Entrevista com Tainá Camilo



Prosseguindo o passeio pela trajetória no aprendizado do desenho de vários artistas hoje veremos uma artista que usa um suporte diferente e definitivo: a pele.

Tainá Camilo é desenhista, ilustradora e se enveredou para a tatuagem recentemente. A exemplo das outras entrevistas conversei com ela sobre o aprendizado e a relação dela com o traço. No final temos os tradicionais desenhos antigos até os mais recentes para ilustrar a evolução da artista.

Quem quiser acompanhar o trabalho dela siga a garota no instragram @tainacamilo e quem sabe você já encontra a artista para a sua próxima tatuagem.

Lembrando que as entrevistas e outros textos sobre evolução artística podem ser encontrados aqui no pela tag aprendizado.

 

DP – Tainá, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Tainá – Comecei a gostar de desenhar quando assistia Cavaleiros do Zodíaco, minhas principais influencias na época foram Yuyu Hakusho, Sailor Moon, Evangelion e vários mangás/animes da época. Meu grau superior é incompleto (audiovisual), sempre quis trabalhar com cinema mas no meio do caminho desisti e resolvi fazer cursos em escolas de arte, tive aula com o Davi Calil, Mike Azevedo e Carlos Luzzi, que foram fundamentais para minha atual formação.

DP – Você sente que teve algum processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou e o que atrapalhou na evolução?

TC – A evolução é nítida a partir do momento que você se dedica e estuda muito, aprendi e penso que vamos passar a vida toda aprendendo e isso é muito bom. Passei por vários estilos até me encontrar e saber o que realmente gostava. Passei muitos anos sendo autodidata, até que em um certo momento fiquei bloqueada e senti que minha evolução maior veio após o curso com o Carlos Luzzi, que é sensacional e indico pra todos que queiram aprender a desenhar.

DP – Tem alguma coisa que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

TC – Força de vontade e dedicação. Além disto acho importantíssimo estudar, hoje temos escolas com profissionais excelentes para transmitir todo o conhecimento deles e ajudar a galera que quer evoluir e entrar no mercado.

DP – Além de ilustradora, você é tatuadora. Você foi trabalhar com tatuagem por que gostava de desenhar ou investiu no desenho para tatuar?

TC – Sou muito nova no meio de tatuagem, tatuo há 7 meses haha. Decidi ser tatuadora porque estava cansada do trabalho com publicidade e meus amigos falavam que eu deveria ir pra área da tatuagem. Na verdade via muito tatuador que é bom de aplicação mas não tem conhecimento com a estrutura dos desenhos, anatomia, e acabavam fazendo trabalhos feios. Ficava indignada porque tatuar é desenhar e muitos não se importam em se aprofundar no conhecimento do desenho. Me preocupo muito com a estrutura das artes e resolvi usar isso como um diferencial.

DP – Não é exatamente obrigatório saber desenhar para tatuar. Além da liberdade de criar as próprias tatuagens, no que a habilidade do desenho ajuda o tatuador?

TC – Dentro do mundo da tatuagem existem vários estilos e assim como eu disse, acredito que é preciso sim saber desenhar, pra formas simples saber desenho e entender como funciona faz toda a diferença. Todo tatuador deve aprender a desenhar antes de tatuar, isso enriquece o trabalho. Hoje temos muitos tatuadores bons que são ótimos ilustradores e o resultado são tatuagens lindas.

DP – Já vi um esboço lindo seu que depois virou tatuagem. Quando você desenha uma proposta de tatuagem você pensa nela como algo que terá que ser reproduzido com uma ferramenta diferente ou qualquer desenho pode ser transportado para uma tatuagem?

TC – Essa pergunta é interessante porque antes de começar a tatuar eu pensava que qualquer desenho poderia ser tatuado, mas não é bem assim. Quando desenvolvo um desenho pra tatuagem procuro pensar na forma que ele vai se encaixar no corpo da pessoa, gosto muito de trabalhar com linhas e tento fazer um trabalho que fique bonito na pele. Aprendi que temos que pensar como a tatuagem vai ficar futuramente, ela não terá a mesma aparência do dia que foi feita. O importante é fazer um trabalho que mantenha um bom resultado com o passar dos anos.

DP – Além da questão de não se poder errar, tem diferença entre usar papel/caneta e pele/agulha?

TC – Tem sim, muita diferença. É outro material, é mais sensível, cada pessoa tem um tipo de pele, o local tatuado também faz toda a diferença. Tudo tem que ser feito com muito cuidado pra não machucar demais a pele, não dar queloide. É um trabalho que tem que ser feito com paciência, levando em consideração as particularidades de cada cliente.

DP – Existe alguma mídia/suporte que é equivalente ao processo de tatuagem (em termos de absorção de tinta, criação de manchas, linhas, etc)?

TC – Antes de tatuar em pele humana existem alguns materiais que usamos (EVA, pele de porco, melão, laranja) e o que mais chega perto é a pele do porco.

DP – Você tem um estilo diferente para seu trabalho como ilustradora e para o trabalho como tatuadora?

TC – Procuro fazer uma mistura. Quando ilustro atualmente procuro um trabalho mais solto, pra praticar sempre e não deixar a mão enferrujar. Quando ilustro pra tatuagem penso no desenho na pele e contraste de linhas mais grossas e finas que ajudam a dar volume nas tattoos.

DP – Na sua opinião torna um desenho legal?

TC – Os estilos são tão variados que uma boa estrutura, composição e criação fazem toda diferença pra um desenho legal.

DP – E o que torna uma tatuagem legal?

TC – Várias coisas, entre elas escolher um bom tatuador que faça um bom trabalho dentro do estilo que o cliente busca e escolher um lugar do corpo que a tatuagem encaixe. Muitas vezes eu vejo tatuagens que não acho bonitas, mas o trabalho é tão bem feito e o lugar é tão legal que fica impossível não elogiar.

DP – O trabalho de caligrafia e tipografia é muito usado tanto em tatuagens quanto em ilustrações. Você cria letras próprias para trabalhos ou trabalha em cima de fontes existentes?

TC – Eu não trabalho com tipografia/caligrafia, tem tatuadores específicos que fizeram/fazem curso e são muito bons nesse estilo. Só faço escrita quando a pessoa já tem uma fonte definida. Caso contrário, sempre indico o profissional que é especialista.

DP – Nas últimas décadas teve uma mudança enorme na percepção do valor artístico da tatuagem e a tatuagem virou algo como as roupas que têm modas e tendências. Isso influencia o seu trabalho de alguma forma?

TC – De maneira nenhuma, não acredito que tatuagem seja moda. Penso que as pessoas estão mais abertas a esse tipo de arte que antigamente era tão discriminado. Com essa valorização artística da tatuagem, podemos perceber um menor preconceito e assim meu trabalho pode ser influenciado apenas por aumento da demanda de clientes interessados, mas não em relação a alguma tatuagem/desenho que está na moda naquela época, me preocupa mais em fazer uma arte única para cada cliente.

DP – Muitas vezes existe uma diferença entre o que o artista gosta/consegue fazer e o que o mercado procura em termos de ilustração, design e quadrinhos. O que você considera mais importante para o artista: trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou buscar um modelo mais “comercial”?

TC – Acho que trabalhar com o que gostamos mesmo que seja difícil encontrar um público nos dá uma realização maior. Mas se a pessoa busca uma realização financeira rápida e não se importa em buscar o modelo comercial também não vejo problema.

DP – Cite dois artistas que você gosta muito e diga por quê.

TC – Diana Severinenko (tatuadora e ilustradora). Gosto muito do resultado que ela consegue na pele, é algo que busco estudar muito para meus trabalhos.

Carlos Luzzi- Não só por ter sido meu instrutor, mas pelo conhecimento que ele tem em relação a ilustração, é admirável.

DP – Para finalizar, quais suas dicas para quem está aprendendo a desenhar, pintar ou tatuar?

TC – Estudar, praticar e sempre buscar evolução. Estude sempre e pratique sempre que tiver tempo. Dedicação leva ao sucesso e a realização.

 

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