Entrevista com Thiago Spyked



 


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Nos últimos anos o youtube vem crescendo em relevância e os produtores de conteúdos diversos abrem canais cada vez mais específicos.

Um dos caras que eu redescobri pelo youtube é o Thiago Spyked, lembro de anos atrás ter lido uma HQ dele, a Rafe, e se não me falha a memória cheguei a encontrar ele e seu cabelo espetado em um ou outro evento de quadrinhos.

Como todo mundo que estuda desenho eu tenho as mais diversas dúvidas e materiais de trabalho sempre foi uma coisa que me gerava muitas perguntas. Você pode trabalhar com qualquer material, mas tem coisas que facilitam ou melhoram a vida, só que você não sabe, ou não quer se aventurar gastando um dinheiro em algo que talvez não sirva para você.

Nessas pesquisas eu encontrei o canal do Thiago e me tornei um dos seus mais de 72 mil inscritos e sempre assisto os vídeos que ele posta.

Então, continuando minha série de entrevistas sobre evolução artística falei com Thiago Spyked, esse cara que tem ajudado tanta gente com seus mais diversos vídeos.

No final da entrevista você verá algumas artes dele, inclusive alguns cadernos de quando ele era mais novo, mostrando o quanto a pessoa pode evoluir com um trabalho sério.

Sempre lembrando que as entrevistas e outros textos sobre evolução artística podem ser encontrados aqui no pela tag aprendizado.

DP – Thiago, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Thiago Spyked – Eu sempre gostei de desenhar e principalmente de ler gibis. Eu era uma criança empolgada com os primeiros anos da escola porque queria aprender a ler para poder apreciar os meus quadrinhos. De toda minha produção da infância/adolescência vou destacar duas: a primeira era um caderno com capa do Sonic que ganhei da minha mãe, eu determinei que aquele seria meu caderno de desenhos. Enchi todas as 100 páginas com desenhos e tenho ele guardado até hoje. A segunda produção que destaco é uma série em quadrinhos chamada Rayzer, um personagem “simulacro” de Megaman. Essa série teve 4 edições com 200 páginas cada. Sempre tive em mente que meu sonho era me tornar um autor de quadrinhos quando crescesse.

Quanto a minha formação, tenho bacharel em Desenho Industrial especializado em design gráfico pelo Mackenzie e mestrado em comunicação pela Universidade de São Paulo. Minhas influências são as mesmas de todos os garotos dos anos 80 e 90, videogames, desenhos animados, dinossauros e gibis.

DP – Você sente que teve algum processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou ou o que atrapalhou na evolução?

TS – Eu só tive a oportunidade de ter aulas de desenho aos 18 anos, até então, sempre fiz tudo do meu jeito com o que tinha. Embora pareça uma coisa precária, eu acho que isso me amadureceu de uma maneira indireta. Quando eu tive contato com professores, eles me diziam que eu tinha uma certa facilidade em compreender certas técnicas. Por essa razão sempre estimulo crianças e adolescentes a seguirem seus impulsos e desenharem o que lhes der na telha. Eu tive o privilégio de ter conhecido bons mestres que me orientaram adequadamente com relação a práticas de mercado e como lidar com o desenho na profissão. Eu nunca fui muito de copiar desenhos, sempre vi a prática do desenho como uma maneira de representar uma realidade imaginária, acho que isso acabou traçando o meu caminho no processo de aprendizado. Sempre segui aquilo que me empolgava.

Uma coisa que me atrapalhou por um tempo foi justamente a desatenção para alguns detalhes mais estruturais. Por focar demais nas ideias que queria colocar no papel, eu cometia alguns erros básicos em meus primeiros trabalhos. Obviamente, fui amadurecendo e procurei fortalecer esse meu ponto mais fraco, aliando o impulso criativo com os cuidados técnicos necessários para chegar a um resultado mais satisfatório.

DP – Você é ilustrador e quadrinhista. Tem uma diferença na forma de pensar o desenho para ilustração e para a HQ?

TS – Certamente! A ilustração é uma maneira de um artista representar uma ideia ou conceito. Geralmente associam a ilustração somente ao desenho, mas é possível fazer ilustração com fotos, maquetes, recortes e muitos outros elementos visuais. Já os quadrinhos eu os entendo como uma linguagem autônoma que trabalha com códigos pictóricos e linguísticos. Diferente da ilustração que é voltada para representar ideias ou conceitos, os quadrinhos trabalham a narrativa visual do tempo através do espaço. Um bom quadrinista é aquele que domina os códigos dessa linguagem a fim de contar sua história. Nem sempre um bom ilustrador será um bom quadrinista.

DP – Você sempre quis fazer quadrinhos? Por quê?

TS – Sim, desde muito criança. Não existe uma justificativa racional para explicar o meu amor pelos quadrinhos. Acho que todos nós temos nossas preferências e sonhos, o meu sempre foi o de fazer quadrinhos. Hoje eu entendo um pouco melhor sobre o que é a “mágica” que a arte sequencial proporciona. Concordo com McCloud quando ele diz que a linguagem dos quadrinhos é capaz de expressar infinitos universos e possibilidades. A força que os quadrinhos possuem para influenciar as pessoas é imensa e isso já foi comprovado em todo o mundo. A arte tem potencial para mudar o mundo e os quadrinhos fizeram isso e continuam fazendo. Como um artista, eu tenho ideias que quero compartilhar com meus semelhantes, e isso vai desde uma piada até uma mensagem mais profunda para propor uma reflexão.

DP – Qual a maior dificuldade fazer uma HQ?

TS – No Brasil em particular, eu destacaria a inexistência de uma cultura de consumo e de produção nacional. Essa condição acarreta na inexistência de diversos agentes favoráveis a uma possível formação de mercado de produção nacional. Não há editoras com enfoque em publicações nacionais, a distribuição é monopolizada, o que dificulta para pequenas empresas entrarem no ramo, a publicação de um material estrangeiro é muito mais barata do que investir em uma produção nacional, em suma, um autor que deseja publicar seu trabalho fica praticamente sem condições de competir.

O que tem mantido e feito as produções nacionais crescerem nos últimos anos tem sido o esforço e fé dos próprios artistas nacionais. Nunca houve tantos artistas acreditando no leitor brasileiro como na atualidade. Seria lindo poder pensar unicamente como artista e focar todas as minhas energias em fazer uma HQ de qualidade, mas nesse momento isso é insuficiente, pois precisamos ir além. O quadrinista que deseja investir no seu próprio projeto precisa saber vender, se divulgar, lidar com o público, montar sua loja na internet, negociar com pequenos distribuidores e lojas locais, participar de eventos e principalmente empreender!

DP – Um dos tópicos que eu acho mais interessante no seu canal Crás Conversa são as dicas e análise de materiais. Por que você começou a fazer esses vídeos?

TS – Eu também sou professor e gosto de falar de artes. No ramo do desenho e dos quadrinhos há uma grande carência de informações. O youtube foi uma maneira de atingir as pessoas conversando sobre coisas que gosto, no caso, o desenho, os quadrinhos e as “aventuras” da profissão. Eu defendo que o conhecimento deve ser sempre compartilhado, pois ele nos liberta, nos torna convictos e mais fortes. Sempre acreditei que o público que se interessaria pelos quadrinhos estava em algum lugar, eu só precisava encontrá-los.

Eu canso de ver pessoas reclamando que as artes no Brasil sofrem constantes humilhações, que o brasileiro não valoriza a cultura, etc, etc e etc. O ponto que eu sempre ressalto é: ok, esse lado negativo existe, mas alguém precisa que fazer alguma coisa! Essa é uma das razões do porquê mantenho o Crás Estúdio e Editora, pois é a minha maneira de contribuir. Eu gostaria de ver esse quadro mudando para melhor e de ver a profissão quadrinista se tornar viável a partir da formação de uma cultura de consumo. Pela primeira vez, em mais de 10 anos fazendo HQs eu consigo ver algo que parece uma luz no fim do túnel.

Outro ponto que me motiva a continuar com esse trabalho é o fato de eu acreditar no leitor brasileiro. Mesmo que comece com uma comunidade pequena, eu tenho certeza que existem brasileiros que apreciam a arte e a cultura e que não irão olhar para o artista nacional com cinismo e desdém.

Quando comecei o trabalho com o youtube, achei que meu canal chegaria a no máximo 25.000 inscritos. Hoje, temos mais de 70.000 e ultrapassamos 4.000.000 de visualizações. Obviamente se comparar as visualizações dos meus vídeos com o de grandes canais de games ou de conteúdos mais gerais, esses números são bem pequenos. No entanto, estou lidando com um assunto mais específico e atingindo diretamente os interessados pelo tema. Essa marca comprova a potencialidade do que é falar de desenho e quadrinhos no Brasil. Sou de opinião que a internet é o caminho para que o artista nacional encontre seu público e viabilize seus projetos. Existem diversas ferramentas internacionais que podem ajudar o artista brasileiro a atingir seus objetivos como abrir uma campanha de crowdfunding, blogs de tiras e até fanpages. Eu escolhi o youtube como ferramenta principal de comunicação. Cabe a cada artista fazer uso dos dispositivos que achar melhor.

DP – Analisar, testar e vender materiais de desenho mudou algo na sua forma de trabalho? Você aprendeu algo com essas experiências?

TS – No ato de desenhar em si não mudou muito, mas no lado do Thiago como empresário mudou bastante. Hoje eu conheço os principais fornecedores de materiais artísticos do país e eles também já assistiram aos vídeos que produzo. Ter acesso a esse tipo de material para fazer vídeos e revendê-los estimula o mercado de materiais artísticos e amplia o conhecimento das pessoas sobre eles. Acredito que muita gente nem mesmo deveria saber da existência de certos materiais no Brasil antes de assistirem a um vídeo meu no youtube (não falo isso por arrogância, mas por feedback dos inscritos). Como um empreendedor, vi uma oportunidade de negócio a partir do canal que criei. Hoje, a venda de materiais artísticos ajuda muito a manter os custos da produção quadrinística.

DP – O material profissional no Brasil é relativamente caro e as lojas especializadas se concentram basicamente em São Paulo, Rio de Janeiro e algumas poucas outras capitais. Você acha que isso elitiza o estudo do desenho?

TS – Infelizmente a falta de acesso a materiais ou cursos profissionalizantes em cidades que não sejam as grandes capitais é uma realidade no Brasil. Dizer que isso elitiza o estudo do desenho, a meu ver, é uma palavra muito pesada. Eu diria que isso dificulta o acesso a certas orientações mais especializadas. Cada um tem sua realidade, para alguns é facilitada e para outros mais difícil. Eu acredito que não existem limites quando há força de vontade. Conheço pessoas que tem de tudo e são dominados pela preguiça e comodismo, da mesma forma que já tive alunos que saíram do interior, buscaram escolas, se dedicaram aos estudos e alcançaram seus objetivos. Eu penso que isso vem muito da vontade de cada um, não é porque uma pessoa nasce longe das grandes capitais que ela será impedida de se tornar um desenhista.

Agora, com relação ao custo altíssimo de algumas faculdades (soube de uma que está cobrando R$3.000,00 por mês) aí sim eu posso dizer que a formação acadêmica tem sido elitizada. Eu costumo dizer que o conhecimento é gerado não pelo o que o curso vai fazer pelo aluno, mas pelo que o aluno vai fazer do curso, portanto, existem diversos caminhos para que uma pessoa busque o conhecimento e o aprendizado.

DP – Já vi um vídeo seu falando que a pessoa não deveria se colocar um rótulo, mas o seu trabalho é mais focado no estilo do mangá. Isso era um objetivo ou é um gosto pessoal que direcionou naturalmente o seu desenho?

TS – A ideia de um rótulo surge a partir da assimilação pré-concebida do senso comum. Na minha visão, o rótulo sempre caracteriza uma visão superficial acerca de um assunto. O rótulo no desenho implica em associar elementos gráficos de forma repetitiva a fim de enquadrá-los dentro de um padrão. Por essa razão que eu penso que o artista se rotular é um grande erro. Em outras palavras, se rotular é se limitar. Um artista deve resolver sua arte da maneira que achar mais adequada para expressar aquilo que deseja, o sucesso ou insucesso está em atingir ou não seu objetivo. Seja lá quais forem as influências que ele tenha, o artista é livre e não deve se rotular, o público fará isso por ele.

Eu já ouvi diversas opiniões a respeito do meu trabalho, desde os que dizem que é “estilo mangá” até que meu traço é “estilo turma da Mônica” (a clássica, não a jovem. Sim, acredite, e não foi só uma vez). Meu desenho é meu desenho, portanto deixo a julgamento do público se irão chamá-lo de mangá, de cartoon ou de misto. Obviamente, não nego a influência dos mangás, pois eu os adoro assim como aprecio todas as histórias em quadrinhos.

Destaco que o rótulo, por si só, não é algo negativo. Penso que ele é necessário numa sociedade e pode ser utilizado até mesmo como artifício na comunicação ou como elemento estratégico.

DP – Por ter começado a tirar dúvidas das pessoas, você passou a receber cada vez mais dúvidas. Tem um padrão entre o que as pessoas perguntam?

TS – Algumas perguntas se repetem bastante, principalmente as que são genéricas e abrangentes. Por exemplo: O que fazer para melhorar meu desenho? A resposta é treine e estude. Eu tento nos vlogs destacar que as melhores perguntas são as mais objetivas, pois permitem respostas mais precisas. De uns tempos para cá tem surgido umas perguntas mais elaboradas e específicas, o que me permite ser mais objetivo na resposta.

Outro padrão de perguntas que repetem muito são questões relacionadas ao sucesso. Como ter sucesso sendo desenhista? Como ter sucesso com minha HQ? Para essas pessoas eu sempre peço um esclarecimento sobre o que seria esse sucesso a que elas se referem. Em uma live com o Daniel HDR, nós discutimos sobre esse assunto e destacamos que o sucesso é poder viver fazendo aquilo que se ama.

Apesar desse esclarecimento, eu senti que muitos não compreenderam a mensagem. Não culpo quem entende que o sucesso é “ser rico, famoso e formador de opinião”, isso é consequência de vários fatores como, por exemplo, da nossa sociedade de consumista, do “deus mercado” e da busca insana por status e valores sociais (que vão no sentido oposto da liberdade artística e intelectual do indivíduo).

DP – Alguma pergunta que você respondeu te fez pensar sobre seu próprio trabalho e mudar algo no seu processo?

TS – Não diria que foi alguma pergunta em particular, mas todo o feedback do público também nos molda na maneira de conceber nosso trabalho. Isso acontece principalmente nos vídeos. Por exemplo, o humor como elemento para transmitir minha mensagem foi algo que funcionou. As pessoas gostaram e compreenderam o que foi dito. Por essa razão, o humor é um elemento que eu busco explorar sempre que possível. Se a recepção tivesse sido majoritariamente negativa, eu teria moldado os vídeos para outro formato.

DP – Você criou uma editora para publicar as suas HQs e de outros autores. Como é para você editar o trabalho de outros autores? Você interfere muito?

TS – No caso da Crás eu sinto como se cada obra também me representasse. Não que eu me sinta como um co-autor, mas como responsável pela cria do grupo. No início, os quadrinhos tinham uma produção mais individual de cada autor e conforme os anos foram passando todos os trabalhos passaram a ser reeditados para um novo padrão de publicação. Atualmente eu interfiro consideravelmente na supervisão dos projetos, desde o roteiro até a revisão e impressão.

DP – Não falando de você especificamente, mas você acha mais importante para o artista trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou é preciso buscar um modelo mais “comercial”?

TS – Eu penso que o ideal seria encontrar um ponto de equilíbrio entre a expressão artística e o fator comercial. Um trabalho experimental demais dificulta transformar a arte de um desenhista em um bom produto (no sentido de vendas) e um trabalho focado apenas no modelo comercial implica em tornar a produção artística em “mais do mesmo” nas prateleiras. Todo o artista deve ser esclarecido sobre o que pretende com sua arte, assim, moldá-la para alcançar seus objetivos.

DP – Você prefere trabalhar com desenho digital ou mídia tradicional?

TS – Eu adoro ambos, mas gosto mais da tradicional.

DP – Tem alguma coisa que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

TS – Existem várias coisas, mas aqui destacarei a perseverança. Desenhista não pode ser preguiçoso ou imediatista, desenhar é um processo que requer paciência e atenção.

DP – Cite dois artistas que você gosta muito e diga o porquê.

TS – Em primeiro lugar cito Keiji Inafune, criador de Megaman. O concept art das duas séries clássicas são grandes influências em meu traço. Sou um grande fã e tenho quase todos os jogos. Em segundo lugar menciono Jeff Smith, autor de Bone. Sua arte-final me influenciou muito no estudo de alto contraste em traços limpos e expressivos.

DP – Para finalizar, quais suas dicas para quem está aprendendo a desenhar ou gostaria de fazer quadrinhos?

TS – Bem, eu já passei tantas dicas que acho mais fácil que a pessoa as assista em meu canal no youtube, o Crás Conversa Oficial. Lá existem muitos e muitos vídeos sobre diversos assuntos relacionados ao mundo do desenho e dos quadrinhos. A internet proporciona uma facilidade muito grande no acesso a informações, a única advertência é que o jovem aspirante deve ter cuidado nos lugares em que ele busca as informações. Existem muitos sites mentirosos ou pessoas que compartilham informações incorretas sobre um assunto, por isso, o jovem deve pesquisar, mas saber filtrar o que serve para ele.
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