Ele está de volta

Entrou nesse fim de semana no catálogo da Netflix o filme alemão Ele está de volta baseado no livro de mesmo nome que eu li, gostei muito e resenhei aqui.

Na época eu adorei o livro e não tinha nem imaginado na possibilidade dele como um filme, menos ainda como um filme da forma que foi feito.

O filme parte da premissa do livro – Hitler foi transportado do momento em que desapareceu na Segunda Guerra para 2014 – e teve uma sacada muito interessante de não apenas simular a linguagem de documentário (como The Office) mas de mesclar com um documentário real no estilo de Borat onde Hitler viaja pela Alemanha atual entrevistando pessoas e fazendo discursos e registrando as reações.

Com essa segunda camada o filme ficou ainda mais assustador e crítico que o livro.

O eixo do livro era a questão de cada um ouvir o que quer e não o que realmente está sendo dito. Os discursos de Hitler no livro, replicados no filme, são vistos como ironia por quem os ouve, mas encontram eco naquele tipo de opinião horrível que muita gente concorda em segredo e não tem coragem de expor.

O livro se centra muito nessa questão do “ruído” da comunicação onde nenhum lado se atenta a real intenção do outro e, pior, acredita que o que o outro está respondendo é consonante com o que foi dito (meio o que tem acontecido com a ascensão dos comentarista de tudo da internet, como falei nessa crônica).

O filme dá um passo além, com seu lado documental usa a figura do Hitler para expor pensamentos dos cidadãos da Alemanha. Muitos odeiam o Hitler, muitos agem como se fosse uma palhaçada qualquer, mas, uma porcentagem significativa, quando perguntados por Hitler o que gostariam que mudasse na Alemanha, apontam muitos anseios que encaixam perfeitamente na política do verdadeiro Hitler.

Óbvio que em alguns pontos em que  livro tomou liberdades – nas opções de facilitar a narrativa ignorando um excesso de justificativas – o filme, dado a prática da indústria cinematográfica de explicar tudo, não se teve esse desprendimento. As coisas são menos convenientes, mais explicadas e, em compensação, os personagens em volta do Hitler são mais complexos.

Ele está de volta é um filme que vale a pena ser visto. É uma construção inteligente, crítica que toca na ferida não só da Alemanha, mas de mundo todo e de como as pessoas se comunicam e de como ideologias supostamente horríveis ainda tem espaço para ganhar terreno.

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