem os bons e maus profissionais. Mas quando chegamos em um ponto que existem gurus de gurus, que ensinam as pessoas a viver como gurus que vão ensinar outras pessoas a viver de alguma coisa… tudo começa a ficar mais nebuloso.

O guru pode dizer que é uma ciência aquilo que ele faz, que ele estudou muito para chegar naqueles conhecimentos e isso pode ser verdade e ele pode fazer mais bem do que mal na hora de equilibrar a balança.

O que eu quero dizer aqui não é para ignorar todo e qualquer guru.

Muitas dessas regras que os caras soltam funcionam mesmo.

O importante é ter censo crítico para avaliar o que o guru está falando. Ter senso crítico para perceber se você está em um estado de fragilidade no qual pode ser iludido. Porque esses caras são muito sedutores mesmo e são capazes de fazer uma verdadeira lavagem cerebral.

Por isso é importante ouvir amigos e familiares se dizem que você passou do ponto, porque eu acho algo muito, mas muito arriscado mesmo, seguir cegamente um guru sob o risco de entrar em uma paranoia forte e um caminho muito destrutivo que pode afastar você de pessoas que realmente conhece você e sabem o que você está passando.