Entrevista com Gil Tokio




Continuando a série de entrevistas e textos sobre aprendizado de ilustração (você pode visualizar todos os posts pela tag aprendizado), fiz uma entrevista com o ilustrador e professor Gil Tokio.

Conheci o trabalho do Gil quando ele tinha terminado a graduação na faculdade de arquitetura (FAU/USP), na época ele tinha publicado de forma independente duas HQs que derivaram das suas pesquisas, uma delas, inclusive, bem peculiar com uma moldurinha de isopor transformando a capa em uma espécie de estojo. Eu guardo pouquíssima coisa em casa, mas eu ainda tenho essas duas HQs.

Depois da graduação ele continuou na FAU e fez o mestrado e escreveu a dissertação Sobre desenho: estudo teórico-visual que pode ser baixada gratuitamente por esse link.

Gil Tokio é sócio fundador do estúdio de ilustração Pingado Sociedade Ilustrativa e professor de desenho na Quanta Academia de Artes e por conta dessa formação ampla, da experiência dele com o mercado de ilustração e da prática pedagógica, o convidei para essa pequena inquisição sobre o processo de aprendizado dele.

Como nas outras entrevistas, no final tem uma série de desenhos do artista de anos variados ilustrando a evolução do traço dele.

 

DP – Gil, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Gil – Bom, o desenho sempre esteve presente na minha vida. Sou filho de arquiteto e artista plástica e em casa temos o hábito de desenhar o tempo todo. Somos em 5 irmãos e só o mais novo não foi muito para esse lado, os demais desenham sempre e inclusive trabalham com coisas relacionadas a desenho.

A minha formação principal foi familiar mesmo, mas também estudei na primeira turma da Fábrica de quadrinhos, atual Quanta Academia de Artes e depois entrei na faculdade de Arquitetura, onde fiz graduação e pós-graduação. Inclusive a dissertação de mestrado foi sobre desenho.

É sempre difícil elencar principais influências. Quando criança eu tinha muito material bom à mão, isso com certeza ajudou. Os livros didáticos ilustrados japoneses eram incríveis, mangá também, gostava dos livros de história da arte da minha mãe, lembro de gostar de Van Gogh, Bosch e Gaudí principalmente. Adorava quadrinhos… na adolescência, nos anos 90, lia heróis americanos, X-Men, Wolverine, essas coisas. Mas tinha 3 quadrinistas favoritos: Laerte, Quino e Ziraldo. Gostava também da Chiclete com Banana, Circo, revista Casseta e Planeta, Niquel Náusea, Heavy Metal…

DP – Você considera que a formação em Arquitetura teve alguma influência no seu desenho?

GT – O curso de arquitetura influenciou e construiu muita coisa em meu desenho com certeza. Conheci muita gente lá, fiz muito quadrinho, vivenciei muita coisa.

Na época da faculdade o leque de influências naturalmente se abriu, as referências começam a ser multidisciplinares, não só de artes visuais, mas também desenhos técnicos, teatro, dança, cinema, música, etc… tudo seguramente influencia o trabalho de desenho, direta ou indiretamente.

Parece um pouco de exagero, mas não é. Por exemplo gostar de Butoh, que é uma espécie de dança, mudou totalmente a minha percepção de expressividade do corpo humano, isso mudou meu jeito de desenhar pessoas. Ou, outro exemplo, o Paul Klee, pintor e professor da Bauhaus, usava música em seus trabalhos de pintura.

DP – Você sente que teve um processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou ou o que atrapalhou na evolução?

GT – Não acho que consolidei um estilo meu, haha. Acho que acabo transitando em estilos diferentes.

Mas com certeza o processo é longo. E digo mais, o processo é infinito. Acho difícil dizer que existe uma linha de chegada. Estudo desenho desde que comecei a desenhar, e isso significa bem mais de 30 anos atrás e não tenho a ambição de chegar um estilo ou a algum caminho específico em desenho.

Eu diria que tudo o que você desenhar e vivenciar vai te ajudar na evolução do desenho. No meu caso, acho que ajudou estudar com pessoas muito legais e conviver com profissionais e estudiosos do meio.

A única coisa que atrapalha é não fazer nada. Costumo falar isso nas aulas, a única maneira de aprender qualquer coisa é fazendo. No meu caso, sei de coisas que gosto e não gosto no meu desenho, mas isso a gente vai administrando.

DP – Trabalhar profissionalmente com ilustração mudou seu estilo de desenho?

GT – Sim, muito. É totalmente diferente produzir algo com uma finalidade específica para outra pessoa. Quando existe prazo, dinheiro, objetivos, a dinâmica de produção de um desenho torna-se diferente.

Foi por causa do trabalho que aprendi a desenhar no computador, usar mesa digitalizadora, usar layers, por exemplo. Em função de cada projeto também aprendi a fazer diversos estilos, tive que desenhar para vários públicos diferentes, mídias diferentes…

Acho que quando você gosta de desenho existem, simplificando o raciocínio um pouco, dois caminhos possíveis de ganhar o pão de cada dia. Ou você trabalha com desenho ou você trabalha com qualquer outra coisa e desenha no tempo que sobra. Sou favorável da primeira opção, pois mesmo que eventualmente existam desvantagens, pelo menos é uma maneira estar sempre desenhando.

DP – Muita gente fala que o professor sempre aprende ministrando aulas. Você aprendeu alguma coisa ensinando desenho?

GT – Muito. De forma geral o ambiente acadêmico é sempre produtivo. Quando você dá aula, precisa organizar o conhecimento de outra forma, mais claramente. Precisa sempre estudar mais também.

Fora isso, a gente sempre aprende com outras pessoas, estar com um grupo de alunos que está pré-disposto a estudar desenho sempre é um privilégio.

Fora tudo isso, na Quanta [Academia de Artes], onde dou aulas de desenho, tenho também o outro privilégio de conviver com um monte de gente boa que eu admiro o trabalho.

DP – Na faculdade você fez alguns quadrinhos para a revista Cogumelo e inclusive apresentou uma HQ bem bacana como trabalho de conclusão de curso, mas nos últimos anos você não investiu tanto nessa área. O que aconteceu?

GT – Boa pergunta, volta e meia alguém me faz ela… deve ser um sinal de que já é hora de fazer quadrinhos!

Bom, acho que fiquei mais exigente com quadrinhos no geral, tanto para produzir quanto para ler. Existem coisas que produzi depois da faculdade, mas ou foram coisas para revistas como a Galileu, Superinteressante ou Nova Escola, ou coisas que não publiquei.

Tenho muitos projetos em andamento e um número maior ainda de roteiros escritos que precisam ser desenvolvidos. Quando começo a produzir acabo parando no meio por não achar satisfatório.

DP – Qual a maior dificuldade de fazer uma HQ?

GT – Acho que o ponto central de qualquer HQ talvez seja a comunicação. É preciso contar bem uma história e ser irresistível ao leitor. Uma boa história não dá para parar de ler. Você tem que terminar de ler e o sentimento que a história despertou tem que ter mudado algo em você. Seja um sentimento de medo, paixão, felicidade, etc, etc…

A maior dificuldade nas HQs hoje, para mim, tanto para produzir quanto para ler, é ter uma história que vale a pena ser contada, que tenha PUNCH, que provoque emoções. Isso vale, na verdade, para qualquer mídia: cinema, quadrinhos, música, fotografia, etc… O que seduz o interlocutor?

Em uma FLIP que eu fui, o Lobo Antunes, escritor português, disse que todo livro é uma metáfora para algo. Ou seja, todo livro tem que, no fundo, dizer alguma coisa. Se não diz nada e só é um amontoado de fatos, isso deixa de ser interessante. Acho que com quadrinhos é mesma coisa, é preciso ter algo relevante para contar, senão vira um exercício de desenhos bonitos, cores legais e fatos irrelevantes…

DP – Muitas vezes existe uma diferença entre o que o artista gosta/consegue fazer e o que o mercado procura em termos de ilustração, design e quadrinhos. O que você considera mais importante para o artista: trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou buscar um modelo mais “comercial”.

GT – Profissionalmente falando são poucos os que têm o privilégio de fazer só o que realmente gostam em termos de desenho. E acho que isso não pode virar uma obsessão. Se você se propõe a ganhar a vida com desenho, é bom estar preparado para fazer coisas de todo tipo. Inclusive algumas coisas que não sejam 100% dentro do seu gosto pessoal.

Isso não significa que trabalhar com desenho não seja legal e, às vezes, esses desafios que deixam o processo interessante. Muitas vezes eu achei que o meu caminho era o melhor, mas é bom lembrar que a pessoa que está te contratando também tem opiniões sobre desenho e podem acrescentar muito.

Mas acho que é essencial dentro do percurso de um desenhista, profissional ou não, a pesquisa por um estilo, ou estilos, que ele goste. Sempre que possível, vale a pena desenvolver caminhos pessoais dentro do seu traço. Para isso concursos, exposições, projetos pessoais, fanzines e, se possível, trabalhos remunerados em que o estilo se encaixa, são sempre bem-vindos.

DP – Na Pingado, cada um dos ilustradores tem um estilo diferente. Vocês sentem uma maior procura por esse ou aquele estilo? Essa procura mudou ao longo dos anos?

GT – Sim, temos estilos diferentes uns dos outros e mesmo cada um de nós às vezes precisa fazer outros estilos. Mas não percebemos diferenças significativas na procura de um ou outro estilo… Acho que sempre há espaço para a variedade de traços.

A procura por estilos específicos não mudou muito ao longo dos anos não… Não que a gente tenha reparado. Acho que a maior mudança foi de mídias, cada vez mais as ilustrações para mídias digitais têm ganhado espaço no nosso dia-a-dia.

Mas de qualquer forma, acho que o fato de fazermos vários tipos de traço ajuda bastante a gente a ter mais possibilidades para oferecer para os clientes e aumenta nossas chances de trabalho.

DP – Qual a principal dificuldade que você vê nos seus alunos? Como superar isso?

GT – Existem algumas dificuldades comuns que percebo nas aulas, mas acho que a inibição de desenhar talvez seja um dos principais.

Um professor meu da faculdade, Silvio Dworecki, sempre falava sobre essa inibição. Há um certo receio de colocar o desenho “para fora”. Existe uma ideia de “não sei desenhar” sempre em nossa cabeça.

Tem aluno que, por exemplo, se a gente deixar, fica uma hora tentando fazer um único desenho, mas passa o tempo mais apagando do que riscando, e, no final, mostra uma folha em branco toda rasurada e diz “não consigo”.

Para superar isso é preciso cultivar o hábito de desenhar, perder o receio, mostrar que é sempre um processo em construção… não tem segredo. É um trabalho que evolui aos poucos, toda aula produzindo e estimulando a produção no dia-a-dia. Desenhar se aprende desenhando.

DP – Tem alguma coisa que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

GT – Fundamental, fundamental mesmo é desenhar e só, hahaha.

Mas acho que também, em linhas gerais, ampliar sempre o repertório cultural, político, social…

Tudo o que puder ser vivenciado de desenho ajuda: vídeos, exposições, amigos desenhistas, professores, livros, etc… Mas não se prender ao “mundo” do desenho também ajuda.

DP – O desenho é um processo extremamente pessoal e único, como lidar com isso quando se dá aula para um grupo de alunos?

GT – Vou acrescentar na sua pergunta a questão do estilo de cada aluno também. Ou seja, cada aluno é um universo em particular, tanto em processo quanto em estilo.

Eu tento valorizar ao máximo essas particularidades, acho essencial que cada aluno se desenvolva dentro do seu ritmo, dentro de suas características.

Quando se trata de um grupo de alunos isso naturalmente fica mais complexo, mas a gente trabalha conversando com aluno por aluno sempre que possível. E sempre tentando manter a “antena ligada” para atender cada um da melhor maneira.

Acho que existem várias maneiras de dar aula, cada uma tem vantagens e desvantagens. Por exemplo, no Renascimento os pintores costumavam estudar como aprendizes, copiando e ajudando um mestre. No meu caso, eu prefiro que cada aluno desenhe tentando achar o seu estilo, dentro de um percurso particular… meu objetivo não é que todos desenhem da maneira como eu desenho, o nosso foco é que cada aluno desenvolva sua maneira de trabalhar e ache seus próprios caminhos; claro que com nossa ajuda, mas sempre estimulando um aprendizado e um entendimento, digamos, de verdade, sem fórmulas prontas.

DP – Você prefere trabalhar com desenho digital ou mídia tradicional?

GT – Depende. Digital é mais prático, rápido e existem efeitos que são viáveis praticamente só no digital. A mídia tradicional eu acho mais prazerosa para trabalhar. Profissionalmente acho que 99% do que eu faço é digital em função da praticidade.

Hoje em dia, quando posso escolher não tenho nenhuma das duas opções como favorita, sei que as duas mídias me atendem bem e é divertido poder usufruir de cada técnica o que ela tem a oferecer.

DP – O que você mais gosta em uma ilustração?

GT – É que existem tantos tipos de ilustração e a gente acaba vendo uma avalanche de referências todos os dias. Gastamos sempre um tempo no estúdio vendo trabalhos de ilustradores, animadores e afins no Youtube, Pinterest, blogs e mesmo no facebook. Cada coisa tem seu valor e ajuda no nosso repertório.

Mas vamos tentar responder: Uma ilustração, por definição, é uma arte aplicada, um desenho que é feito para uma finalidade específica, com um objetivo. Costumo gostar quando esse objetivo é alcançado de forma eficiente.

Outra coisa que me atrai bastante são trabalhos impactantes e originais, se é que isso existe. Gosto de ver caminhos novos, ao menos para mim. Coisas que quebram o que está sendo feito e mostram novas possibilidades. Não necessariamente serão coisas que vou fazer, mas é sempre inspirador ver novidades.

DP – Cite dois artistas que você gosta muito e diga por que.

GT – Aaaahm… só dois? Eu gosto de cada um por motivos diferentes, daria para fazer uma lista de pintores, uma de ilustradores, uma de quadrinistas, uma caricaturistas, cartunistas, etc… Sempre fui contra eleger favoritos para mim. Nunca tive fruta ou cor favorita, ou mesmo melhor amigo, quando era criança, por exemplo.

Mas vamos lá, fazer um esforço e citar só dois então: o Laerte e o James Jean. O primeiro porque sempre foi e é meu quadrinista favorito, o segundo porque eu acho os desenhos dele muito bons, principalmente os sketchbooks.

Mas também tenho um carinho especial por desenhos desconstruídos, quase punks como do Zimbres ou do David Shringley; ou linguagens indefiníveis como do Daniel Bueno. A minha lista de favoritos dá para aumentar bem sem pensar muito: Steinberg, Loredano, Pablo Lobato, Egon Schiele, Takehiko Inoue, Kim Jung Gi, Leo Gibran, Mazzuchelli, Quino, Leonilson, Taiyo Matsumoto, Killoffer, Suehiro Maruo, Manara, Mondrian, Marjane Satrapi, os desenhos futuristas do Sant’elia, Wahrol, Scott C, Scott McCloud, Mignola, Miguelanxo Prado… esses todos são favoritos, mas muito favoritos. Vou parar por aqui, mas com certeza, quando eu reler a entrevista com mais calma vou me sentir chateado por não ter citado outros favoritos!

PS: Cariello, Hugo Pratt, DW, Guazelli, Samanta Floor, Art Spiegelman, Tolousse-Lautrec, Catarina Bessel, Sandra Javera, Escher, Liniers, Fernanda Guedes, Flávio de Carvalho, Rafa Coutinho, Mattias Adolfsson, Chris Ware, Rafel Sica…

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