Entrevista com Octavio Cariello



Já tem pelo menos duas gerações de desenhistas trabalhando ativamente por aí que devem muito, mas muito mesmo para Octavio Cariello. Ilustrador, quadrinhista e escritor de mão cheia, Cariello, junto com Marcelo Campos outros artistas fundaram a Fábrica de Quadrinhos, uma escola/estúdio que depois se desmembrou e deu origem a Quanta Academia de Artes (escola que eu sempre recomendo).

Cariello não só formou grandes artistas, mas um grupo sólido de bons professores que dão aula na Quanta e em outras escolas formando mais e mais alunos a partir essa visão ampla e compreensiva de arte que ele apresenta.

Eu mesmo já fui aluno dele e recomendo muito qualquer curso que se possa fazer com o Cariello.

Em 2016 Octavio Cariello completa 35 anos de carreira e pretende coroar essa data com a publicação de um artbook que será viabilizado por financiamento coletivo (aliás colabore aqui e já garanta o seu, se liga que dá até para ganhar artes originais do artistas colaborando com o projeto).

Leia a seguir uma entrevista com esse artista incrível.

Sempre lembrando que as entrevistas e outros textos sobre evolução artística podem ser encontrados aqui no pela tag aprendizado.

DP – Cariello, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Octavio – Desde criança, eu e meu irmão* desenhamos. Na nossa família, arte era uma presença constante; música, teatro, pintura, HQs e literatura fizeram parte de nosso processo de crescimento e entendimento do mundo. Éramos apaixonados por todo tipo de gibi e líamos tudo o que tínhamos à disposição. Hoje, com a Internet, tudo fica mais fácil. Viver numa capital, naquela época (década de 1960), ajudava muito a ter acesso a publicações daqui e de outros países. Steve Ditko, John Romita, Gil Kane, Alex Toth, Joe Kubert, Jack Kirby nos ajudaram a entender os processos de narrativa sequencial e os grandes ilustradores e pintores, canônicos e clássicos, juntaram-se aos contemporâneos locais (nascemos em Recife, PE) para nos mostrar possibilidades de composição e finalização não sequencial. Antes de me mudar para Sã o Paulo, já era admirador do trabalho de muitos monstros brasileiros como Henfil, Nani, Colin, Luscar, Ciça, Negreiros, Lobo, Colonese e Benício, além dos grandes de fora como Moebius, Caza, Bilal, Mezieres, Manara, Toppi, Wood, Eisner, Niño, McKay e Williamson.

DP – Você tem uma vida acadêmica ampla passando por arquitetura, medicina e letras. Você considera que esse estudo variado teve alguma influência no seu desenho?

OC – Tudo o que a gente pode aprender nos ajuda a entender melhor o mundão que nos rodeia e o nosso mundinho interior; fica muito mais fácil tentar traduzir o que nos é familiar, o que nos toca sem muita estranheza. Desenhar é um processo de tentar dar sentido ao que percebemos dos estímulos consequentes do embate entre esses dois polos, dentro e fora. O estudo e a pesquisa formais são complementos, não o motivo, do mais importante que um desenhista precisa ter: o desejo de contar histórias.

DP – Você sente que teve um processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou ou o que atrapalhou na evolução?

OC – Aos 14 anos de idade, quase todas as características básicas de construção das formas já estavam presentes nos meus trabalhos. De lá até aqui, o que realmente muda (e o que não cessa nunca) é o modo de finalização dessa construção. Ter ouvido as músicas que ouvi, lido os livros que li, assistido os filmes que assisti, visitado as galerias que visitei, e trabalhado com tudo o que trabalhei foi se acumulando para criar um substrato volumoso de onde tiro ideias para histórias, de onde pinço conceitos para fazer escolhas de caminhos a tomar ou a abandonar. Nada me atrapalhou nessa busca, mesmo o que foi impedimento apenas criou possibilidades de explorar novas soluções ou testar saídas prontas para chegar onde eu queria.

DP – Muita gente fala que o professor sempre aprende ministrando aulas. Você aprendeu alguma coisa ensinando desenho?

OC – Há sempre uma pergunta que obriga o professor a repensar a matéria que ele manipula, uma dúvida que o leva a reformular uma explicação, um questionamento que o faz duvidar das obviedades. Quem ensina precisa estar atento não apenas à criação de uma empatia com quem o ouve, nem à pura transmissão de um conhecimento cristalizado. O verdadeiro saber é eternamente cambiável e não se pode basear em hierarquias engessadas, todos participam na criação do entendimento, todos aprendem no processo. Falado assim, parece bonito, mas envolve muito esforço, tanto do professor quanto dos alunos.

DP – Você é um dos fundadores da Fábrica de Quadrinhos que precedeu a Quanta Academia de Artes. Criar a escola, trabalhar nela e formar algumas gerações de desenhistas que hoje têm um trabalho excelente influenciou o seu trabalho pessoal?

OC – Claro! Atentar aos processos de criação de qualquer outra pessoa, profissional ou aprendiz, é uma experiência extremamente rica de surpresas. Qualquer profissional com um mínimo de curiosidade vai repensar seus próprios processos ao se deparar com soluções inusitadas ou o resgate de algo tradicional meio esquecido.

DP – Qual a principal dificuldade que você viu nos seus alunos ao longo dos anos? Como superar isso?

OC – A confusão entre desenho e finalização é, de longe, a mais comum. Estamos num tempo em que o esboço ganhou status de arte finalizada. Cabe a qualquer professor ter clareza ao separar uma coisa da outra e expor as possibilidades de exploração dessa relação sem cercear a criatividade de cada aluno. A segunda questão diz respeito ao desejo de emulação de soluções desse ou daquele artista admirado. É papel do professor expor as possibilidades de descoberta de uma voz própria, sem impedir aqueles alunos que decidirem ser cópias de quem eles quiserem ou coagi-los a fazer o contrário.

DP – O que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

OC – Resumindo: o desejo de contar histórias através do desenho e a sede de buscar modos mais eficientes de o fazer. O estudo de técnicas canônicas e experimentações com técnicas heterodoxas pode ser muito frutífero. Embeber-se em fazeres além do desenho, também.

DP – O desenho é um processo extremamente pessoal e único, como lidar com isso quando se dá aula para um grupo de alunos?

OC – Cabe ao professor expor como as coisas têm sido feitas e tentar explorar alternativas a esses modos de formação do desenho. Cabe a quem estuda abraçar a tradição ou buscar o novo; ambas as posturas válidas e bem-vindas: sem o cânone, perdemos nossa identidade, sem sua quebra, fadamo-nos ao regurgitar sem fim. É o eterno embate entre memória e mudança.

DP – Você tem 35 anos de carreira. O mercado de ilustração mudou muito nesse tempo. Você teve que se adaptar ou a evolução é natural conforme se mantém no mercado?

OC – Além das buscas pessoais, essas que nos movem a descobrir jeitos diferentes de fazer, o mercado exige atenção às modas e as tendências. Vinte anos atrás, muitos profissionais do desenho negavam-se a aceitar a realidade de uma arte produzida com computadores. Não conheço hoje quem não use as maquininhas para, pelo menos, receber propostas e enviar trabalhos prontos. Penso, logo adapto-me.

DP – Muitas vezes existe uma diferença entre o que o artista gosta/consegue fazer e o que o mercado procura em termos de ilustração, design e quadrinhos. O que você considera mais importante para o artista: trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou buscar um modelo mais “comercial”.

OC – Existem nichos para todo tipo de manifestação imagética. Alguns mais lucrativos do que outros, com certeza. Se o projeto pessoal é romântico ao ponto de negar veementemente a interferência do mercado no resultado do trabalho, a intenção será sempre fazer uma arte descolada da realidade em que se vive, sem fruidores reais e, em consequência, com baixas chances de representar mais do que uma dúzia de elitistas pedantes. Se o projeto é comercial ao ponto de acreditar poder agradar a gregos e troianos, a intenção será sempre fazer uma arte sem raízes históricas ou projeções de longo prazo, destituída de conceitos sólidos de construção, baseada apenas na filosofia rasteira do escambo imediato. Público para esses extremos, os há. Deixemos de lado os gênios, essas raras criaturas que costumam ser reconhecidas muito depois de sua morte. Quem consegue acomodar-se no meio parece ter mais chances de fazer arte decente e manter as contas pagas.

DP – Você prefere trabalhar com desenho digital ou mídia tradicional?

OC – Pode escolher as duas opções? Pronto, escolhi.

DP – Você fez HQs e ao longo dos anos viu vários alunos que foram estudar com objetivo de ser quadrinhista. Qual a maior dificuldade de fazer uma HQ?

OC – Tempo e disciplina são necessários pra quem quer fazer qualquer coisa bacana, mas no que concerne aos quadrinhistas, saber administrar o tempo e manter-se disciplinado são questões definidoras de quem permanece nesse mercado ou quem se perde na estrada da História.
Além disso, conhecer a linguagem específica dos Quadrinhos deveria ser uma meta de quem quer se enveredar por aí. Lamentavelmente, há muita gente que acredita que o simples amontoar de imagens adjacentes já definiria o fazer HQs. Pesquisar e estudar é indispensável.

E, por último, entender que a consistência é mais importante do que os valores estéticos. Cada página, cada quadro, cada balão, cada traço e cor deve ser encarado com igual fervor; tudo o que se expõe numa tira ou numa página de HQ deve ser tratado com igual zelo. Desleixo é quase imperdoável.

DP – O que você mais gosta em uma ilustração?

OC – Da adequação ao tema explorado, da construção visivelmente segura das formas e do uso equilibrado da palheta de cores.

DP – Cite dois artistas que você gosta e diga por que.

OC – Laerte Coutinho, uma artista completa que prova, dia a dia, que menos é mais, e Sergio Toppi, que provou que o excesso não precisa ser um problema.

DP – Em 35 anos carreira, qual foi a coisa mais importante que você aprendeu.

OC – Que o meu trabalho pode ser tão interessante como o dos outros e que isso não é desculpa para não tentar fazer melhor da próxima vez.

 

Conheça mais do trabalho do artista aqui cucomaluco.deviantart.com / cucomaluco.wordpress.com / www.wattpad.com

 

*Nota: Irmão do Octavio é o também quadrinhista Sergio Cariello. Recentemente foi publicado no Brasil a Bíblia em Ação desenhada por ele.

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O que ler de Octavio Cariello

Tueris (romance excelente do autor)
Rei Lear (adaptação escrita por Jozz com arte do Cariello)
H.P. Lovecraft: The Alchemist (HQs em inglês com arte do Cariello)
H.P. Lovecraft: Beyond the Wall of Sleep (HQs em inglês com arte do Cariello)
H.P. Lovecraft: The Lurking Fear (HQs em inglês com arte do Cariello)
H.P. Lovecraft: The Tomb (HQs em inglês com arte do Cariello)