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Entrevista: Lourenço Mutarelli



Não sei precisar exatamente quando foi essa entrevista. Foi algo entre 2007 e 2008, na época eu a publiquei no extinto Pop Balões, site que eu mantinha com o Diego Figueira.

De lá pra cá muita coisa mudou na carreira de Mutarelli, ele não tem mais 42 anos, tem filmes adaptados dos seus livros, trabalhou mais vezes como ator, passou a ser publicado pela Cia. das Letras, que inclusive republicou sua HQ Diomedes, publicou uma HQ nova – Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente – e recentemente lançou o impressionante Grifo de Abdera (resenha aqui) que, a sua maneira, reflete sobre toda a carreira do autor.

Depois de ler o Grifo, assistir uma leitura muito emocionante feita por ele do último capítulo desse livro, decidi que, mesmo sendo um material antigo, valia a pena republicar essa entrevista e deixá-la disponível na íntegra aqui.

Então, a partir daqui, fique com o texto original do Pop Balões de quase uma década atrás (nossa… faz tanto tempo?)


 

Mutarelli faz questão de manter uma postura independente de quem coloca sua arte e seu ganha-pão acima do interesse de terceiros. Poucos autores têm a coragem que Mutarelli tem de fazer críticas tão fortes a trabalhos que fez para editoras que ainda publicam seu material. Menos ainda são os que conseguem ser coerentes quando afirmam que não trabalham de graça mas não se tornaram mercenários. Mutarelli demonstra que compreende muito bem a distinção entre trabalho e prazer quando fala de sua arte.

Extremamente sincero, nesta entrevista ele fala de como deixou de ser um autor de quadrinhos para mostrar suas obras em outros meios, como a literatura, o cinema e o teatro. Em todos eles, o caráter pessoal das histórias que ele conta se mostra a principal característica do autor. Quem esperava ver o típico desenhista veterano reclamando da vida dura e clamando por mais espaço para seu trabalho vai se surpreender. Sem demagogia, Mutarelli afirma – e prova – que encontrou seu espaço para se expressar e discute sobre o underground e o mercado de álbuns de luxo que vem se formando no Brasil.

Confiram a seguir a entrevista com este paulistano de 42 anos que tem um histórico de raridades em fanzines e revistas independentes como Over-12, Solúvel e Animal.


Pop: Você disse em cursos e entrevistas que parou de fazer quadrinhos e hoje se dedica exclusivamente à literatura. Como ocorreu essa mudança?

Lourenço: Eu acho que a forma mais simples de entender isso é que eu nunca levei mais do que quinze dias para escrever um livro, que é mais ou menos o tempo que eu levava para escrever o roteiro de um álbum de cem páginas e depois eu passava de dez meses a um ano desenhando isso. Então eu pulo esse trabalho e só por isso já seria interessante.

Eu estou muito cansado de desenhar. Acho que o meu desenho chegou no limite, não tenho tido prazer em desenhar. E o meio dos quadrinhos é bastante desagradável. Então eu me livrei de muita coisa e passei a ganhar dinheiro com meus textos. Não existe amor que resiste a tanto contrário. É mais ou menos isso que me fez perder a graça.

P: A gente acompanha o seu trabalho desde o começo e o seu traço mudou bastante. Por um tempo você inclusive fez ilustrações para os livros de RPG da Devir, como Lobisomem: O Apocalipse, e o seu desenho era bem diferente. Isso acontecia por que era um trabalho encomendado?

L: Eu não conseguia fazer meu traço (característico) porque eram coisas de que eu não gostava nem um pouco e eu tinha que produzir muito para ganhar alguma coisa. Então esses trabalhos são coisas muito “matadas” e totalmente despersonalizadas. Eu tenho certeza que aquilo não influenciou meu traço, mas talvez tenha me ajudado a agilizar algumas coisas ou a ver como pode ficar ruim um trabalho.

P: Você não costuma trabalhar em parceria. Você não pensar em voltar para quadrinhos nem fazendo roteiro para outras pessoas desenharem?

L: Não, fiz muito pouca parceria. Eu tenho muito ciúme das minhas histórias para serem quadrinizadas. Eu fiz um texto para um pessoal que vai fazer quase uma fotonovela. Eles trabalham graficamente (o material) e depois fica parecido com desenho. Eu achei legal o projeto deles e fiz um texto. Mas os meus textos mesmo eu não tenho muita vontade de ver quadrinizados por outras pessoas. Talvez porque não tenha ninguém que tenha um traço que eu acho que caiba com as minhas histórias. Tem gente de quem eu acho o trabalho muito legal, mas eu não sei se ficaria bem com o meu texto. Não sei, acho que eu sou ciumento mesmo.

P: Tem uma declaração do Mauricio de Sousa dizendo que o Angeli faz um underground brasileiro que é melhor que o do Crumb e dos outros americanos. A gente queria saber o que você acha do underground brasileiro.

L: É uma pergunta bem difícil, porque essa história de underground é uma coisa bem complicada. Geralmente o cara que é underground é um cara que não consegue um espaço maior.

P: Você é underground?

L: Não, acho que não. Nunca tive, pelo menos, essa ideologia underground. Acho que o Macarti tem isso. Eu sempre fiz o meu trabalho e nunca tive o objetivo de enquadrá-lo assim. Era underground porque não tinha espaço e eu só queria fazer o meu trabalho.

P: Seu traço no começo tinha grande influência do Crumb.

L: Tinha bastante influência do underground americano. Do Crumb e de outros, como o Ritch Griffin. Tinha muita influência do underground americano, mas não especificamente do Crumb. Era uma época em que eu bebia muito no underground americano, então, mesmo sem querer, era uma coisa que me influenciava bastante.

P: Por que quadrinhos?

L: Quadrinhos porque numa época eu achei que era a melhor forma que consegui de me expressar, de me comunicar. Eu costumo dizer que sempre que eu desenhava alguma coisa eu acabava escrevendo alguma coisa num canto e quando eu escrevia sempre acabava desenhando alguma coisa na margem. E quadrinhos era uma coisa de que eu gostava muito e é mais livre de crítica, tem mais liberdade, acho que foi por isso. Meu pai gostava muito de quadrinhos e acho que foi uma forma de me aproximar dele também. Não existe uma única razão, acho que é uma série de fatores.

P: Hoje você lê alguma coisa de quadrinhos?

L: Eu não leio quadrinhos há muito tempo, há muito tempo mesmo. Acho que faz uns cinco anos que eu não consigo ler quadrinhos, mesmo das pessoas de quem eu gosto. Acho que nesse tempo a única coisa que eu li foi o Stigmata, do Matoti, e alguma coisa do Miguelanxo Prado. Mas eu não tenho tido mais tempo. Eu não tenho conseguido ler nem romance. Estou lendo só os textos mais didáticos.

P: Você fez muita ilustração ligada a rock, chegou a fazer o logo da primeira banda do Gastão Moreira. Como é essa ligação sua com o rock?

L: Até hoje eu faço capa pra banda e geralmente falo que a única condição é que eu não tenha que ouvir a música, porque é uma coisa que não me agrada, mas que já me agradou um dia. E eu acho legal. Os meninos me pedem com muita vontade e aí eu faço porque não me custa nada, em um dia de trabalho eu resolvo e se eu gosto dos meninos eu acabo fazendo.

P: E o que você ouve?

L: Eu ouço principalmente o que eles “chamam músicas com partes repetitivas”. Tem um nome mais sofisticado, “músicas com estruturas repetitivas ou minimalistas”. Eu ouço muito Philipe Glass, Arvon Part. Ouço umas coisas no mínimo exóticas, umas operas contemporâneas e tango sempre. Às vezes ouço rock com o meu filho, estou educando ele para boa música, então eu apresento ele para o que foi bom para mim um dia.

P: Você conseguiu se transportar para outras mídias como literatura, teatro, cinema (a adaptação do Cheiro de Ralo vai participar do Festival do Rio agora em Setembro e estreia nos cinemas em janeiro). Como foi essa passagem?

L: Tudo começou com o Cheiro de Ralo, mas foi meio que um acidente. Eu comecei a escrever uma história e vi que se eu colocasse desenho ia tirar muito da força da história. Então eu fiz como um livro e aí começaram a abrir um monte de portas. Em menos de um mês depois de ter lançado o livro já tinha vendido os direitos. Na época, o Heitor (Dhalia) estava fazendo o Nina e ele me convidou para fazer as animações do filme. Aí eu conheci um pessoal de teatro, gostei muito do trabalho deles e eles queriam adaptar o Cheiro de Ralo para o teatro, mas eu já tinha vendido os direitos. Então eu escrevi uma peça para eles, depois escrevi mais, dois livros e foi indo.

Daí eu virei ator também. Um menino da USP me convidou para atuar num curta dele e eu achei legal. Estava trabalhando com teatro e queria ver como era o outro lado. Só que eu adorei a brincadeira e aí vira e mexe eu estou fazendo alguma coisa.

P: De todo esse espaço que você está tendo, o que você gosta mais?

L: Acho que o que eu mais gosto é escrever mesmo. Tenho tido muito prazer em escrever. Gosto muito de atuar, brincar de atuar. Acho que o que eu mais gosto é brincar de atuar. Mas escrever é o melhor. É o mais criativo. É onde eu me entrego mais. É onde surgem coisas de que eu gosto, por que eu passei. É interessante.

P: Todo mundo reclama do mercado literário. Falam que isso não existe no Brasil. O que você acha?

L: Talvez não exista. Eu acho que não dá para viver de livro. Mas eu vendi tudo que eu escrevi de romance. Vendi os direitos para cinema e teatro e isso dá uma grana boa. Eu fui muito bem aceito pelo meio literário, me acolheram muito bem. Coisa que nunca me aconteceu no meio dos quadrinhos. Nos meio dos quadrinhos sempre me trataram como um anão ou um corcunda, ou uma aberração. E na literatura, pessoas que eu respeito profundamente me trataram com muita igualdade, muito carinho. Então para mim tem sido muito bom e é um meio em que te tratam como um adulto, uma pessoa inteligente. Nos quadrinhos eles te tratam sempre como um garoto rock´n roll, perdido ou alguma coisa assim. É um tratamento mais sério, mais adequado para minha idade. Eu prefiro ir de van do que de kombi.

P: Como é criar um estilo próprio?

L: Isso para mim é bem particular, porque eu costumo dizer que eu crio um estilo próprio por não saber fazer direito. Eu tento fazer dentro do que eu acho que é direito mas eu nunca consigo e aí acabam dizendo que eu tenho um estilo próprio, tanto na literatura, quanto nos quadrinhos e no teatro. Mas acho que é porque eu não sei fazer direito. Tudo que eu faço, para mim, é uma experiência, uma brincadeira. Eu não estou preocupado em ganhar prêmios, em fazer bonito. Eu estou preocupado em experimentar, então eu me entrego, me arrisco, faço o que vem, o que dá vontade, só como uma brincadeira mesmo. Talvez isso acabe refletindo. Eu sempre tive um traço pesado, talvez por nunca ter feito curso de nada, por ser autodidata.

P: Você foi autodidata, mas hoje em dia tem dado cursos e oficinas sobre roteiro. Como é isso para você?

L: É bom o resultado. Eu sempre falo que o meu curso é para desaprender. Quando o curso é longo, eu sempre tento tirar umas coisas que as pessoas mitificam e vou puxando para que elas sejam elas mesmas. É incrível como desenvolve o texto dessas pessoas. É legal acompanhar. Eu acabo fazendo mais por isso. De alguma forma eu estou ajudando elas a se expressarem.Como eu aprendi sozinho… Eu lembro uma vez que eu pedi ajuda para um desenhista quando trabalhava no estúdio do Mauricio de Sousa; era uma técnica muito específica, chamada retoque americano, é uma coisa que hoje photoshop faz, e pedi para me ele me ensinar e ele disse que nunca ninguém ensinou a ele e que eu me virasse. Eu achei isso profundamente egoísta, porque quando a gente aprende é tão bom poder dividir. Eu tento fazer isso, dividir o que eu aprendi comigo mesmo e o resultado me faz bem.

P: Você começou com o Mauricio. Como foi sua carreira?

L: No começo eu trabalhei na parte de animação, como intercalador e depois cenarista. Eu comecei tentando fazer quadrinhos, daí não consegui. Então apareceu uma oportunidade de trabalhar com o Maurício, fiquei lá uns três anos e meio. Aí eu saí de lá decidido a fazer quadrinhos. Fui fazer meus fanzines e tentar, tentar publicar, conseguir espaço.

Na época havia, felizmente – e não que fosse fácil – muitas revistas de banca. Então, com certa insistência você acabava conseguindo um espaço de uma página ou coisa assim e se tivesse uma aceitação eles iam te dando sempre um espaço pequeno. E eu tive essa sorte de ir conseguindo com muito custo um espaço. Depois teve a editora Mil Perigos, que criou o selo Graphic Dealer para publicar o meu álbum Transubstanciação.

Eu percebi que o melhor caminho para o meu trabalho era o de álbuns, seguindo a linha americana. Nessa época tinha a editora Vidente – começou como Vidente e depois sempre ia mudando de nome por problemas fiscais, mas era sempre o mesmo editor, o Gilberto Firmino. Ele publicava com aquelas revistas Porrada Special, que tinham sempre na capa uns adjetivos como “brutal”, “sacana” e “fantástica”. Com ele eu publiquei Desgraçado, Eu te amo, Lucimar e A Confluência da Forquilha. O que eu não sabia na época e vim saber só depois é que a ele procurava a Devir, que era a distribuidora na época e comprava antecipado quantos álbuns fossem necessários para bancar os custos de publicação.

Os meus álbuns sempre venderam pouco, mas tinham um público fiel que garantia que sempre iriam recuperar o que foi gasto em gráfica e com o meu trabalho, não dando prejuízo para a editora.

P: De lá para cá o mercado de HQs mudou bastante, enxugou e caminha cada vez para essa linha de álbuns caros. O que você acha?

L: Tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem é que você encontra quadrinhos em livraria, algo que é em boa parte um mérito da Devir, algo que é comum se não no mundo todo, pelo menos na Europa. Mas no Brasil são raras as pessoas que trabalham com álbuns, geralmente é uma coletânea de histórias antigas ou tiras. Mas vai se criando um mercado como o de vários países, com outros autores e esse material vai tendo uma visibilidade diferente do quadrinho de banca, que vendia muito mas era descartável. O álbum tem um formato mais durável.

O público mudou, o Angeli vendia 120 mil Chiclete com Banana e hoje deve vender em torno de três mil álbuns. As revistas de que eu participei, quando estouravam, vendiam no máximo doze, quinze mil. Trinta mil era a Animal e depois ela teve uma ascensão e uma queda.

É uma pena que saia tão caro. Eu lutei por muito tempo para tentar baixar o custo, mas é impossível porque a livraria pega 50% do preço de capa. Então se o álbum custa R$ 25,00, R$ 12,50 é da livraria. Então você ainda tem que pegar gráfica, fotolito, o meu trabalho, o trabalho da editora e acaba saindo caro mesmo. É uma pena mas é uma forma de sobreviver, de manter os quadrinhos. É a única por enquanto.

P: Todo mundo diz que ser artista no Brasil é algo inviável, não dá para sobreviver. O que você acha?

L: Olha, eu não era artista. Eu me considerava artesão. Trabalhava muito e não ganhava nada. Depois de um tempo, eu falei “Eu vou ser artista”, porque artista tem um monte de regalia, artista pode um monte de coisa. Hoje chegou uma mulher em quem eu dei um puta cano e ela falou: “Não, você pode”. Então eu assumi que sou artista. Assim você não trabalha tanto, pode ter crise, passar a tarde jogando vídeo game e falar: “Aí … não deu”.

Então, ser artista em qualquer lugar não é fácil, mas eu dei sorte. Sei lá, eu tenho dado sorte. Minha vida foi muito desgraçada, mas de um tempo para cá ela está muito boa. Então eu estou aproveitando a maré enquanto dá. Por enquanto eu estou na minha melhor fase. É um enorme privilégio que eu lutei para conseguir de acordar e dormir fazendo o que eu quero, o meu trabalho, e isso é uma coisa incrível. Não pego trânsito. Por outro lado eu não tenho comprovação de renda, não tenho nada em meu nome. Tudo tem um preço. Sei lá, essa coisa de artista é bom, é bom fingir que é artista. Eu acho que eu finjo.

P: Saiu uma declaração sua na Folha de São Paulo dizendo que você vai votar nulo.

L: Foi um susto isso, porque eu não sei quando eu falei isso. Eu fui no mercadinho aqui perto e o cara falou: “Você vai votar nulo, Lourenço?”. Eu disse que sim e perguntei como ele sabia e descobri que saiu no jornal. Eu vou votar nulo, mas não sabia que tinha dito isso. Deve ter sido em Parati (no Festival Internacional de Literatura de Parati), eu dei tanta entrevista picada que nem lembro de ter falado isso. Mas é verdade, eu voto nulo há muito tempo.

P: Mas por que você vai votar nulo? Você acha que a política brasileira não vale a pena?

L: Não vale. É divertido o horário político. Dá para rir, dá para chorar. Eu não acredito em ninguém, muito menos em político, ainda mais os que tem por aí. Peroba neles! É uma coisa surreal, você vê que os caras, todos eles, mamam legal, depois tomam um Dreyer a mais para gravar e parecem um boneco falando. Eu não vou votar nesses caras, sou responsável, minimamente responsável.

E é bom anular. É um sinal de que não tem ninguém aí. E acho que para mim nunca teria ninguém. Eu não acredito em político. Eu acho que se um cara é integro ele vai ser taxista, ascensorista, porteiro, quadrinhista. Ele não vai querer ser deputado, vereador. Isso não é coisa de gente séria. Eu não confio.

P: Qual a melhor obra que você já fez? Qual a obra da sua vida?

L: Pra mim é o Natimorto, é o que mais gosto de tudo que já fiz. Não sei porque, mas eu gosto muito do Natimorto. Talvez porque tenha sido feito com uma editora que fez um trabalho bem cuidado e eu não tive que fazer nada, peguei o livro pronto e ficou bem legal. Também porque eu gosto da história.

Das minhas histórias em quadrinhos, a que eu mais gosto é uma que saiu no Seqüelas, que se chama Resignação.

P: Você tem um tema constante?

L: Tenho algumas coisas que são recorrentes, mas quando eu escrevo nunca quero passar uma mensagem, nunca tenho um dogma ou coisa assim. Eu quero dividir coisas que eu penso que me afligem ou uma história que surge. E tem coisas que são recorrentes, mas porque são recorrentes na minha vida, então são coisas que aparecem e desaparecem, mas sem um objetivo. É porque elas voltaram.

P: Como você mesmo disse, você tem um público fiel. O que você acha disso, ter uma pessoa que admira o seu trabalho?

L: É muito legal, porque é o que mantém o meu trabalho. É muito constrangedor ao mesmo tempo, porque eu não sei nada deles, porque eu não os conheço. Às vezes eles me vêem e eu não sei quem são e isso é uma coisa muito estranha. Mas a gente sempre tem muita gratidão porque é o que mantém o meu trabalho, o que me permitiu seguir.

Quando eu faço uma história eu não faço pensando em ninguém, eu faço para mim. Mas isso é mais legal ainda, saber que alguém gostou daquilo. É uma sensação boa, uma sensação de amparo.

P: Em literatura quais são as suas influências?

L: De certa forma, as influências minhas na literatura são muito semelhantes às dos quadrinhos. Não sei nem se são influências, mas as pessoas que me marcaram muito na minha tenra idade, como Dostoiesvisk, Kafka, Borges, mais recentemente Dionfante, Elroy. Muita gente boa, que marca mesmo. Ionesco, Becket. Difícil dizer uma influência. São muitas, a gente sempre se intoxica das coisas que a gente gosta e isso fica muito invisível. É difícil para o autor dizer uma influência, a não ser o cara que siga mesmo uma linha.

P: Seqüelas foi uma coleção de pequenas histórias. Você tem vontade de lançar alguma história sua que esteja pronta e não saiu?

L: Eu não tenho nada inédito. As únicas que tenho inéditas são histórias póstumas, que eu costumo dizer que se eu publicar eu morro. Tenho coisas que se perderam, coisas que saíram em fanzines da Porrada, que era um material que se chamava “Histórias impublicáveis”, mas eu nem sei mais onde estão esses originais e eram coisas muito ruins. O Seqüelas eu já me senti meio constrangido em publicar, mas os leitores que não conheciam meu trabalho avulso pediam, então eu resolvi publicar. Tenho coisas começadas, mas que provavelmente nunca vou terminar.

P: Você não faz o famoso fundo de gaveta?

L: Não tenho. Eu sempre consegui escoar tudo. Eu também não sou daqueles que ficam produzindo por produzir. Eu não tenho sketchbook. Isso também é uma coisa do desenho que é saturado para mim. Nunca mais eu desenhei por desenhar, sabe, ficar no telefone rabiscando alguma coisa. Nem Imagem e Ação (jogo de mímica e desenho) eu jogo porque não desenho de graça. Virou uma coisa muito de trabalho. É sério, o pessoal jogava e eu falava “De graça nem fodendo”. Virou uma coisa assim, só para bandas de rock mesmo. Mas eu nunca deixo falarem o preço que me pagaram e isso criou umas lendas. “Quanto você tem?”. “Eu tenho trinta, cinquenta”. “Tá, então me dá aí e fala que você pagou mais, fala seis mil”. Se não eu me queimo, porque tem gente de quem eu cobro caro.

P: E para escrever? Você não escreve algo mais solto, uns “rabiscos”?

L: Escrevendo eu faço isso. Mas é uma coisa meio espiritual, é como se eu fosse tomado. No momento eu estou escrevendo dois livros e uma peça de teatro. Não podia, mas eu vou alternando. De vez em quando eu começo algo e isso não se desenvolve, então eu aproveito aquela idéia em outro lugar. Eu comecei fazendo um livro de contos, daí eu fui vendo que eu estava trabalhando dois livros e fui seguindo. É bom porque um é muito difícil, pesado e o outro divertido. É mais ou menos como quando eu trabalhava no Diomedes e fazia as histórias para o CiberComix, eu dosava dois esquemas que eram legais.

A literatura é bom porque é um mergulho bem profundo, bem intenso e você sai rápido. Daí você precisa de um tempo para observar aquilo. Absorver, ler, isso é importante para não se repetir demais.

P: Você tem alguma estética, poética, coisa que você sempre tenta seguir?

L: Eu diria que eu tenho um padrão de qualidade. Por mais experimental que seja, eu tenho um limite. Eu tento fazer da melhor forma possível, porque eu poderia publicar um monte de lixo, mas isso eu não acho legal.

Eu tenho tido a experiência agora de trabalhar argumento para outras pessoas e isso é um pouco mais difícil, porque nem sempre fica com o mesmo peso que uma história minha. Mas é legal, porque o valor desses textos é justamente quando eu me despersonifico. Isso às vezes é o grande mérito desses textos, deixar de ser eu, ser minimamente eu e mais a coisa que a pessoa quer. Isso é um desafio, mas que nem sempre o resultado me agrada. Me agrada o acordo que eu fiz com a pessoa, se agradei a pessoa, mas não como uma obra minha. E eu pretendo publicar alguma dessas coisas.

P: Você já falou de roteiros que você faz atendendo pedidos dos mais estranhos. Você ainda faz esse tipo de coisa?

L: Faço, faço porque esse tipo de coisa dá muito dinheiro e eu sou muito prostituto nesse sentido. Faço e continuou fazendo, a não ser que não paguem. Porque para mim é fácil. Eu estou conversando com eles, eles estão falando a idéia e é como quando eu era ilustrador. Se eu visualizava o que a pessoa quer, tranqüilo, mas se eu não visualizava era mais complicado.

P: O que você acha que faz um bom livro, um bom quadrinho? O que faz uma boa história?

L: Acho que tem algumas coisas que são básicas que as pessoas esquecem. Uma boa história não precisa ser uma coisa totalmente inédita, revolucionária, ou inovadora. Acho que o que é essencial em uma história de qualquer natureza é que ela seja bem contada. Que ela tenha uma estrutura, que ela flua. Acho que basicamente uma boa história é uma história bem contada. Você conta e não é sofrido para quem lê, não precisa de explicação.

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