Desenhando com o lado direito do Cérebro – Parte 5 – Como desenhar um retrato com facilidade

[Veja a playlist de vídeos com os exercícios do livro https://www.youtube.com/playlist?list=PLf2cO1HvlOe7mdti23nBqAKQAurwNJUQ_ ]


Antes de mais nada, esse título é bem enganoso, mas eu copiei ele do capítulo do livro.

Não se engane, fazer um bom retrato não é fácil (aqui no site eu tenho esse projeto em que eu estou fazendo 52 retratos pintados nesse ano e eu sei bem o quanto é difícil).

Mas o desenho do retrato tem uma função muito importante no aprendizado, porque ele força você a encarar seus erros. Se você pinta uma paisagem e erra algumas proporções ou formatos, o erro só é perceptível se o desenho for comparado diretamente com a referência, afinal, existem árvores, montanhas e lagos dos mais diversos tamanhos.

O retrato e o desenho do corpo humano possui uma série de proporções que dão uma coerência interna para a figura. Apesar de existirem seres humanos de todos os tipos e formatos, os erros ficam evidentes mesmo quando não conhecemos o retratado.

Segundo a Betty Edwards, o desenho do retrato também é um passo para o que ela chama de gestalt (na progressão dela as habilidades para o desenho são o desenho de arestas, o de espaços, os relacionamentos, as luzes e sombras e a gestalt). Esse conceito, aplicado ao desenho de retratos, seria a habilidade de transmitir pelo seu desenho características não visuais, como a personalidade da pessoa.

Eu acho que isso depende um pouco mais do que só do desenho, depende de uma composição que deve começar no posicionamento e na cena original da referência. Mas é possível, um exemplo claro da gestalt no retrato é o trabalho maravilhoso do Sargent (leia sobre ele nessa matéria que eu fiz aqui).

O desenho do retrato tem outro papel fundamental na proposta de aprendizado da autora que é quebra de pré-conceitos visuais. O retrato demonstra que é importante desenhar o que está sendo visto e não os modelos prontos que temos na cabeça.

O primeiro exercício, abaixo é um exemplo claro disso.

O rosto tem uma série de pontos chaves e a partir dessas distâncias é possível mapear todo o desenho sem grandes erros. Basicamente, para acertar as proporções, você tem que posicionar corretamente os olhos e criar um triângulo que os relaciona com a boca e contém o nariz, no perfil esse triângulo relaciona olho, queixo e a orelha.

Primeiro exercício

Esse é um exercício de mera observação.

Vá até o espelho e meça a distância do topo da cabeça até o olhos e dos olhos até o queixo.

Você perceberá que a linha dos olhos está aproximadamente no meio do rosto.

Um erro muito comum é colocar os olhos muito para cima o que faz o crânio parecer cortado. Ou seja, o importante nessa visualização não é uma medida precisa, mas entender que o olho não está tão para cima ou tão para baixo do rosto.

Outra medida importante, com o rosto em perfil é a do olho até a orelha. Veja que a distância do olho até a orelha é aproximadamente a mesma do olho até o queixo.

Pegue algumas fotos como referência e tire todas as medidas transferindo-as para uma forma padrão meio ovalada.

Comece sempre encontrando o eixo central do meio do rosto e depois encontrando a posição da linha dos olhos. Depois faça o máximo de medições possíveis de pontos de encaixe, sempre observando a relação entre as medidas.

Se estiver muito difícil trace as linhas diretamente nas fotos de referência para ajudar a entender melhor.


Exercício 2 – Retrato propriamente dito

A proposta da autora é começar fazendo um retrato de perfil. Tem pessoas que dizem que é mais fácil o perfil, por ser só meio rosto, talvez tenha alguma verdade nisso, mas o nível de dificuldade não é tão diferente assim.

Outra sugestão é que se comece com um “modelo vivo”, virado de perfil a mais ou menos meio metro de distância. Peça para alguém posar para você, alguém paciente, que te deva um favor, pois a pessoa vai ter que ficar parada por uns 30 minutos.

Usando o plano de imagens (veja nos posts anteriores) trace os contorno do rosto e do trecho do pescoço até o ombro.

Marque as medidas principais, distância de olhos, nariz e boca para ajudar a não se perder.

Passe para o desenho final, em um papel previamente matizado com grafite.

Comece com uma forma básica geral do contorno, desenhando os espaços negativos em torno do rosto.

É importante observar cada linha, cada curva, cada ângulo, porque é nesses detalhes que mora o formato único da pessoa que você está retratando.

Sempre que tiver dúvida de alguma distância, recorra para o esboço no plano de imagens.

Trabalhe as parte internas do rosto da mesma forma, sempre cercando os detalhes pelo espaço negativo.

O grande truque aqui é focar nas linhas e nas distâncias e esquecer que está desenhando um olho, uma orelha, uma boca.

Você tem que focar no vê, não no que acha que vê.

Apague a parte matizada do espaço negativo em torno do rosto para a imagem ficar mais clara.

Pronto, você fez um retrato.

Agora, é só fazer mais uns mil desses que o desenho vai ficar cada vez melhor (isso é sério, não é uma piada).

Montei uma pasta de referências no pinterest para ajudar a começar os exercícios, comece pelos perfis, depois rostos totalmente de frente e por último rostos em posições diversas, mas o desenho por referência nunca substitui o desenho de observação de fato, então sempre que tiver a oportunidade de usar um modelo vivo (profissional ou não) faça isso.

Lembrando também um ponto importante que eu sempre repito: é importante aprender desenho com um professor, para que ele faça uma avaliação objetiva da sua evolução, é muito perigoso seguir sozinho e as vezes achar que está se fazendo certo e criar vícios.

No mínimo peça para alguém bem honesto dar uma olhada nos seus desenhos de tempos em tempos.

Outro truque interessante é olhar o desenho no espelho. Quando olhamos o desenho invertido, o reflexo pode evidenciar muitos erros de proporção que não somos capaz de enxergar porque estamos com o olhar viciado na imagem. Esse é um truque muito antigo e funciona. Pode reparar em vídeos de pessoas fazendo desenho digital quantas vezes eles espelham a imagem para ver se ela “funciona”.

Recapitulando:

Foque sempre no que você está vendo.

Tire as medidas de forma a ter referências suficiente para construir seu desenho, sempre criando relacionamentos entre as medidas.

Desenhe pelo espaço negativo.

Foque nas formas e não no que é de fato aquilo que está desenhando.


 

Exercício Bônus

Isso é algo que não está no livro, mas que eu acho que é uma experiência bem válida.

Faça alguns desenhos usando um pincel.

Você pode usar gouache ou naquim, o importante é tentar fazer o desenho mais solto possível ao mesmo tem que marca as medidas principais, criando relações entre elas e desenhando as “massas” da figura.

Você verá que muitas linhas são desnecessárias quando desenha-se alguns planos.

Eu aprendi esse conceito de desenhar com o pincel com o Davi Calil, ele tem até um curso com esse nome que é muito bom, e depois eu descobri que muitos pintores fazem isso, um deles é o Sargent, que eu já citei anteriormente.

São muitas as vantagens de desenhar com o pincel. Você pode tentar segurar de uma forma diferente que seguraria um lápis, tem um efeito psicológico de que com o pincel não dá para apagar, então ajuda a mente a focar e a movimentação do pincel permite um traço mais solto, porque estimula o movimento gestual da mão. Experimente, se possível um pincel chato, pois permite um tipo de blocagem e traço bem diferente do pincel redondo (até porque o pincel redondo lembra muito o lápis e a caneta, então não vai ajudar tanto a “quebrar” o modo de pensar)


Lembre-se, essas propostas são exercícios que fazem parte de um processo longo de aprendizado e não um mecanismo ou um truque para desenhar algo. O resultado desses exercícios não tem como objetivo criar um “desenho bonito” e sim ajudar na internalização de um processo bem mais complexo.

Ressalto que minha proposta aqui não é dar um curso de desenho, mas sim compartilhar o que eu tenho estudado.

Veja todos os textos sobre o livro aqui

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Se você também está estudando desenho e tem alguma dúvida, quer ver outros tipos de exercício mais específicos, deixe nos comentários para que eu possa melhorar os posts.


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