Deuses Americanos (Livro/início da série)

[Essa resenha tem uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/nUG3O7wA6cQ]

Tenho uma relação conturbada com Neil Gaiman, eu não sou um grande fã justamente de Sadman, considerada a obra maior dele nos quadrinhos, mas eu tento ler a maioria das coisas dele e gosto, com várias ressalvas, dos livros que ele escreve.

Um dos meus hábitos de “leitura” são os audiobooks e os do Gaiman, em especial, têm uma produção bem boa. Já ouvi alguns que ele mesmo fez a locução e, no caso de Deuses Americanos, tem uma edição especial com um elenco completo lendo as falas dos personagens (o resultado é semelhante a uma rádio novela, mas segue o livro na íntegra, inclusive essa versão do texto é a chamada “edição preferida do autor”).

Minha maior crítica ao Gaiman é algo que talvez nem seja culpa dele, as pessoas tendem a achar o trabalho dele muito “inteligente”, com o roteiro muito bem elaborado, com ideias geniais, quando, na verdade, ele é um escritor de narrativas adolescentes divertidas. Ele desenrola suas histórias com uma linearidade razoável, sempre priorizando a estrutura de ganchos entre capítulos e trabalha seus mistérios com um didatismo que parece saído de um manual de escrita de literatura fantástica.

Todas as surpresas futuras são cantadas porque Gaiman valoriza acima de tudo o “payoff”, a recompensa para quem prestou atenção. Mas, se você não prestou atenção o suficiente e não descobriu o mistério, não se preocupe, você não vai precisar reler o livro porque no final ele sempre explica certinho onde cada coisa se amarra.

Deuses Americanos segue essa receita.

Shadow Moon sai da prisão e sua vida segue por uma série de eventos bizarros e a única alternativa que lhe resta é trabalhar para Quarta-Feira, um homem misterioso que o levará por uma jornada pelos EUA no meio de uma guerra entre deuses.

É um livro bem executado, não tem muito o que reclamar dele, o texto do Gaiman é sempre muito fluente, tem sua qualidade como escrita, mas não é pedante (inclusive o Gaiman é uma boa pedida para quem está estudando inglês e quer investir em umas leituras de maior fôlego, tem uma complexidade média, mas não é medíocre).

Quando falaram da série, me preocupou um pouco porque eu não consigo enxergar a narrativa do livro em uma estrutura de série.

O ritmo da passagem de tempo no livro funciona como livro, decupar aquilo como série é meio complexo, o ideal mesmo era que o livro fosse adaptado em um road movie.

Acho que a pior questão, principalmente depois de ver o primeiro episódio, é que a série vai seguir um caminho meio hermético e pseudo intelectual, mesclando as histórias soltas dos deuses, os sonhos do Shadow e a trama em si e vai criar muita expectativa no seu desenrolar, pra, no fim, ter um final meramente ok (como é o livro).

Acredito que essa equação expectativa x frustração possa diminuir muito a série quando analisada por completo.

Fora isso, em termos visuais a série está interessante. A fotografia está em um limiar entre o genial e o brega, no geral funciona. No fim, o grande destaque do primeiro episódio foi mesmo duas cenas visualmente fortes (0 viking sendo flechado e o ataque do Tecky boy, que, aliás, está melhor do que é no livros)

Uma coisa que pode ser um complicador para quem não leu o livro é que Ricky Whittle, que interpreta o protagonista Shadow, parece um ator ruim, meio duro, meio sem emoção, MAS, pode ser que ou ele é um bom ator, ou ele deu sorte de pegar um papel que é dessa forma, o fato é que Shadow é exatamente aquilo que vemos na série e no momento certo será revelado o porquê.

Leia a resenha final da primeira temporada da série aqui.

Compre o livro aqui (amazon) ou aqui (saraiva) ou aqui (cultura)