Desenhando com o lado direito do cérebro 2 – Espaço negativo/Composição

[Veja a playlist de vídeos com os exercícios do livro https://www.youtube.com/playlist?list=PLf2cO1HvlOe7mdti23nBqAKQAurwNJUQ_ ]


 

No começo do ano iniciei uma série analisando o livro Desenhando com o lado direito do cérebro da Betty Edwards. A primeira parte dessa série (leia aqui) é um dos posts mais acessados do site, mesmo assim eu travei na hora de fazer essa segunda parte porque ela versa justamente sobre uma etapa do processo que eu não conseguia compreender totalmente a finalidade.

Como disse anteriormente eu não gosto desse livro e não recomendo comprá-lo, mas ele é um clássico e seus exercícios têm sido usados com sucesso há algumas décadas. Meu objetivo aqui não é exatamente desmerecer o livro e sim suprimir a parte da teoria neurolinguística (que até hoje é contestada em suas várias aplicações) e oferecer apenas os exercícios do livro acrescidos da minha observação prática e de outros exercícios correlatos que eu aprendi.

Então vamos lá.

No post anterior cobri a primeira parte do conceito de aprendizado de desenho da autora que versa sobre o que ela chama de “arestas”, que são aqueles encontros de planos/volumes que graficamente representamos por linhas nos nosso desenhos.

Segundo a autora, a segunda parte do aprendizado do desenho seriam os “espaços negativos”.

Basicamente o espaço negativo é a área em volta da figura que estamos desenhando, seja ela a área externa ou interna.

Veja no exemplo abaixo, em vez de desenhar a cadeira eu desenhei o seu espaço negativo (toda a área em azul)

cadeira


Qual é a proposta da autora aqui? Se deixarmos de lado o objeto e as racionalizações sobre o que estamos desenhando e nos focarmos no contorno aparentemente sem sentido da área em volta teoricamente ficará mais fácil de desenhar. O espaço negativo serve como forma de medição interna também, para ajudar nas proporções, mas já retorno a isso.

E qual foi exatamente o meu problema com esse capítulo?

Desde que comecei a aprender a desenhar a primeira coisa que me ensinaram era a estruturar o que eu iria desenhar em formas simples. Desenha-se um círculo para a cabeça, vai acrescentado linhas de suportes e depois finaliza o desenho. Mais ou menos como esse exemplo a seguirestrut


E, de fato, estruturar o desenho não só funciona como é extremamente necessário. Contudo, seguir desenhando apenas através dessa estrutura pode causar um erro muito frequente do iniciante (até hoje eventualmente eu caio nesse erro) que é começar a desenhar algo, ter toda uma coerência de estrutura e proporção, mas na hora que você chega, por exemplo, no pé da figura que você está desenhando ele não cabe na folha.

Aqui entra um ponto que amarrou tudo e finalmente deu sentido ao conceito de espaço negativo pra mim: a composição.

No curso de pintura que estou fazendo com o Davi Calil (leia uma entrevista com ele aqui) ele propõe desenhar com o pincel e o primeiro passo é delimitar a área do seu objeto através de uma estrutura mais básica, ou seja, desenhar o espaço negativo para que o desenho fique bem posicionado na tela, com o devido respiro e tudo mais para que tenha uma composição visual harmônica.

Abaixo eu coloquei um processo passo-a-passo de uma pintura monocromática com gouache magenta. Não vou entrar no mérito da técnica, mas ela é do curso de pintura relâmpago do Calil que eu recomendo sempre. Repare que nesse processo eu de certa forma mesclo o conceito de desenhar o espaço negativo com as estruturas e uso as referências internas da figura (triangulação dos olhos/nariz/boca) e as áreas básicas de luz e sombra para navegar. Na etapa três, por exemplo, é possível dizer que eu ainda estou desenhando o espaço negativo se eu considerar as áreas de luz como espaço positivo.

 

passopasso


E foi aí que eu passei a compreender bem o proposto pela autora.

A técnica do espaço negativo é usada principalmente para o desenho de observação. Quando olhamos para algo tridimensional e tentamos desenhar, a principal dificuldade é delimitar a área em torno que você ira cobrir, porque, por mais que você vá se focar em um único objeto, sua visão cobre uma área bem maior no entorno, assim, a primeira coisa a fazer é limitar mentalmente essa área de acordo com o papel que você irá usar. Depois você pode desenhar o espaço negativo pensando na distância entre a borda do objeto e a borda dessa área imaginária.

(Dica: é normal a gente mudar sem querer o ponto de observação na passagem olhar para o papel olhar para o objeto, sim é muito frustrante e várias vezes você vai se pegar desenhando algo torto porque você olhou um lado de um ângulo e outro de outro. Parte desse exercício é treinar o olhar, então vá com calma e lembre-se de desenhar só o que está vendo e não tentar virar para lá ou para cá para ver melhor outro ponto.)

O importante desse exercício é estabelecer relações de comparação entre as distâncias (sabe quando o pintor fecha um dos olhos e usando o dedo e o cabo do pincel toma algumas medidas e compara com outras? É exatamente o mesmo princípio, você fecha um dos olhos e começa comparar as medidas dos espaços negativos internos e externos).

Olhe o exemplo abaixo. Delimitei minha área de trabalho, desenhei os espaços negativos (áreas cinzas) e depois trabalhei a figura interna. Nessa etapa podemos ver um segundo nível de espaço negativo. Internamente na figura a área da camisa, meia e das mãos, podem ser trabalhadas seguindo o mesmo princípio e usá-las como espaço negativo para se encontrar dentro do desenho.

pink-panter


Abaixo eu fiz dois exemplos de desenho de mãos. Qual o conceito aqui? em ambos o primeiro passo foi o desenho do espaço negativo, depois, com essa área delimitada, eu desenhei uma estrutura de apoio tradicional ali e depois o desenho final (como esse desenho é digital, pude suprimir a camada intermediária para mostrar um desenho final “limpo”).

mao  pincel


Muito bem, e agora o que eu faço com tudo isso?

Como em várias outras áreas da vida, a única forma de melhorar é desenhando muito. O exercício proposto aqui é o seguinte:

1- Escolha um objeto (preferencialmente real, a foto funciona, mas lembre-se que essa técnica é para melhorar o desenho de observação e treinar o olhar).

2- Delimite mentalmente uma área em torno do objeto proporcional ao papel que você está usando.

3- Desenhe os espaço negativos pensando sempre primeiro na área mais externa pois o objeto tem que caber na sua composição. Lembre-se de encontrar pontos de medição e comparação para garantir a proporcionalidade. Delimitada a área externa procure todos os espaços negativos internos.

4- A proposta do livro para na parte anterior, mas eu sugiro aqui encaixar uma estrutura no que você está desenhando. Quebre o desenho interno em formas simples, nessa etapa é possível que você perceba que seu desenho de espaços negativos tinha um ou outro erro, então é possível acertá-lo.

5- Passe o traço final do desenho porque, por mais que a proposta seja ser apenas um exercício, é legal ver um resultado final.

Algo importante aqui, além de exercitar o olhar e aprender a tirar proveito disso como técnica para sempre que você for desenhar alguma coisa, aprender que não bastar ter estrutura, o desenho tem que se encaixar no papel, em uma cena e tudo mais.


Lembre-se, essas propostas são exercícios que fazem parte de um processo longo de aprendizado e não um mecanismo ou um truque para desenhar algo. O resultado desses exercícios não tem como objetivo criar um “desenho bonito” e sim ajudar na internalização de um processo bem mais complexo.

Ressalto que minha proposta aqui não é dar um curso de desenho, mas sim compartilhar o que eu tenho estudado.

Veja todos os textos sobre o livro aqui

Quem quiser comprar o livro, mesmo pagando caro, tem aqui http://amzn.to/2r6QT6E

Se você também está estudando desenho e tem alguma dúvida, quer ver outros tipos de exercício mais específicos, mande um e-mail para contato@diletanteprofission1.hospedagemdesites.ws e eu vou atrás de pesquisar a sua sugestão.


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