Entrevista com Davi Calil



Continuando essa série de entrevistas sobre evolução artística, falei com Davi Calil, um ilustrador, quadrinhista e pintor muito muito bom. Tive a oportunidade de ser aluno dele na Quanta Academia de Artes e aprendi muito no curso (aliás, falei um pouco sobre isso aqui, para quem se interessar).

Aproveitei o conhecimento amplo do Calil e a experiência dele como professor para abordar alguns aspectos que não tinha conseguido cobrir nas entrevistas anteriores.

Fora isso, eu tenho que dizer que vale muito a pena ler essa entrevista pois o Calil foi extremamente generoso nas respostas dele e essa entrevista tem muitas dicas e informações para as pessoas que ainda estão em conflito com o aprendizado e com o estudo de artes.

No final da entrevista você verá algumas artes do Calil, inclusive um desenho dele de 1989, há de convir que tem uma evolução enorme até as páginas da HQ atual dele.

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Sempre lembrando que as entrevistas e outros textos sobre evolução artística podem ser encontrados aqui no pela tag aprendizado.

 

DP – Calil, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho e a pintura. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Calil – Uma coisa puxou a outra, comecei igual todo mundo, desenhando quando criança, copiava todo desenho que via pela frente, do Chico Bento e Tio Patinhas ao Batman e Wolverine, daí pra frente nunca mais parei. Sempre tive apoio dos meus pais, me davam papel e lápis e proporcionaram que eu começasse a estudar com 9 anos de idade num ateliê de Guararema (interior de SP). Lá no ateliê eu comecei a ver os primeiros livros de pintura (Michelangelo, Van Gogh, Frazetta , Norman Rockwell, entre outros). O que mais me impressionava nas pinturas era a ausência de linhas de contorno, ainda não sabia como aquilo era feito e nem que se usava tinta e pincel, mas foi amor a primeira vista, rsrs. Minha formação como pintor foi estudando em diversos ateliês, os professores mais importantes foram o Latorre, Gonzalo Carcamo, Alexandre Reider e Marcus Claudio. Como desenhista/quadrinista (meu desenho amadureceu muito em função da vontade de fazer HQ) meus professores mais importantes foram Marcelo Campos, Octavio Cariello, Roger Cruz e Greg Tocchini. Artistas que mais me influenciaram (além dos meus professores) foram Lelis, John K. (criador do Ren&Stimpy), José Luis Benicio, Akira Toriyama, Cristophe Blain e tantos outros que não vou me lembrar agora.

DP – Você sente que teve algum processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou ou o que atrapalhou na evolução?

Calil – Sim, sempre sinto que demorei mais do que meus amigos pra chegar num estilo pessoal de desenho. Acho que passei muito tempo querendo ser outro artista, rsrs, já quis ser o Cariello, o Roger Cruz, copiava o Norman Rockwell a exaustão. Isso fez com que eu evoluísse tecnicamente, mas ainda assim era uma cópia mal feita dos meus ídolos. Saí desta situação quando parei de copiar e comecei a aceitar que aquela coisa torta que saía no papel era o meu desenho mais sincero, percebi que deveria evoluir a partir daquilo, sem atalhos, sem pular etapas. No começo os desenhos eram ruins de doer, mas aos poucos eles foram melhorando e quando me dei conta já estava trabalhando como ilustrador.

DP – Muita gente fala que o professor sempre aprende ministrando aulas. Você aprendeu alguma coisa ensinando pintura?

Calil – Sim, sempre. Não é que chega um aluno que sabe mais que você sobre pintura e te ensina algo novo, (apesar que isso até pode acontecer). O aprendizado vem pelo fato de que você se vê obrigado a explicar muitas vezes e de forma clara e racional algo que é natural e quase intuitivo. Esse processo fez com que eu esmiuçasse todo meu conhecimento e sintetizasse ao máximo meu processo de pintura. A técnica do Pintura Relâmpago não existiria se eu não fosse professor. A outra forma de aprender com os alunos é que eles vem de áreas muito diversificadas, são, entre outras coisas, ilustradores, tatuadores, fotógrafos, designers, publicitários e também bancários, contadores e até um segurança do metrô, cada um traz sua experiência para a sala de aula e isso faz com que eu esteja sempre aprendendo algo novo.

DP – Qual a principal dificuldade que você vê nos seus alunos? Como superar isso?

Calil – Falta de paciência e perseverança. Sinto que os alunos tem dificuldade de encarar um estudo como estudo, querem sair da sala de aula com uma pintura linda pra mostrar pros amigos ou postar no instagram, rsrs. Acho que no começo o aluno deve encarar o estudo como um lutador de boxe encara um saco de pancada, não é a luta ainda, é treino, e o treino deve ser constante pois os resultados só vem com o tempo. A dica é focar em adquirir quilometragem, dar o seu melhor em cada estudo, mas sem ficar frustrado caso o resultado não saia como o esperado (pois não vai sair mesmo). Li uma vez num livro de animação (não me recordo o nome do autor agora) que dizia que cada um tem 10.000 desenhos ruins dentro de si, e que os desenhos bons só vão sair quando vc gastar os que não prestam, rsrs, gosto desta ideia, acho que com a pintura é a mesma coisa.

DP – Tem alguma coisa que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

Calil – Sim, independente do estilo, achar uma forma de se divertir enquanto desenha, de curtir o processo, de se empolgar com o próprio trabalho. Se a sua produção virar um parto, se o processo for sofrido, vai ser díficil ter longevidade, não vai evoluir e chega uma hora que a pessoa simplesmente para e vai fazer outra coisa da vida.

DP – O desenho é um processo extremamente pessoal e único, como lidar com isso quando se dá aula para um grupo de alunos?

Calil – Então, eu não dou muito pitaco em trabalho pessoal. Vejo da seguinte forma, o desenho e a pintura são formas de expressão (como a literatura por exemplo), na aula eu trabalho mais a alfabetização e a gramática, o bê a bá que vai ajudar a forma única de cada um de desenhar a ter mais força. Por isso que os exercícios são bem impessoais, todos baseados em referências que eu selecionei previamente. Você já conhece de primeira mão, porque estudou comigo, os trabalhos feitos em sala de aula tem como objetivo apenas melhorar a técnica, o caráter autoral é quase zero. Sempre estimulo os alunos a fazerem o trabalho pessoal em casa e me trazer pra ver no inicio da aula, assim dou o mínimo de pitacos e deixo o aluno livre pra seguir o caminho que escolher.

DP – A primeira vez que eu fiz um curso de pintura com você eu percebi imediatamente que o meu desenho melhorou. Você acha que a pintura oferece uma compreensão maior do desenho? Por quê?

Calil – Uma coisa melhora a outra. Pintar melhora o desenho e desenhar melhora a pintura. No seu caso, quando estudou pintura, acho que rolou uma compreensão maior da estrutura tridimensional, uma noção que a mancha da pincelada revela com mais clareza do que a linha de contorno do desenho. Muita gente quando aprende a desenhar, aprende decorando formulas, e na pintura (pelo menos da forma que ensino) eu obrigo o aluno a entender a estrutura tridimensional dentro do plano bidimensional do papel, quando a pessoa saca isso e volta pro desenho ela já não é mais a mesma, rsrs, aquela compreensão do tridimensional vai impregnar no desenho e ele realmente melhora.

DP – E o caminho inverso? Saber estruturar um desenho é importante para a pintura?

Calil – Sim, um dos meus primeiros professores de pintura (Latorre) costumava dizer que desenho é ESTRUTURA e pintura é SENSAÇÃO DE ESPAÇO, ou que desenho é o esqueleto e a pintura é a carne, rsrs. Se a gente não tivesse a estrutura do esqueleto seriamos uns sacos de carne que se arrastaria por aí. A pintura precisa de um bom desenho pra parar em pé.

DP – Qual a melhor técnica para quem nunca trabalhou com pincel começar na pintura?

Calil – Desenhar com o pincel, isso virou até um curso novo. Antes de se aventurar a pintar eu tenho recomendado que os alunos se acostumem a desenhar com o pincel, sem lápis nem borracha, só na tinta mesmo. No começo parece difícil, mas com o tempo fica natural. Daí em diante é muito mais fácil do aluno migrar pra pintura.

DP – No vídeo você fez para a Quanta do seu curso de desenho com pincel você falou que na pintura tem o protagonismo da mancha e no desenho o protagonismo do traço. Mesmo nos quadrinhos que você fez pintado (como o Quaisqualigundum) a linha está lá presente. A linguagem dos quadrinhos pede a presença da linha?

Calil – Boa pergunta. No meu modo de ver, o que determina se uma obra é desenho ou pintura é realmente o protagonismo da linha (essa é uma forma pessoal de ver as coisas, se você conversar com um artista plástico ele provavelmente vai ter outra visão da coisa). Independente da pessoa usar tinta e pincel, se a linha prevalece sobre a mancha eu chamo de desenho, se a mancha prevalece eu chamo de pintura. No caso do Quaisqualigundum, eu diria que fiz um desenho colorido com aquarela e guache. Isso não que dizer que a pintura é melhor que o desenho ou vice versa, são apenas formas diferentes de se expressar. Usar linha é mais prático do que fazer tudo com mancha (principalmente pra cenários), e no caso da HQ que tem uma demanda muito grande por cenas em cada página, eu opto pelas linhas de contorno. Isso não quer dizer que não se possa fazer HQ toda na linguagem da pintura, mas é algo que toma muito tempo, vai do artista arcar com essas consequências, rsrs.

DP – A maioria dos materiais de pintura profissional são importados e portanto caro no Brasil, a pintura óleo em particular demanda um investimento razoável. Isso elitiza a pintura?

Calil – Olha, realmente, material profissional é caro mesmo, ainda mais com o dólar em alta, mas não sei se chega ao ponto de elitizar. Existem opções mais em conta de material para estudantes, guache, acrílica, óleo nacionais (que “dão pro gasto”, rsrs) e opções de suporte, papel, madeira, lona ou papel paraná com gesso acrílico, que permitem que uma pessoa pinte sem precisar investir muito no começo. É claro que se uma hora o artista quiser migrar para o material profissional vai ter que gastar mais, mas daí é a mesma coisa pra pintura digital (se você quer ter uma cintiq e um bom computador), ou pro cara que estuda música e quer ter um violão ou qualquer outro instrumento de nível profissional, vai ter que gastar também. Acho que se profissionalizar em algo é que elitiza, rsrs.

DP -Você trabalha com pintura digital também. É uma questão de viabilidade comercial ou você encontra resultados na pintura digital que não teria na tradicional?

Calil – Não sou purista, adoro novas tecnologias. A gente costuma brincar aqui no estúdio que Cintiq é qualidade de vida, rsrs. Praticamente todos meus amigos já migraram pro digital, agiliza muito o processo. Isso não quer dizer que eu parei de pintar, ou que perdi a mão pro pincel, rsrs, só acrescentei uma nova ferramenta ao meu repertório técnico. Minha próxima HQ, Uma Noite em L’Enfer, é feita 100% digital, só vou fazer a capa e as ilustras de abertura de capítulo na tinta, mesmo assim demorou quase 3 anos pras páginas ficarem prontas. Até o Quaisqualigundum, que foi todo finalizado na tinta, teve a parte dos layouts feita digitalmente. Eu planejei todos os desenhos no photoshop, já separando os espaços para os balões, depois imprimi, passei na mesa de luz e pintei. Quem olha o resultado final não diz, mas photoshop foi essencial para aquela hq sair do jeito que saiu.

DP – Muitas vezes existe uma diferença entre o que o artista gosta/consegue fazer e o que o mercado procura em termos de ilustração, design e quadrinhos. O que você considera mais importante para o artista: trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou buscar um modelo mais “comercial”?

Calil – Pois é, este é o eterno conflito entre ser feliz e morrer de fome ou desenhar o que os outros querem pra poder pagar as contas, rsrs. O ideal é encontrar um equilíbrio, mas acredito ser muito importante investir no trabalho pessoal. Essa coisa de estilo mais “comercial” é uma armadilha, porque a gente nem sabe direito o que é um estilo comercial. Adventure Time é comercial, Ivan Reis também, mas isso não quer dizer que se desenhar de um jeito ou de outro eu vou ter sucesso comercial. Uma coisa é certa, o seu trabalho pessoal é a única chance de conseguir criar algo honestamente seu, mas é um processo demorado, de maturação e síntese, muita gente opta por pular etapas e desenhar igual a fulano ou ciclano. Tive uma fase da vida que queria ser o Roger Cruz e outra que queria ser o Cariello, copiava mesmo esses dois e o máximo que eu conseguia era ser uma cópia. Foi só quando resolvi investir nos meus desenhos tortos é que a personalidade do meu trabalho começou a aparecer. Hoje em dia eu ainda pego um trabalho ou outro com estilo solicitado pelo cliente (geralmente publicidade), mas não posto em lugar nenhum nem mostro pra ninguém, é o tipo de trabalho que faço pra pagar conta, sem nenhum envolvimento artístico.

DP – Cite dois artistas que você gosta muito e diga por que.

Calil – Nossa, são tantos que fica difícil escolher dois, mas vamos lá:

Marcelo Lelis, artista mineiro, ilustrador, quadrinista e mestre na aquarela. Esse é daqueles que eu tenho que olhar só de vez em quando pq se não fico tentado a copiar. Foi um dos artistas que me influenciou muito na época que comecei a investir no meu desenho estilizado. Tudo é incrível no trabalho dele, desenho, cor, narrativa, técnica e ele ainda é um sujeito simpaticíssimo, de uma humildade absurda.

Akira Toriyama, criador do Dragon Ball, acho que dispensa apresentações né?! Sou muito fã do Toriyama, adoro a primeira fase do DB (do Goku criancinha) invejo a mistura perfeita que ele consegue colocar entre humor e ação. As cenas de luta, o carisma dos personagens, as quebras de capítulo, acho tudo perfeito. Tenho um projeto de webcomic que é muito inspirado no trabalho dele, acho que até o fim do ano consigo mostrar alguma coisa.

DP – Para finalizar, quais suas dicas para quem está aprendendo a desenhar ou pintar?

Calil – Produção, produção e produção, rsrs. Como havia dito numa resposta acima, ache uma forma de se divertir enquanto aprende, o caminho a ser percorrido não é curto e a única forma de aguentar o baque é se divertindo ao longo do processo (:

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Desenho do artista em 1989

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