Crítica da razão escandalosa

grito

Adoro a argumentação pelo exagero. Gosto dos gritos inflamados, dos números inchados, das hipérboles. Gosto de quem transforma o micro em macro, da lupa que amplia tanto um detalhe que torna irrelevante o todo.

Adoro esse novo mundo em que vivemos, esse que começou tímido em 2012, com pequenas rachaduras que viraram uma fenda tão grande, mas tão grande, que a pessoa do lado de cá é obrigada a gritar para a pessoa do lado de lá ouvir.

Foda-se a sutileza. Tira-se a luvas, assume-se a crueza.

Não importa o motivo, não importa o tema, se faltar a gente inventa, mas tem que ter dois lados, só dois porque três é bagunça. Sem muro porque vivemos um mundo livre, ou você está de um lado ou do outro, você é livre para decidir, livre para exercer sua escolha obrigatória, a liberdade absoluta de não procurar uma alternativa além das que já foram estabelecidas.

O novo crítico do mundo, transmitindo diretamente da sala de estar para o youtube, não precisa de microfone porque só se discursa gritando e os gritos são tão lindos que qualquer câmera simples, mesmo longe os captam.

É o fim dessa bobagem de conversa, de diálogo, de livre troca de ideias. Chegamos na era dos monólogos, cada um apresenta o seu, cada um despeja suas ideias e dá um tempo para o outro despejar e volta para algo que não é uma réplica, pois para replicar seria necessário ouvir o outro e nada é mais desnecessário que ouvir outro.

Estamos em um mundo que a coerência não faz mais sentido. Quer algo mais lindo que discursar pela liberdade de expressão. Falar com todas as letras do direito desse ou daquele de poder dizer o que quiser para quem quiser. Falar isso com toda a vontade, todo o gosto porque o direito a liberdade de expressão é supremo nesse mundo de discursos. Então cala a sua boca, engole a sua opinião de merda porque está rolando um luta por você, pelo seu direito de falar qualquer coisa que não seja dita agora, nem que seja contrária.

Mas na prática isso mesmo não importa. O direito de expressão já está sedimentado, porque todos somos finalmente grandes transmissores, grandes transmissores livres em um mundo que não sobrou ninguém disposto a ouvir.

Estamos todos gritando sozinhos para defender um mundo, um mundo que não olhamos mais, não cuidamos mais, que talvez já tenha ruído enquanto estamos fazendo tanto ruído.

 


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