Desenhando com o lado direito do Cérebro – Parte 6 – O valor das luzes e das sombras lógicas

[Veja a playlist de vídeos com os exercícios do livro https://www.youtube.com/playlist?list=PLf2cO1HvlOe7mdti23nBqAKQAurwNJUQ_ ]


Em algumas edições desse livro esse seria o último capítulo antes da conclusão.

Nessa edição que eu tenho (que eu acho que foi a última que saiu no Brasil pela Ediouro) ainda tem o capítulo sobre cor e o sobre caligrafia que abordarei em breve.

Então vamos para luz e sombra.

Em alguns momentos eu acho a organização do livro um pouco perdida, vocês verão que eu dividi esse capítulo em 4 vídeos e um é basicamente uma revisão da parte de retratos com um acréscimo.

Sobre luz e sombra em si, como toda teoria de desenho no livro a autora é bem superficial. Ela sempre se aprofunda bastante no calço teórico sobre a divisão do cérebro, nesse ponto a teoria é vasta, mas isso não interessa na prática para o aprendizado do desenho. Basta saber que os exercícios dela, independente de como funcionam dentro das engrenagens do seu cérebro, têm seu valor.

Vou seguir então a ordem do capítulo e começar com um exercício que, pra mim, é o exercício mais legal do livro.

Exercício de aquecimento

Para treinar a percepção de luz e sombra a autora propõe um exercício bem curioso onde você desenha com a borracha.

Se você for ver, na prática, é algo meio semelhante as técnicas de cobertura, onde você vai abrindo luz com materiais opacos (como pastel, óleo, gouache e acrílica).

A ideia é você pegar um desenho de referência que tenha um bom trabalho de luz e sombra em branco e preto (fiz uma pasta com referências aqui para ajudar) e tentar reproduzir adicionando luz ao apagar o grafite.

Você começa matizando uma folha com grafite. Com um lápis macio risque suavemente toda a superfície do papel até cobri-la e, depois, com um papel toalha dê uma espalhada nesse grafite para homogenizar (basicamente é o mesmo procedimento que a autora sugere para começar a maioria dos exercícios).

Feito isso, você vai para a referência e começa a “desenhar” usando as mesmas técnicas que treinou até agora no livro (desenhar de ponta cabeça, pelo espaço negativo, começando pela marcação de grandes massas e as infinitas combinações e variações disso) só que com a borracha.

A autora sugere cortar uma borracha com estilete para formar uma ponta chanfrada nela, mas, você pode usar aquelas canetas borrachas, algo que provavelmente não existia na época da concepção do livro.

Então você vai seguindo a referência e abrindo luz nela.

Esse é um exercício poderoso de percepção, o importante aqui é identificar o tom médio e o que é mais claro que ele na referência.

A camada de grafite no seu papel é o seu tom médio. Então você olha na referência e tudo que tiver valor tonal mais alto, ou seja, tudo que for mais claro que o valor médio, você vai apagar na sua folha, sempre trabalhando de fora para dentro, pelo espaço negativo.

Depois que tiver aberto todas as luzes, ou seja depois de desenhar com a borracha todos os tons altos é hora de retomar com o lápis e fazer as marcações que são mais escuras que o tom médio que já está no papel.

Eu acho esse exercício muito gostoso de fazer e ele ajuda a ter uma noção melhor de valor tonal. Como exemplo, fiz esse que está em destaque no post e você pode ver no primeiro vídeo como ele foi feito para ter uma noção melhor.

A parte teórica

A luz e sobra é a última habilidade de percepção antes do todo, segundo a autora, e, de fato, para o desenho realista e para o pintor, onde a linha não tem tanto protagonismo quanto o encontro de massas, perceber a luz e sombra é o que dará a ilusão de tridimensionalidade, de volume, profundidade e naturalismo.

Até hoje, pela minha experiência como pintor inepto, sempre que acerto o valor tonal, o contraste, vejo que 70% do jogo está ganho. Combinar cores é importante, mas não tanto quanto acertar a distribuição de volume.

Tem alguns artistas que são capazes, através de uma escolha cuidosa de ângulos, desenhar só com contornos e gerar um volume absurdo, um exemplo desses é o Gustavo Duarte, um desenhista que assombroso que desenvolveu uma habilidade impressionante de escolher o melhor ângulo para todas as peças do seu desenho e, com isso, cria uma série de planos que deixam o desenho dele com muito volume sem o peso da luz e sombra.

Mas isso são casos raros de artistas extremamente habilidosos e com um uso muito específico.

Quando se volta para o desenho realista/naturalista é preciso saber representar as sombras.

Isso pode ser feito de três formas básicas e infinitas variações entre elas.

Uma é o alto contraste, onde você tem apenas dois tons, claro e escuro e absorve os nuances médio para um ou para outro conforme é mais conveniente para formar a imagem. Um bom exemplo disso é o artista Mike Mignola, do Hellboy.

Ou você pode fazer o tradicional degradê, com passagens suaves, vários semitons, construindo aos poucos, cobrindo de novo e de novo os trechos mais escuros através do controle do lápis.

Ou esse degradê pode ser representado pelo grafismo das hachuras.

As hachuras são um tema extremamente complexo que a autora trata meio como uma coisa até que simples, fala para você treinar hachuras enquanto está no telefone ou fazendo outras coisas a toa.

De fato é preciso treino, mas o uso das hachuras dependem de um aprendizado bem mais complexo que passa, inclusive, pelo design e pela composição, pois é muito fácil cometer erros crassos com as hachuras e criar desenhos que são pouco atraentes.

Os artistas antigos que trabalhavam com bico de pena dominavam demais essa técnica. Muitos conseguiam em uma mesma hachura criar dois tons com o uso de uma pressão maior na pena que engrossava o traço em determinados pontos.

Uma ideia para aprender a hachura é primeiro treiná-la em um único sentido, depois cruzá-la e por último, tentar usá-la para compor efeitos de movimento ou textura.

Algo interessante é tentar copiar desenhos desses mestres da hachura, os autores de quadrinhos de terror de antigamente são um eterno bom exemplo dessa técnica. Na pasta no pinterest que eu citei acima, tem também alguns exemplos de hachura que vale a pena ser estudados.

Um alerta, tanto a hachura como  o degradê são um caminho bem trabalhoso. Não dá para você trabalhar só uma área do rosto sem trabalhar em tudo, porque o efeito depende muito da composição como um todo. Quando você começa a trabalhar luz e sombra, as escolhas de áreas brancas, áreas médias e áreas escuras se complementam, então ou você pensa e compõe o desenho como um todo, ou nem adianta tentar um o efeito.

No vídeo sobre essa tópico eu fiz os exercícios clássicos da bolinha com a sombra projetada e umas escalas tonais. Treine muito a forma de representar graficamente a sombra e emule muito diversos tipo de acabamento de artistas consagrados para encontrar o resultado que você quer para os seus desenhos.

Revisão das proporções do rosto

Antes de chegar no exercício final, a autora faz uma revisão das proporções do rosto. Eu falei bastante dessas medidas aqui nesse post, mas fiz de novo o esquema no vídeo no final do post, e falei das medidas chaves (distância entre olhos de um olho/ triangulação olhos e nariz como referência principal dentro do rosto/ posição dos lábios e das orelhas).

Algo diferente que ela fala nesse capítulo que não está no capítulo de retrato que tratei no outro post é a posição chamada de 3/4.

A posição de três quartos é uma das mais clássicas para o retrato, seria um posicionamento que está entre o perfil e a vista frontal, basicamente você vê os dois olhos e só uma orelha nessa posição.

O grande lance é que a distribuição dela oferece por si só a formação de planos mais interessantes e, só com os contornos, você já tem uma sensação de tridimensionalidade. Nessa posição o nariz deixa de ser um triângulo e vira uma pirâmide, uma das laterais do rosto tem o recorte sinuoso na área do olho e a boca mantem seu formato característico horizontal, mas com uma insinuação de volume nos lábios.

Desenhar a boca, aliás, sempre é um desafio. Quando a gente olha para uma pessoa a boca parece ter um destaque imenso, porque ela está em uma cor diferente no rosto, mas, na verdade, ela não tem esse contorno tão marcado e, quando fazemos uma representação em preto e branco, é preciso ter muita sutileza para desenhar os lábios de forma que não pareçam algo que não pertence a figura.

O lábio superior, no geral, tem uma angulação quase chanfrada para dentro, portanto ele fica em uma área de sombra, enquanto o  inferior tem seu volume cilíndrico projetado para fora, portanto recebe mais luz. Ou seja, a luz e sombra sempre é o melhor caminho para representar os lábios e não os contornos.


Auto-retrato

Tudo no livro caminha para esse exercício.

Quando a autora começa, ela sugere que o leitor faça um auto-retrato e guarde.

Esse é o momento, depois de ter feito várias vezes todos os exercícios que eu falei nos posts e vídeos anteriores, de colocar tudo o que você aprendeu na prática e refazer o auto-retrato para comparar sua evolução.

O exercício é o mesmo. Pega um papel matizado, senta na frente do espelho, faz o retrato inicial no plano de imagens, passa os contornos gerais para o papel e vai construindo o retrato pouco a pouco sempre olhando para você no espelho e procurando as resposta ali. Desenhando os espaços negativos, as áreas de sombra e, depois, abrindo luz com a borracha para o desenho ganhar volume. Sempre lembrando de nunca tratar nada pelo nome, ao fazer o olho, por exemplo, em vez de pensar que está desenhando o olho, vai construindo os espaço os redor aos poucos, sempre medindo as distâncias com os referenciais que você já construiu, pensando nas proporções básicas para saber se tudo está mais ou menos no lugar.

Basicamente tudo que já foi dito. Escolha uma unidade básica de medida e compare as outras coisas até ficarem do tamanho proporcionalmente correto.

O auto-retrato tem uma certa armadilha.

Eu que já fiz alguns auto-retratos com o tempo formei uma solução gráfica para o meu rosto, então é muito difícil fugir dessa fórmula padrão, mas é preciso sempre lembrar de se preocupar mais com o que se está vendo do que com o que acha que está vendo.


 

É isso, ainda farei mais alguns post sobre o que falta do livro, mas todos os exercícios pertinentes a evolução do desenho estão aí.

Você tentou fazer? Está tentando? Manda aí nos comentários seus desenhos e sua evolução. Se tiver vergonha manda no e-mail.

Se algum dos exercícios não ficou claro no vídeo ou no texto, manda um e-mail que dependendo eu posso refazer de alguma outra maneira.


Lembre-se, essas propostas são exercícios que fazem parte de um processo longo de aprendizado e não um mecanismo ou um truque para desenhar algo. O resultado desses exercícios não tem como objetivo criar um “desenho bonito” e sim ajudar na internalização de um processo bem mais complexo.

Ressalto que minha proposta aqui não é dar um curso de desenho, mas sim compartilhar o que eu tenho estudado.

Veja todos os textos sobre o livro aqui

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Se você também está estudando desenho e tem alguma dúvida, quer ver outros tipos de exercício mais específicos, deixe nos comentários para que eu possa melhorar os posts.


Vídeos desse post