Entrevista com Rodrigo Yokota (Whip)



Mais uma entrevista da minha série investigativa sobre a formação de um artista. Agora começo a abrir um pouco o leque para outras formas (suportes) de ilustração, no caso o graffitti.

Rodrigo Yokota, vulgo Whip, é um artista assustador. Há algum tempo eu sigo o trabalho dele pelas redes sociais, já fui em uma exposição individual dele e sempre me impressiono com a versatilidade com que ele transita por diversos tipos de tintas e suportes, com a expressividade do desenho dele e, principalmente, com o volume da produção desse artista (Veja alguns trabalhos no site dele).

Obviamente que eu precisava entrevistar um cara assim e entender como é o processo de evolução desse artista.

Como sempre, no final tem algumas ilustrações de épocas diferentes para demonstrar a evolução do artista, como extra, acrescentei um vídeo bem bacana feito pela cerveja Desperado mostrando um pouco mais do trabalho do Rodrigo.

Lembrando que as entrevistas e outros textos sobre evolução artística podem ser encontrados aqui no pela tag aprendizado.

 

DP – Rodrigo, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho e a pintura. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Rodrigo – Comecei muito cedo, meu irmão mais velho, o Hamilton (Titi Freak), entrou para os estúdios Mauricio de Sousa com 13 anos, eu tinha 4 nessa época, então cresci vendo ele e meus outros irmãos desenharem. Sem dúvida, que desenhar, era a brincadeira favorita em casa. Mas minha primeira aula de desenho veio muito tarde, quando estudei computação gráfica no Japão em 2005, se não me engano. Minhas influências sempre mudaram, vão de personagens da Disney e Warner, passando por super-heróis, desenhos japoneses, graffitti até pinturas clássicas.

DP – Você sente que teve algum processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou ou o que atrapalhou na evolução?

RY – Eu sempre gostei de ser livre e experimentar bastante, isso me colocou diante de situações onde aprendi muitas coisas, boa parte delas tiveram ligação direta com meus desenhos e pinturas, são vários processos, estou em algum neste exato momento, acredito que tudo isso ajudou na minha evolução, não gosto de pensar que tal coisa atrapalhou, se atrapalhou, é porque foi pra me ajudar. Eu pude aprender com pessoas que possuem muito conhecimento e estudei muitos livros sobre desenho e pintura, ambos, me ajudaram bastante.

DP – Tem alguma coisa que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

RY – Gostar muito de desenhar (mas muito mesmo) e de aprender também, além de sinceridade.

DP – Já vi ilustração sua em spray, gouache, aquarela, óleo, lápis, caneta e digital. Qual dessas mídias você prefere? Por quê?

RY – Não existe uma que eu prefira em especial, por que cada uma delas me acolhe de um jeito diferente, e eu gosto de como cada uma delas faz isso. O spray me possibilita produzir imagens maiores e rápidas de forma mais agressiva, o gouache e a aquarela são tão versáteis e fáceis de carregar, além de possuírem distintas texturas, e assim vai…

DP – Como você seleciona a material para cada ilustração?

RY – Geralmente uso o que está mais perto e acessível, quando é algum trabalho encomendado, geralmente eles já escolhem o material por mim.

DP – Você sente uma diferença muito grande na troca de material? Chega a ter um estilo diferente para cada suporte?

RY – Acho que sim, porque me expresso diferente com cada um deles, mas não é algo que faço com plena consciência, é o material que acaba ditando o jogo.

DP – Você faz muitos autoretratos. Por que essa preferência de se usar como tema? Você faz os autoretratos com espelho, foto ou trabalha em cima de um design que você já consolidou para si próprio?

RY – Acho que é porque é o tema que eu mais compreendo (ou o que eu quero mais compreender) tipo uma auto-ajuda haha, já fiz com espelho, foto e de cabeça, mas não tenho nenhuma regra, quando sinto que quero fazer algum, apenas pego o que tenho em mãos e faço.

DP – Você com o pseudônimo de Whip e o seu irmão Titi Freak são mais conhecidos pelo trabalho de graffitti. Por que fazer graffitti?

RY – Eu acabei começando a fazer mais por influência do Titi, coisa de irmão mais novo querendo ser o irmão mais velho, e sempre me diverti muito, faço porque a sensação é ótima, estar na rua, do lado de fora, as vezes é melhor que ficar dentro de casa pintando, as vezes eu preciso disso, hoje em dia não faço tanto, então sacio a vontade da rua fazendo “plen-air” [pintar ao ar livre], ou apenas saio pra caminhar, antes eu gostava de deixar minha marca, hoje, nem tanto.

DP – O que seria um “bom graffitti”?

RY – Um bom graffiti, pode ser um graffitti ruim, mas isso depende do gosto da pessoa. =)

DP – Tem que saber desenhar para fazer um graffitti legal?

RY – Um graffitti legal, eu vejo como um graffitti que foi feito com autorização, mas se a pessoa souber desenhar, acho que pode ficar bonito e prazeroso aos olhos das pessoas.

DP – O graffitti é relativamente caro de fazer (qualquer tinta é “cara”), arriscado em vários sentidos e muitas vezes mal visto pela sociedade. Com tudo isso, vale a pena?

RY – Não é caro não, você pode fazer vários desenhos com apenas uma lata de spray, que custa uns 13 reais, ou uma lata de latéx, rolinho e pincel também funcionam e são acessíveis. O graffitti já foi mal visto pela sociedade, mas quando eu comecei, muitas pessoas já conheciam e gostavam, e hoje em dia é muito bem visto na sociedade, apareceu até na novela já, hehe. Agora se vale a pena, depende de muitas coisas, para mim, sempre valeu a pena, foram experiências que me tornaram o que eu sou hoje e sou muito grato por isso.

DP – Nas últimas décadas teve uma mudança enorme na percepção do valor artístico do graffitti, essa mudança ajudou ou atrapalhou você de alguma forma?

RY – Acho que todo tipo de mudança, seja interna ou externa, me ajudam de certa forma, então penso que sim, quanto a percepção do valor artístico do graffitti, eu vejo que ele se expandiu, são mais pessoas fazendo, apreciando, consumindo, vendendo e comprando, mas de certa forma, não vejo influência disso em meu trabalho, Apenas algumas vezes de forma temática.

DP – O graffitti teve alguma influência no seu estilo de desenho?

RY – Sim, quando comecei a fazer, sempre olhava revistas de graffitti, e alguns trabalhos e artistas me chamavam bastante atenção, eu estava impressionado com esse universo, e com muita vontade de pintar na rua. Tudo isso transformou meu desenho, mas ele sofreu muitas outras transformações depois.

DP – Muitas vezes existe uma diferença entre o que o artista gosta/consegue fazer e o que o mercado procura em termos de ilustração, design e quadrinhos. O que você considera mais importante para o artista: trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou buscar um modelo mais “comercial”?

RY – Eu acho que se ele precisa pagar contas e sobreviver nesse mundo consumista em que vivemos, ele necessita dominar o modelo “comercial” e ao mesmo tempo trabalhar no estilo que ele gosta, se um dia ele pegar um trabalho onde possa fazer esse estilo, sorte! =)

DP – Você postou umas duas tiras recentemente, você tem vontade de fazer quadrinhos?

RY – Eu penso nisso, se algum dia surgir uma oportunidade interessante, farei sim, por enquanto faço apenas por satisfação pessoal.

DP – Cite dois artistas que você gosta muito e diga por quê.

RY – Eu gosto bastante do Edward Munch e do Vincent Van Gogh, ambos sofreram tanto, e mesmo assim produziram obras sinceras que realmente me emocionam.

DP – Para finalizar, quais suas dicas para quem está aprendendo a desenhar, pintar ou graffitar?

RY – Estudar e praticar muito! não tem erro. =)

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