Depressão e a crise do 1/X de vida

A data original desse texto é de 16/11/2015, mas foi atualizada para incluir o vídeo e áudio

Um tempo atrás eu criei um blog chamado Como Viver quando se é Infeliz para postar umas pinturas com frases mal-humoradas, uma espécie de antimeme. Eu desisti desse blog porque, assim como a versão anterior do Diletante, o achava limitado pela má organização.

Quando eu criei esse novo blog, eu agrupei todas essas ilustrações na seção Como Viver que se tornou minha seção “artística”, com contos, crônicas, HQs e ilustrações.

Mas voltando ao Infeliz que sumiu do nome.



Um tempo atrás, muito antes do blog, eu fui diagnosticado com depressão, fiquei um tempo mal, tomei antidepressivos variados (o último se chamava topiramato), fiz terapia, me afastei do serviço, enfim, tudo o que acompanha a doença.

Na época eu escrevi uma espécie de carta aberta aos meus amigos e a quem lia o site que eu tinha e as resenhas que publicava no UHQ. Os amigos mais próximos sabiam, mas foi interessante escrever e expressar de forma clara o que se passava e como era complicado tudo aquilo (quem tiver interesse o texto ainda está no ar aqui).

Hoje eu acho que estou melhor, não tomo remédios, sou produtivo e faço tudo que quero. Ainda vou na terapia para resolver uma série de coisas, mas não porque estou deprimido.

Quando criei o Como Viver quando se é Infeliz tudo estava bem na minha vida. Tinha feito um curso de pintura que eu adorei, tinha vontade de tudo, estava tudo certo, mas, ainda assim, eu não me sentia feliz.

Pode ser que aí entre em uma seara meio existencialista, filosófica e tudo mais, não quero definir felicidade, então vamos simplesmente limitá-la como algo que ou a gente sente que tem ou não. Lembrando que nossa percepção nos engana a todo momento e talvez tudo esteja lá para sermos felizes, mas não reconhecemos.

Não diria que nesse momento estava voltando para a depressão, acho que não era nem de longe a mesma coisa. Mas eu começava a perder o ritmo, a descompassar.

E é curioso como às vezes as pessoas não tem noção do quanto nos ajudam, porque para ser claro o suficiente você teria que contar toda uma história, mas um amigo muito querido me passou alguns serviços (que na prática eu não precisava) para ajudá-lo em um sufoco momentâneo. E, naquele momento, isso foi curiosamente tão importante para mim que é difícil calcular.

Não era uma questão financeira, era uma questão se sentir útil. Era uma questão de poder fazer algo que me parecesse interessante, algo que tivesse um prazo, uma meta, um ritmo acelerado e, é claro, um pagamento no final – de novo, não por causa de falta de dinheiro, mas porque o dinheiro simboliza um “valor”, uma real utilidade para aquilo que estava sendo feito.

Em todos esses anos o que eu percebi é que funciono muito pela inércia e pela ligação com outras pessoas. Preciso estar em movimento, preciso estar relacionado com outras pessoas. No momento meu movimento é esse blog e as outras pessoas são vocês que leem e o Lielson Zeni que está me ajudando a ocupar meu tempo desenhando uma HQ que ele escreveu pra mim (com sorte terão outras e eu continuarei no pique).

No momento escrever crônicas sinceras é algo que me faz sentir bem.

Precisei de muito tempo e muita experimentação para descobrir o que funciona para mim porque a jornada de cada um é diferente.

A internet e figuras públicas ventilaram a depressão de todas as formas possíveis, uma delas é esse vídeo que tem no fim do post comparando a depressão a um cachorro preto.

Outra são os infinitos textos sobre as “crises”. Antigamente só existia a crise de meia-idade (teoricamente por volta dos 50 anos). Hoje tem a crise de 1/4 de vida aos 25 e não estranharia em nada nada se alguém surgisse com a crise de 1/3 de vida (aos 33 anos porque é “a idade de Cristo”).

Eu não acho que as “crises” são coisas tão padronizadas assim, na verdade acho que todo mundo em um ou mais momentos da vida tem “crises” e elas ocasionalmente caem em uma dessas faixas e as pessoas começam a falar, debater e identificar essas questões entre si. O que é algo muito importante e pode ser muito útil.

Independente de qualquer coisa, não existe nada pior do que perder o gosto pela vida e, principalmente, perder o gosto por aquilo que sempre se teve alguma paixão.

E isso acontece, e não há nada errado nisso. Não há vergonha em se falar sobre isso – apesar de ser algo infinitamente difícil de fazer.

Uma das coisas que eu aprendi é que sempre que a gente se afasta de alguma coisa, a parte mais difícil é voltar. O interessante é que essa dificuldade que é esmagadora para quem se afastou, muitas vezes não existe na outra ponta e as pessoas estão prontas para lhe receber de volta.

A outra coisa é que, no geral, o ambiente, as pessoas e tudo a sua volta não muda. Então ou você muda a sua percepção e aprende “Como Viver”, ou muda sua vida radicalmente e troca de ambiente e tudo que lhe incomoda para tentar algo diferente.

Nenhuma dessas coisas é fácil. Nada nunca é fácil. Nunca é só tentar, nunca é simplesmente fazer o que você sabe que é melhor. Mas a gente tem que se esforçar, tem que tentar qualquer coisa que for possível, para, no mínimo, encontrar um equilíbrio que nos coloque de volta no ritmo certo.

P.S.: Gostaria de convidar todos que leram o texto até aqui e se identificaram em algum nível a compartilhar sua história nos comentários, pode ser de forma anônima, com pseudônimo.

blackdog001
Gouache em papel canson

 

versão em áudio e vídeo