Entrevista com Wagner Willian



Wagner Willian é daqueles pintores que dão medo de tanta habilidade que demonstram com uma naturalidade incomum. O trabalho desse artista nas pinturas tem um realismo e uma vida assombrosos e leva qualquer um a se questionar como ele consegue esses resultados. Acha que eu estou exagerando? Bom, entra aqui no site dele e dá uma olhada antes de prosseguir para ter uma noção do que estou falando.

Fora a pintura, a ilustração e demais trabalhos visuais, o artista escreveu o excelente livro Lobisomem sem Barba (resenha), ricamente ilustrado e agora lançou sua primeira história em quadrinhos, Bulldogma (resenha), já cotada para ser uma das melhores HQ de 2016.

Nessa entrevista Wagner fala sobre seu aprendizado, suas influências e sua visão sobre a arte.

No final temos os tradicionais desenhos antigos até os mais recentes para ilustrar a evolução da artista.

E sempre lembrando que as entrevistas e outros textos sobre evolução artística podem ser encontrados aqui no pela tag aprendizado.

 

DP – Wagner, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Wagner – Sempre, Zé, sempre fui daqueles que não largavam o lápis e o papel e só queria ficar ali, desenhando. O desenho funcionou como uma imersão. Podia ficar horas ali. Era uma fortaleza. Ninguém vinha me aporrinhar. Até chegar um dia e perceber que a vida era mais importante. Minha formação acadêmica foi marcada pela desistência. Fiz uns meses, ainda criança, de estudo na Academia Brasileira de Artes. Ficava na Conselheiro Crispiniano. Nem sei se ainda existe. Voltei lá na adolescência por mais uns meses, onde tive contato com o desenho de modelo ao vivo. Minhas quartas-feiras nunca mais seriam as mesmas. Depois migrei para a Faculdade de Belas Artes. Só deu para pagar um semestre. Caí fora. Pintei duas telas em uma escolinha no centro da cidade e fui chamado para lecionar lá. Fui professor de pintura por quase um ano até perceber que nem todo mundo estava disposto a ouvir a verdade. Nessa época, estava pintando feito um doido, freneticamente, como se minha vida dependesse disso. Talvez seja essa a minha melhor formação, uma exigência vital. Sobre as influências: sou extremamente influenciável, seja por afirmação daquilo que julgo interessante ou pela simples negação. Como o discurso positivo é sempre mais saudável, cito nomes óbvios como Van Gogh, Munch, Schiele, Gauguin, Lautrec, Pollock, Beckmann, Hopper, Rodin, Hokusai, Freud, Degas e tantos outros que me são tão caros.

DP – Você sente que teve algum processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou ou o que atrapalhou na evolução?

WW – Tentei fazer umas três reproduções de pinturas a óleo. A observação empática àquilo que me atrai, pretensiosamente tentar entender os motivos por trás daquilo, é o que mais me aproximou de uma evolução. Como e porque se deu determinada pincelada, foi minha melhor aula. Deixar que o veículo usado (tinta a óleo por exemplo) ditar as regras, foi minha segunda melhor aula. O que mais atrapalha é justamente querer dominar a técnica, subjuga-la.

DP – Você é ilustrador, pintor e agora começou nos quadrinhos. Como é transitar nessas mídias diferentes?

WW – Aí é que está! Não vejo muita diferença. Quando você começa a entender como as coisas funcionam, começa a ver similaridade em tudo. Um tempero a mais na comida funciona da mesma forma que um adjetivo a mais aplicado a uma frase.

DP – Você sempre quis fazer quadrinhos? Por quê?

WW – Sempre, meu velho. Minha memória mais antiga em relação aos quadrinhos me mostra coisas como Lobo Solitário e Superaventuras Marvel. Aquelas imagens enchiam meus olhos que ainda não haviam visto muita coisa. Não dava para ficar imune àquilo. A narrativa dos quadrinhos consegue fazer com que o leitor entre em uma espécie de imersão na história pelo poder que o desenho exerce como também pelo próprio folhear de páginas, respeitando o tempo de leitura de cada um. É curioso como isso cria uma relação com o leitor, muitas vezes de afeto e identificação. Perceber isso foi um dos motivos que me levaram a fazer quadrinhos.

DP – Qual a maior dificuldade fazer uma HQ?

WW – Decidir qual o melhor estilo a traduzir a história. Estilo em relação ao traço, ao ritmo narrativo. Acho que tudo se resume a como definir o tempo visual. E por tempo visual entenda-se tudo.

Uma letra sem serifa possui um tempo diferente de leitura do que uma serifada e por aí vai. Mas a maior de todas as dificuldades, a mais insidiosa é a inexistência de um adiantamento monetário. Por isso que andam dizendo por aí que fazer quadrinhos é fazer amor.

DP – Pintar a óleo, quadros grandes, não é uma opção comum nem barata. Fale sobre o que o levou para essa mídia e como foi sua evolução técnica.

WW – Eu comecei pela pintura. E tudo o que faço é relacionado a isso. Mesmo quando escrevo, meu texto tem um forte caráter pictórico. Se pegarmos minha primeira resposta à sua entrevista, ela foi pautada pela pintura onde o desenho é muito presente. O desenho é a base. A pintura, consequência. A tinta enquanto matéria com seus escorrimentos, seus impastos, me atingem em uma frequência que nada mais consegue. Há algo de demiúrgico na pintura, da criação à imersão durante e depois do processo. Estou usando essa coisa de imersão de novo, mas é o que está me interessando mais ultimamente. Quero ver pinturas que me conduzam para outro lugar e não precisa ser outra realidade, pode ser um lugar dentro de mim mesmo. Isso vale para as outras mídias. Arte como um caminho ao inexpugnável.

DP – Fale um pouco sobre seu processo de pintura. A escolha da temática, a composição visual, a escolha dos materiais, o tempo gasto.

WW – Um tema banal e extremamente elaborado, mesmo que seja para reforçar a banalização da vida, executado com uma técnica hiperrealista para mim continuará sendo uma arte banal e desnecessária. Prefiro ver os coelhos do Liu Xiaodong, do Durer, os girassóis de Van Gogh, realizados de uma maneira maior que a técnica ou tema. O tema acaba sendo um recurso para algo mais. A pintura vem para mim como uma compulsão. Preciso depurar tal ideia ou emoção. A partir disso procuro o meio que melhor o traduza. O tempo será medido pelo desgaste. Em linhas gerais, meu processo de pintura se resume em construção e destruição da imagem.

DP – Você já chegou em algum ponto com um quadro que o resultado não funcionou como na sua cabeça?

WW- All the time… Igual ao molequinho do filme. Geralmente parto de um esboço. A pintura vai assumindo cada vez mais uma voz própria. Gosto de ouvi-la e respeitar o que ela me diz. O mesmo se dá com a música. Você já ouviu uma frase melódica e sentiu que ali faltava um ou outro acorde? É a mesma coisa com a pintura. Se tentarmos domina-la por completo, a imagem produzida trará uma certa afetação, uma dissonância. Não dá para mentir na pintura. Mas também não podemos parecer inseguros na frente dela. Há uma relação de confiança que precisa ser construída. Quando isso ocorre, a pintura acontece.

DP – E essa sua obsessão com extrato de nogueira [Wagner usa com frequência nas suas pinturas o extrato de nogueira combinado com a tinta óleo]?

WW – As obsessões fazem o homem, rs. Cheguei num ponto dentro de minha pintura onde eu precisava me desfazer, criar uma espécie de ruptura técnica. Os efeitos do extrato de nogueira conseguiram me satisfizer pela translucidez, pelo resquício que ele deixa na trama e marcas do pincel. O extrato de nogueira me ajudou a destruir melhor.

DP – Como você põe um preço em um quadro?

WW – Existe uma regra no mercado de artes, e por isso chama-se “mercado”, que diz que uma vez estipulado um valor, você não deverá retraí-lo nunca, jamais ou seu trabalho cairá em descrédito enquanto investimento. Por isso quantificar um trabalho pela primeira vez é sempre difícil, mas sabendo-se que as exposições, catálogos e afins auferem valor a obra de arte, dá para ficar mais tranquilo quanto ao valor inicial. Meu primeiro quadro vendido, quando encarei isso de uma maneira séria, foi para pagar o aluguel.

DP – Não falando de você especificamente, mas você acha mais importante para o artista trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou é preciso buscar um modelo mais “comercial”?

WW – Penso que primeiro você deve se alimentar para depois ter forças para alimentar os outros. Principalmente em relação a arte, não lhe cabe ser agradável a terceiros, coisa que o entretenimento veste muito bem. Seu figurino é outro. Seu caráter é de outra ordem. Agora, se para conseguir seu lugar ao sol e por suas contas em dia, você tiver que passar pelo meio comercial, vai fundo. Não há o menor problema nisso. Mas, uma coisa percebi no mercado de ilustração, e isso é algo que eu sempre gosto de pontuar, todos aqueles que seguiam o modelo mais “comercial” e por isso mesmo genérico, estão perdendo valor porque há uma concorrência cada vez maior. Já aqueles que persistiram em um trabalho mais “autoral”, esses estão sendo contratados para os trabalhos mais interessantes e melhor remunerados. Quando eu devo investir mais em um do que em outro? Não faço a puta da mínima ideia. Só posso dizer que será sempre um suicídio.

DP – O que você tem lido de quadrinhos?

WW – Os mais recentes foram A Propriedade da Rutu Modan, The New Ghost de Robert Hunter, Ardalén do Miguelanxo e Pílulas Azuis do Peeters.

DP – Você prefere trabalhar com desenho digital ou mídia tradicional?

WW – Sou refém das tradições. Subverto-as apenas quando envolve prazo/grana.

DP – Tem alguma coisa que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

WW – Não acredito em fundamentalismo. Uma vez ouvi um colega apontar para um outro que estava folheando um livro de anatomia geral e dizer “quando você decorar tudo isso, será um bom desenhista”. Pura balela! Desenho é essencialmente linha e expressão. Dentro de uma sessão de um modelo vivo, se a clavícula desenhada está no lugar anatomicamente errado, isso não pode configurar a imagem como um mau desenho. Mas para não deixar tão sem resposta assim, acho bom ser o mais natural possível.

DP – Cite dois artistas que você gosta muito e diga por que.

WW – Vincent Van Gogh por transformar a pintura em sua religião. E James Ensor por mostrar o caminho.

DP – Para finalizar, quais suas dicas para quem está aprendendo a desenhar ou gostaria de fazer quadrinhos?

WW – Desenhe de observação, in natura. E tente olhar menos para o papel e mais para o objeto a ser desenhado. Compreenda seu valor antes de sair traçando qualquer coisa.

Quanto a fazer quadrinhos, saiba que você não precisa desenhar como Jean-Claude Glaeys ou Alex Ross para ter um bom quadrinho, nem precisa morrer desenhando todas as janelas do Edifício Copan que aparece em alguma de suas cenas. Acredito muito na estética atrelada ao conceito. O desenho é uma linguagem tanto quanto o texto. Use aquela que melhor contará sua história. No fundo a única coisa que importa é fazer o leitor virar a página.

 

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