Dodô e Espiga

Como é bacana ver essa geração de quadrinhistas crescendo e contando histórias fantásticas como Dodô e Espiga.

Escolhi falar das duas juntas porque há um paralelo forte nelas que vai além do mesmo nome e da geração onde se inserem Felipe Nunes e Felipe Portugal.

Nas duas histórias o protagonista passa por um momento complicado, alguém se foi e o vazio é preenchido por algo fantástico, em uma a aparição de um pássaro Dodô e em outra uma espécie de serviçal mágico.

Não vou entrar nos detalhes aqui, mas dá para dizer que os dois elementos mágicos tem basicamente a mesma função nas duas histórias: expressar emoções que o protagonista não é capaz de externalizar, talvez por nem compreender exatamente o que são ou mesmo por não ser capaz de reconhecer a existência desses sentimentos.

Ao mesmo tempo as histórias se distanciam muito, tanto no traço quando no protagonista em si.

Dodô é contado a partir do ponto de vista de uma garota de 6 anos, isolada e sem amigos por um motivo alheio a sua vontade. Espiga já é mais próximo do próprio autor, um desenhista de vinte e poucos anos, empacado com a vida, com os projetos, a deriva.

Eu diria que é mais fácil – cômodo – contar uma história onde o protagonista é mais próximo de você, o autor não tem que se colocar em um papel diferente, pensar como outra pessoa completamente distinta. Ao mesmo tempo, o tom confessional que se obtém e a forma como o autor se expõe para o mundo é muito intensa e o resultado tende a ser muito mais vivo.

Você pode dizer que tem centenas de histórias como Espiga, em que parece que o autor está contando a própria história, ou em que de fato está fazendo isso. Mas nem só a vivência de cada pessoa é diferente como a perspectiva pela qual ela enxerga os fatos é diferente. Histórias assim oferecem vários pontos para o leitor empatizar com ela, seja por ter vivido algo parecido, seja por pensar de forma semelhante ou mesmo por se encantar com a forma intensa daquele sentimento.

Assim, contando uma história que parece igual a todas as outras, onde o personagem e o autor quase se confundem por sua idade, sexo, profissão, Felipe Portugal encanta com uma HQ extremamente única e necessária.

Já em Dodô temos um exercício narrativo interessante de Nunes. Ao contar a história do ponto de vista de uma criança ele deixa muito sem explicação para o leitor. A criança não participa das decisões, não ouve todas as conversas e, quando ouve, não entende o suficiente. Existem pistas de algo complexo no ar, existem sentimentos fortes, confusos. E com essa receita, Nunes cria novamente uma bela HQ.

Pessoalmente, dos trabalhos do garoto eu ainda prefiro Klaus, que me deixou completamente sem fôlego. Dodô tem uma questão estranha sobre a garota que não vai para escola e esse fato não recebe a devida explicação – até porque não cabe na narrativa – e acaba sobrando. Torna-se uma situação que – por mais que possa acontecer – fica perdida, porque uma criança de classe média fora da escola é algo meio que impensável, algo que surge em um caso extremo.

É um detalhe, óbvio, não diminui em nada toda história que continua sendo um grande trabalho do autor.

E, é claro, o desenho de Nunes é sempre impressionante, uma arte-final de profissional gabaritado, com muita expressão e técnica. Não posso dizer que quero desenhar como o Nunes quando crescer porque já passei da idade dele, no meu caso eu quero desenhar como o Nunes quando eu morrer e nascer de novo.

No espectro do desenho, Portugal está em um campo totalmente diferente. Ele faz uma linha clara, com marcações precisas de sombra e um recorte interessante de cores de fundo. Diametralmente oposto a Nunes, mas igualmente bonito e adequado a sua história.

As duas HQs são independentes e você deveria ler, então compre direto com os artistas nas suas lojinhas virtuais: Dodô de Felipe Nunes e Espiga de Felipe Portugal.

espiga

dodo