Entrevista com Cristina Eiko



O aprendizado do desenho é um processo muito pessoal, mas não quer dizer que os problemas e dificuldades que uma pessoa tem sejam totalmente diferentes das outras.

Pensando nisso, iniciei uma série de entrevistas com artistas que trabalham com várias formas de ilustração e investigarei como foi, ou como está sendo, uma vez que nunca paramos de aprender, o processo de evolução artística de cada uma dessas pessoas.

Ao longo do ano postarei aqui no site essa série de entrevistas que oferecerão um olhar privilegiado sobre a ilustração, o aprendizado e o papel social dos mais diversos tipos de ilustradores, reunindo um material que será útil para todos que querem aprender ou gostam de desenho e ilustração.

Além da entrevista os artistas são convidados a enviar desenhos de épocas diferentes da sua vida, mostrando assim como mesmo um grande artista não é necessariamente um talento tão “natural” e que há um processo longo de evolução para chegar no estilo em que trabalham no momento.

Para começar essa série eu convidei a sensacional Cristina Eiko.

Eiko trabalha com animação e quadrinhos e começou a ficar conhecida com a série Quadrinhos A2 que ela faz junto com o seu marido Paulo Crubim. A HQ fez sucesso, conquistou público, ganhou o Troféu HQMix, financiamento pelo ProaC e garantiu para o casal um convite para produzir uma HQ da turma do Penadinho na série de Graphic Novels que estão revisitando o personagens do Mauricio de Sousa com os traços de outros artistas.

Vamos a entrevista.


 

 

DP – Eiko, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Cris Eiko – Eu comecei a desenhar quando criança, e continuei desenhando depois que as outras crianças pararam, graças ao incentivo de meus pais e de primos próximos que sempre desenhavam comigo. No cursinho, fiz meu primeiro curso de desenho (preparatório para o vestibular) onde ouvi falar de desenhar com o lado direito do cérebro, de treinar o olhar pela primeira vez, até lá eu só desenhava estilo mangá, embora sempre lesse desde turma da Mônica e Disney, passando por super-heróis, até mangá. Na faculdade de Design Digital tive alguns semestres de desenho e pratiquei desenho com modelo-vivo pela primeira vez e, depois, fazendo um curso de animação, com a prática constante, me tornei um pouco mais confiante com meu desenho e arte-final.
Minhas principais inspirações, a maioria não aparece tanto no que desenho, mas me inspirou a seguir este caminho: Rumiko Takahashi, Ryoko Ikeda, Adachi Mitsuru, Hayao Miyazaki, Bill Sienkiewicz, Alison Bechdel, Craig Thompson, James Kochalka, entre muitos outros.

DP – Você trabalhou muito tempo com animação e agora está com uma produção mais intensa de quadrinhos, o que é melhor?

CESão bem diferentes, não dá pra dizer qual é “melhor”, ambos são trabalhosos e leva tempo para terminar uma obra. Só trabalhei com animação tradicional, onde era necessária uma equipe grande para trazer a visão do diretor à realidade, por isso é bom saber trabalhar em equipe (eu não sou muito boa nisso, infelizmente). Nos quadrinhos, pode-se criar algo do início ao fim com bem menos gente e orçamento menor.

DP – A animação influenciou muito o seu traço que é extremamente dinâmico e cheio de vida. Você gosta desse resultado atual ou gostaria de experimentar estilos diferentes?

CE – Muito obrigada! Ainda acho que poderia melhorar, ser ainda mais dinâmico, ter uma expressão melhor, ser mais ousado. Gostaria de experimentar mais, ousar sair da minha zona de conforto onde me situei.

DP – Você sente que teve algum processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou ou o que atrapalhou na evolução?

CE – Não sinto que tenha um estilo consolidado. Passei muito tempo sem professores, o que acredito que atrasou um pouco meu desenvolvimento como desenhista. Copiei bastante, o que todos fazem e é necessário, mas às vezes acho que faltou analisar mais o que eu copiava, e copiar mais o que eu achava difícil e admirava. Eu não era (ainda não sou) muito paciente, e sou meio ansiosa para terminar algo, ou desanimo quando acho que não estou no caminho certo para algo. Falta eu perder o medo de errar.

DP – Sobre quadrinhos mais especificamente, era algo que você sempre quis fazer? Por quê?

CE – Sim, era um sonho de infância/adolescência, embora nunca me considerasse boa o suficiente para realmente fazer algo. Sempre quis trabalhar em algo que envolvesse as duas coisas favoritas: ler e desenhar.

DP – Junto com seu marido, Paulo Crumbim, você produziu quadrinhos autorais de forma independente. Vocês procuraram alguma editora antes de autopublicar ou optaram por esse caminho?

CE – Optamos por este caminho pois era a trilha que vimos aberta para seguir. Não procuramos editora, pois o exemplo que tínhamos, dos autores independentes que conhecemos no FIQ de 2009 e no Rio Comicon em 2010 eram autopublicados.

DP – Qual a maior dificuldade de lançar uma HQ independente?

CE – Creio que seja ter a disciplina para terminar a HQ, saber que quem faz o prazo é você mesmo. O dinheiro é uma dificuldade na hora de pagar a gráfica, mas é algo mais palpável. Você ter o controle sobre sua produção, de arrumar o tempo de fazer, de postar, conquistar um público é possível só depois que seu trabalho existe e está em algum lugar (provavelmente online) para ser lido.

DP – Por mais que a sua HQ seja independente, é preciso pensar nela como um produto. Você tem isso em mente quando faz os Quadrinhos A2 ou a escolha estética foi baseada somente no que você gosta de fazer?

CE – O traço do Quadrinhos A2 foi algo que saiu da união de meu traço com o do Paulo. O Paulo já trabalhou com design de personagens e tem uma facilidade maior em escolher o visual para um projeto.

DP – Não falando de você especificamente, mas você acha mais importante para o artista trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou é melhor buscar um modelo mais “comercial”?

CE – Creio que dependendo do desejo da pessoa, dê (ou não) para fazer as duas coisas, ir experimentando com o que se quer para si e para o público. Trabalhando com animação, trabalhei no traço determinado no design de personagem, pois eu fazia o clean-up. Nem sempre o que o designer determinava seria o mais “comercial”, como no Segredo de Kells, em que o estilo a ser seguido era mais artístico que comercial (embora seja bem acessível). Mas o artista que sabe o que é importante e verdadeiro para si. Os quadrinhos do Mutarelli, por exemplo, não são comerciais, mas encontraram seu público. Assim como as HQs do Taiyo Matsumoto.

DP – Recentemente você e o Paulo lançaram pela Panini uma história do Penadinho que faz parte da coleção de Graphics do Estúdio do Mauricio de Sousa. Como foi a experiência de produzir essa HQ e repensar personagens tão icônicos dentro do seu estilo de desenho?

CE – Eu cresci lendo Mauricio de Sousa, e foi difícil para mim sair do design oficial dos personagens, o Paulo que fez essa parte de adaptá-los ao nosso estilo. A produção dessa HQ foi um misto de euforia e insegurança, todos os dias pensando se eu estava fazendo um trabalho bom, que estivesse à altura dos personagens.

DP – Qual a diferença na hora de produzir da HQ independente e de um trabalho contratado como esse do MSP?

CE – A principal diferença foi trabalhar com um editor, no caso o Sidney Gusman. Para o Penadinho, o Paulo escreveu um roteiro para aprovação, e depois seguiram também os rascunhos de layout e das páginas finais. O Sidão é um ótimo editor, que fazia comentários pontuais, e foi uma experiência prazerosa. Há também a facilidade de não manter um estoque em casa. Quando é independente, temos que cuidar de tudo, lidar com gráfica, morar com os livros, etc.

DP – O que você tem lido de quadrinhos?

CE – Recentemente: O Escultor de Scott Mccloud, Pílulas Azuis de Frederik Peeters, Meu Pai é um Homem da Montanha da Bianca Pinheiro e Gregório Bert, Navio Dragão da Rebeca Prado, Parasyte do Hitoshi Iwaaki, Sandman Prelúdio do Neil Gaiman e J.H. Williams III, e, meio atrasada, Monster do Naoki Urasawa.

DP – Cite dois artistas que você gosta muito e diga por que.

CE – Naoki Urasawa, pela expressão dos personagens, fora as ótimas histórias em suas HQs.
Lu Cafaggi, pela delicadeza de seu traço sem deixar de ser expressivo, me encanta e surpreende a cada novo trabalho.

DP – Você tem participado de vários eventos de quadrinhos nos últimos anos. Você vê alguma mudança no público leitor?

CE – Sim, o público leitor está mais aberto a descobrir os quadrinhos de autores nacionais. Estão descobrindo que, se não gostam de mangá, ou de super-heróis, pode ter HQs de outros gêneros que podem agradar sendo produzidos aqui, bem pertinho.

DP – Você prefere trabalhar com desenho digital ou mídia tradicional?

CE – Gosto das duas, mas a tradicional dá uma satisfação maior ao finalizar, levantar o papel e ver. O digital dá mais agilidade, facilidade, mas ainda não me acostumei a finalizar nele.

DP – Tem alguma coisa que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

CE – Ter coragem de dar o passo adiante, não se acomodar com o que sabe fazer hoje. Admitir o que não está tão bom, para poder melhorar. Não ter medo nem vergonha de cometer erros.

DP – Para finalizar, quais suas dicas para quem está aprendendo a desenhar ou gostaria de fazer quadrinhos?

CE – Treinar muito, especialmente narrativa se quer fazer quadrinhos, o desenho para que a mensagem que quer passar seja clara, e transmita a expressão desejada.

1999_hq
desenho da artista em 1999
2003_void
2003
2004_perdidos
2004
Captura de Tela 2016-01-05 às 01.28.28
Estudo de 2016
penadinho publicado em 2015
penadinho publicado em 2015

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